Mostrando postagens com marcador filmes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filmes. Mostrar todas as postagens

30.5.14

bela e vencedora

A resenha de hoje é especialmente destinada às pessoas loucas. Loucas... E sonhadoras. Lógico que não me refiro a "loucura foucaultiana", às lutas por saúde mental para benefício dos exilados ou coisa do tipo. A abordagem esta mais próxima da noção de loucura em Freud (yeah!), em sua psicopatologia da vida cotidiana. Trata-se, na verdade, não de um tipo de loucura que assola a vida das pessoas, mas sim daquela que se difunde nos dias da gente da maneira mais sutil e caricata possível. Existe coisa mais insana do quando nos reunimos para conversar em família? Mas, e se você for fazer uma viagem e de repente as coisas parecerem realmente malucas e fatos inesperados acontecerem de forma nada óbvia? Ademais, o "mundo infantil" é absolutamente doido e iremos revelá-lo, talvez, por meio de Olive | Abigail Breslin | em sua busca pelo prêmio Little Miss Sunshine (2006).


A paisagem é amarela, e os talentosos Jonathan Dayton e Valerie Faris (diretores) e Michael Arndt (roteirista) souberam criar uma atmosfera tão propícia para que conhecêssemos uma família comum – talvez como tantas possíveis outras retratadas no cinema – mas com sua singularidade. Sim, especial por ser um grupo de pessoas com questionamentos e dissabores próprios de gente que convive com gente. Filosofias de portão à parte, é significativo que você saiba que o filme retrata um sonho infantil: uma garota que acreditava ser talentosa sentiu-se radiante com a notícia de que poderia concorrer ao prêmio do ano. Tratava-se de um concurso de talento. E o interessante é que isso não explica tudo.


As crianças deveriam aproveitar mais a infância e explorar as habilidades para cantar, dançar, interpretar, fazer mágicas e afins, porque na vida adulta ouvirão, por vezes, que não tem nem tiveram talento algum. De todo modo, o filme já se inicia com uma cisão entre vencedores e perdedores, bem como com uma transmissão de um “discurso de miss” sem discurso, somente com o sorriso de uma mulher colocada num lugar de honra. Era esse o status que Olive queria? Certamente, era neste local que seu pai Richard | Greg Kinnear | esperava, um dia vê-la. Era ele quem delimitara essa dicotomia entre quem vence e quem perde, bem como se tornou o “agente da viagem”, que incluiria uma aventura em família, composta por seis idílicos e peculiares cidadãos.


A ocasião não nos permite analisar um por um, contudo, para além de Olive, façamos menção aos demais queridos. 1. Sheryl | Toni Collete |, a mãe >> ansiosa, afável, que amava sua família; 2. Richard, o pai >> você já sabe que ele separava pessoas que vencem das que perdem, seu objetivo era vencer; 3. Dwayne | Paul Dano |, o irmão >> tinha feito um pacto consigo mesmo, por isso parou de falar. Lia Nietzsche e odiava a todos; 4. Tio Frank | Steve Carell | >> tentou suicídio e como não deu certo, foi morar com eles. Não apreciava sua vida após frustração sentimental, era cult, lia Marcel Proust; 5. Avô Edwin | Alan Arkin | >> mais moderno do que possa parecer aos desavisados. 


Gente tão arrojada assim só poderia discutir quando se reuniam para uma refeição. Pois bem, um fato estava posto: a viagem. Desde os preparativos, coisa rápida, Olive “enlouqueceu de alegria” com a possibilidade de viver a experiência do concurso. Por tempos, ela ensaiou com seu avô e certamente sua apresentação seria fantástica! A história pode ser considerada uma versão atual dos clássicos road movie, desta vez estrelado por uma criança, e nos apresenta as discussões verbais e ansiedades de cada um durante o longo percurso até o local do evento.

