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6.5.11

Branco para recomeçar

Uma história que será contada em três tempos e com três diferentes cores. Lembram-se da trilogia das cores do diretor Krzysztof Kieslowski? Em outro dia eu havia escrito sobre a descoberta da criatividade para vivenciar a dor da perda de um ente querido. Um setting azul foi facilitador do reencontro de uma mulher com possibilidades de criação que lhe eram próprias. Hoje, o tema da criatividade será novamente trabalhado, mas desta vez, em tons de branco. Será por meio deles que lançaremos luz sobre o segundo filme da trilogia, cujo nome é A Igualdade é Branca | Trois Couleurs: Blanc – 1994 |.

 

Enquanto a primeira história contavá-nos sobre uma mulher que havia perdido o esposo e a filha em um acidente, esta segunda proposta apresenta um homem que temia perder sua esposa. Nas primeiras cenas do filme, Karol | Zbigniew Zamachowski | vivenciava a dor decorrente da fala de um outro em um tribunal de justiça. Nesta situação, sua esposa Dominique | Julie Delpy | reivindicava o direito pelo divórcio. Karol mostrou-se enfaticamente disposto a manter este laço conjugal. Contudo, quando sua esposa foi questionada sobre o motivo que a levava a querer desvincular-se dele, ela afirmou: “um dia o amei, hoje não o amo mais”.  Deste modo, Karol passou a se relacionar com a perda da esposa e com o mundo a partir do vazio sucitado por este evento. 


Nesta obra, Kieslowski novamente evoca a temática da perda de um ente querido assim como a ausência de sabor e prazer pela própria existência humana. Enquanto Karol tocava gaita próximo a uma estação de metrô na França, ele foi abordado por Mikolaj | Janusz Gajos |, um homem que reconheceu uma das canções entoadas. No encontro com ele foi possível haver uma experiência nova pautada na linguagem compartilhada entre ambos, foi um momento no qual Karol pôde expôr o seu mundo interno e comunicar a dor e o vazio que sentia. 

Na ausência de trabalho e dinheiro, Karol ansiava por algo que fosse capaz de nortear a sua vida. Foi nesta ocasião que Mikolaj lhe informou que conhecia um homem que pagaria bem à alguma pessoa que fosse capaz de matá-lo. Diante disto, Karol questionou-lhe: “ele tem mulher, filhos, dinheiro... e quer morrer?” Para ele, que nesta situação possuía apenas uma mala e pouquíssimos bens, era difícil compreender este outro desconhecido. Ele não se propôs a realizar tal ato, mas solitou a Mikolaj que o ajudasse a retornar para Polônia. Tendo em vista que Karol possuía apenas uma mala, foi exatamente este o objeto aproveitado: ele a esvaziou e fechou-se dentro dela, convicto de que suportaria as próximas quatro horas de viagem.


Quando Karol arriscou retornar para o seu país, ele estava lidando com a sua própria capacidade em ser criativo e transformar uma situação terrificante em algo novo. “Enfim, em casa” – ele re-encontrou o seu lugar de origem e agora se arriscaria em uma busca pelos aspectos criativos do seu self que foram obscurecidos com a separação da esposa. Após rever o seu irmão, ele voltou a exercer sua atividade de cabelereiro, mas os seus projetos eram outros. Havia um roteiro inédito elaborado para os próximos meses e para tanto, ele se encontrou com Mikolaj afim de informá-lo que estaria disposto a realizar o homicídio.


É capaz que seja contraditório ou insano ou até mesmo de ordem absurda afirmar que na tentativa de matar um homem, um sujeito foi capaz de encontrar-se com aspectos criativos do self, mas foi exatamente o que aconteceu. O homem que desejava morrer era o próprio Mikolaj e ao mesmo tempo em que Karol se mostrou apto para matá-lo, ele também o questionou quanto à certeza deste propósito. Não sabemos quais causas eram desencadeadoras da desesperança de Mikolaj, mas diante da real desistência pela vida ele decidiu permitir-se uma oportunidade nova, e cumpriu sua promessa de pagamento. 


Há uma cena em um campo coberto de neve que mostra dois homens capazes de explorar um setting no qual encontravam júbilo diante de uma oportunidade para brincar. A perspectiva do brincar adulto, segundo Donald Winnicott, envolve a capacidade de transformação e reconhecimento do valor da vida. É o encontro do mundo interno com a realidade externa em uma área intermediária chamada espaço transicional, no qual fenômenos transicionais ocorrem. Estes fenômenos envolvem um poder de criação. Assim como a criança é capaz de manipular um objeto real e lhe dar vida, o adulto pode usar a sua capacidade de abstração e imaginação para encontrar um novo significado para sua existência. Porém, se o mundo interno do sujeito encontrar-se em uma condição terrificante, o brincar não ocorre. As ansiedades limitam o gesto espontâneo e criador. Para Winnicott, o brincar é o tema por si só, e em uma terapia é preciso que seja resgatado esta capacidade para brincar, sendo fundamental que o paciente re-encontre a sua capacidade criativa.


Dentre algumas características que envolvem o brincar, destacamos anteriormente a criatividade e a imaginação. Pois bem, será válido nos atermos a estas. Karol elaborou um modo de reencontrar-se com a antiga esposa. Um testamento foi escrito no qual todos os seus bens seriam deixados a ela e uma morte fictícia seria realizada. Elaborar a própria morte pode parecer, no mínimo, uma ação delirante, mas neste contexto, envolvia um objetivo maior. Vejam, para Dominique era como se Karol não mais existisse, enquanto ele militava por um lugar junto ao desejo dela. Se ele estava simbólicamente morto para ela, então ele “se faria morto” na realidade para que ela pudesse objetivamente perceber como ele se sentia.


Enquanto falávamos sobre criação, outros dois nomes podem ser dados a esta atitude de Karol: vingança e prova de amor. Contudo, Karol não simplesmente queria mostrar o seu ódio para com a esposa e nem somente ilustrar o quanto ela era valiosa, ele ansiava, acima de tudo, que Dominique pudesse minimamente se projetar ao lugar dele, apercebendo-se da sensação de vazio que ele sentiu após o distanciamento entre os dois. Ele inventou um roteiro afim de que uma experiência de empatia pudesse ser presenciada. Somente por meio desta seria possível testificar a igualdade de um mesmo afeto.

Diante da dor de uma separação, Kieslowski mostrá-nos a capacidade criadora do sujeito, afirmando que, simbólicamente, a igualdade é branca no que diz respeito à horizontalidade da relação entre Karol e Dominique que foi pautada numa experiência de empatia, de testificação do valor e importância pelo lugar ocupado pelo outro.

Abraços à todos,

Renato Oliveira

6.10.10

A criatividade é azul

Um luto que não será vivido de preto. Não haverão velas, mas sim uma atmosfera composta por água, e o preto será substituído por AZUL. Não se trata de uma nova tendência, mas de um roteiro que, com grande sensibilidade, apresenta um modo diferenciado de elaborar a dor da perda do outro.


Trata-se aqui da trilogia que o diretor Krzysztof Kieslowski realizou a partir das cores da bandeira da França. Hoje será apresentado sobre uma liberdade que se mostra azul | Bleu – 1993 | e que destaca um modo peculiar de relação com a falta de um ser querido. Em virtude de um acidente de carro, Julie | Juliette Binoche | perdeu seu esposo e sua filha. Ela foi informada deste fato apenas quando encontrava-se numa clínica de recuperação, dias após o acidente. Julie, ainda internada, tentou suicídio, sem sucesso. E foi assim que novos sabores e tons seriam capazes de preencher aqueles próximos anos. Nós observamos que após a saída daquele hospital, Julie adquiriu uma nova postura diante dos fatos de sua vida. Ela vestia-se de preto, mas o significado era outro. Seria um recomeço, e o diretor nos apresenta o lugar de uma mulher que sabia como se orientar naqueles próximos tempos. 