Mas, o que tem de psicanalítico nisso, numa história de viagem? Ora, muitos dirão que não é somente um “conto de estrada” porque o que aconteceu na chegada também foi muito significativo: e estão absolutamente certos! Mas pretendo me deter ao que sucedeu enquanto eles iam ao concurso, o “durante”, apenas. No “percurso de vigília” era preciso cuidar da manutenção da perua amarela, atentar-se ao tempo, distanciar-se de suas ocupações de rotina, entre outras coisas. De outro modo, no “percurso psíquico” – e para tanto me limitarei à análise de Olive – cabia a ela reunir seus objetos internos, já introjetados em seu ego, e experienciá-los como fonte de criatividade, confiança, vigor... E ir a seu destino.  



Vale ressaltar que ela estabeleceu uma família na realidade externa ao integrar cada um como um ser único, separado e distinto e ao mesmo tempo em relações uns com os outros, e uma família interna. A respeito da qual, sabemos que isso só pode acontecer conforme a criança também desenvolve uma noção dela mesma como um ser separado de seus pais, com uma vida interna que pode ser enriquecida pela presença deles. O processo de crescimento pressupõe a necessidade de introjeções boas, da apropriação de bons referenciais que se tornam não apenas exemplos a serem seguidos, mas também fontes de inspiração para aprendizados e realizações. A partir de então conseguimos pensar na noção de riqueza do mundo interno. Nota-se que Olive introjetou cada familiar como um objeto bom, capaz de ajudá-la em sua ansiedade frente ao desafio de disputar um prêmio. 


Todos eles realmente “caíram na estrada”, e de fato é interessante observar uma correlação entre a estrada física (principalmente quando contempla longas distâncias) com a alusão a uma estrada que representa a vida. Em ambas se encontram as noções de percurso e passagem. E na estrada da vida estamos destinados à descoberta de que somos uma unidade composta de muitas partes e experiências boas e más. E “cair na estrada” implica aceitar a “lei” mediante a qual temos que reconhecer a existência de agressividade externa e inerente a nós mesmos, bem como a finitude dos objetos que amamos. 


Durante o percurso, um dos impasses que Olive precisou enfrentar foi a incerteza quanto a sua própria capacidade para disputar com as demais candidatas. Nota-se que a figura paterna, Richard, era assimilada por ela como o detentor de um saber verdadeiro no momento em que ele tenta persuadi-la a não tomar sorvete de chocolate, pois este continha gordura e a faria ganhar peso. Mas de onde vinha a noção de que ela aos sete anos precisava ser magra? O discurso “pró-magreza” era validado pelo pai, mas primeiramente correspondia a uma “verdade” socialmente aceita. Um dos possíveis efeitos da assimilação no ego desse ideal corpóreo pode ser notado em uma cena em que Olive pergunta, entristecida, para seu avô: “Eu sou bonita? (...) Não quero ser uma perdedora, porque papai odeia perdedores”. Ser uma “pessoa feia” era uma possibilidade sentida com ansiedade e angústia para Olive e mesmo para crianças ainda mais novas. Talvez para ela a noção do que é ser bela aos moldes sociais não pudesse ser relativizada. E não seria fantástico se a vida toda não formássemos um conceito definido de beleza? Ou se a ideia de beleza fosse ampla e democrática o suficiente para incluir pessoas com seus múltiplos talentos e formas ao invés de afugentá-las com rótulos? Infortunadamente, não ser bonita, para Olive, estava muito próximo a ideia de não ser vencedora, e perder, consequentemente, o amor e admiração do pai.


A análise de alguns comportamentos de Richard permite-me também supor que Olive introjetou sua ansiedade de aniquilamento, bem como seu temor em não conseguir ser suficientemente boa nas mais diversas áreas da vida. Mas ela também introjetou a bondade e confiança do avô, sendo capaz de se identificar com ele. A crença de Olive em sua capacidade artística também era decorrente de sua relação com ambos os pais, sentidos como bons nutridores, capazes, inclusive, de se apartarem temporariamente de seus interesses pessoais para viver a “loucura” do sonho da filha. O papel deles era se mostrar na realidade como presentes/disponíveis para que ela pudesse usá-los e usufruir de algo significativo para si própria. A história é trágica e imprevisível porque é um retrato da vida de pessoas normais que lidam com imprevistos, tragédias e esperanças.                                            