Estive pensando que a arte pode ser feita conforme o querer do artista, pode ter o formato e a cor que ele assim desejar. O que vemos aqui é a singularidade do pintor que nos apresenta elementos simbólicos e a vivência de um luto em uma atmosfera fria. Algum tempo após o acidente, Julie retornou a sua casa e se desfez de inúmeros objetos que pertenciam a seu esposo, inclusive das partituras de um célebre trabalho que ele vinha desenvolvendo para a celebração da Europa. Os seus próximos dias também não seriam mais vivenciados ali. Contudo, houve algo que a atraiu. No quarto esvaziado restou um lustre azul e foi este objeto que ela levou consigo. 


Julie replanejava a sua vida. Os seus afetos e motivações aparentavam estar dissociados do fator traumático. Surge a questão: o acidente foi um fato traumático? Percebam que socialmente era esperado uma postura dela. De algum modo Julie deveria apresentar-se enquanto a mulher viúva que em luto, choraria pelo esposo e filha perdidos. Isto não aconteceu. Há uma cena interessante em que ao observar que a funcionária chorava, Julie questionou-lhe: “Por que você chora?”. É dito-lhe: “porque você não está chorando”. 

É válido enfatizar que Julie relacionava-se com a perda a partir de seus conteúdos internos. O sofrimento, a falta e principalmente a dificuldade em simbolizar e dar sentido para aquele fato era existente, o que diferenciava, neste caso, era o seu modo de se relacionar com esta situação. Parecia que a vida não mais possuía, em si, um sabor. Ela não conseguia encontrar-se com a criatividade que lhe era própria. Seria necessário elaborar psíquicamente o fato ocorrido afim de que suas ações não fossem meramente mecânicas e que o significado da existência e da liberdade pudessem ser encontrados. 


Diante desta noção acima, constatei e busquei compreender a função da água presente no roteiro. Durante a história, Julie mergulhou quatro vezes numa piscina azul ofuscante e, em cada uma delas, os seus movimentos e o seu modo de relação com aquele espaço eram diferenciados. A piscina era a mesma, mas os conteúdos internos de Julie, não. Algo se modificava conforme ela gradualmente interagia com este espaço. No terceiro mergulho, perguntaram-lhe: “você está chorando?”, Ela diz: “não, é água”. Afinal, por que ela precisaria chorar? A imersão tinha um significado, e certamente representava sua necessidade em sentir-se submersa à uma condição interna que lhe permitisse elaborar o luto. Mas vai além disso. Pensando a partir dos trabalhos de D. W. Winnicott, podemos compreender aquela piscina enquanto um Espaço Potencial que lhe possibilitava não somente elaborar a perda, mas a capacitava para um encontro consigo própria, através da busca do self. É este encontro que é possível quando o sujeito se relaciona com um espaço no qual há espontaneidade afim de que ele possa criar. Nestas condições, o brincar acontece.


No caso de Julie, tratava-se de uma oportunidade de reencontro: consigo própria, com seus valores, desejos e acima de tudo: com o seu potencial criativo decorrente da liberdade em poder manifestar os seus conteúdos internos. Na piscina, o choro poderia ser manifesto, o brincar ocorreria e não seria um olhar do outro que reprovaria tal iniciativa, ali Julie vivenciava uma EXPERIÊNCIA DE LIBERDADE que a faria constatar que a vida ainda tinha um sabor. A certeza de que, após a destruição é possível reparar o que foi devastado é fundamental para que a existência do sujeito aconteça. Julie encontrava este espaço no silêncio e na incomunicabilidade com um outro. O silêncio pode ser tido como um espaço para brincar, tornando-se um meio facilitador para o encontro com as suas verdades. Para Julie foi preciso o encontro com o único elemento que não possui sabor, cheiro e nem cor para elaborar uma tentativa nova de ‘dar vida’ à passagem daqueles dias. Julie vivenciou a rica experiência do brincar, ela imaginariamente coloriu a piscina de azul. A liberdade que aquela piscina apresentava lhe autorizava a ser criadora, permitindo-lhe compreender o significado da sua existência. 

Abraços à todos,

Renato Oliveira