E será que mesmo depois dessa resenha, após o filme e antes do término de todas as coisas, o “sonho americano” continuará o de ser Miss America? Talvez seja válido nos perguntarmos quanto a quem respondemos quando “corremos atrás” de corresponder ao “formato ideal” que à la distance nos é oferecido. Por que não refutar algumas ideias? Independente do resultado do “concurso da vida”, questionar os lugares sociais postos não nos fará perdedores, pois como disse o avô de Olive, em resposta às ansiedades dela: “um real perdedor é quem tem tanto medo de não vencer, que acaba nem tentando”. E ela tentou e foi afortunada ao compartilhar da loucura familiar em cada parte do trajeto, o principal espetáculo da vida.

Um abraço,

Renato Oliveira

10.3.14

a vida durante a guerra

A sorte de hoje é que você não é a personagem principal deste filme. Agradeça ao Universo por isso. Afinal, o maestro da presente ópera é mestre em selecionar pessoas em lugares públicos para transformá-las nos agentes de seus pesadelos. Tudo acontece porque a sociedade existe e funciona exatamente do jeito que você esta pensando. E sim, ele continua afim de expor certas verdades: Todd Solondz!!!

Não há dúvida de que os trabalhos de Todd são “a cara do Cine Freud”, são filmes que nos permitem uma ácida revolução sem sair do lugar de modo que elaboremos alguma coisa sobre o homem hoje. Exato, homem como sinônimo de humanidade. Hoje você irá rir e chorar internamente e não há dúvida de que o principal infeliz da história não estará aqui para se defender. Com efeito, a narrativa é sobre um homem que não queria crescer – ou será que ele não podia? Nós iremos desvendar alguma coisa de muito singular a ser extraída do galope deste cavalo negro | Dark Horse (2011) |.


Os personagens criados pelo fulano anteriormente citado geralmente são seres excêntricos, com um senso de observação da realidade e cativos às suas próprias ilusões. Se comparado com os demais, eles estão sempre em outro ritmo. Abe | Jordan Gelber | era assim e numa festa de casamento ele observava desinteressadamente pessoas eufóricas que dançavam como se não existisse amanhã. Nesta ocasião ele flertava com Miranda | Selma Blair | e sem insistência alguma conseguiu obter o telefone da jovem moça. Claro que ele almejava sair com ela, e por essa razão a contatou no dia seguinte. Ademais, em sua casa, ele se esquivava de qualquer proximidade com seus pais e se refugiava em seu próprio mundo – o fatídico quarto, um espaço repleto de heróis em miniatura, brinquedos, figuras de aviões, carros e afins.


Nosso camarada dirigiu-se também a uma loja de brinquedos, e com a mesma imponência com que tratava seus pais e pessoas da empresa, ele exigiu a troca de um “herói de plástico” que continha um “defeito”, isto é, um pequeno risco. Vale desde então considerar a existência do interesse de Abe por “brinquedos perfeitos” e pela conquista daquela jovem bonita e “não quebrada”, mas ao mesmo tempo tomada por uma apatia abrupta! Exato, no dia do encontro, ela parecia não se recordar de ter firmado algum compromisso com ele, e os assuntos da conversa não poderiam ser mais peculiares: adoção, consumo de cigarros... Câncer nos testículos (sim, em ambos). E sim, para Abe, acertar a lata de Coke Diet na lixeira valia dois pontos. 


Mas acontece que havia um cântico de esperança para ele. Em seu carro, ele ouvira uma música que dizia o seguinte: “hoje será o dia perfeito para viver a sua vida e fazer qualquer mudança. Você pode ser quem quiser. Dia de levantar e escolher seu próprio caminho. Agora é a hora de procurar o céu”. Inspiração máxima! Tanto que nesse mesmo dia ele pediu Miranda em casamento. Ela teria todo o tempo para pensar a respeito. Eloquência e intrepidez não faltavam ao jovem moço! Indiferença, também não: em sua volta a casa dos pais, sua atitude para com eles era de pleno descaso. Devo declarar que tempos depois, a resposta dela ao pedido foi: “quero querer você, é o que me basta”. E ao beijá-lo, concluiu: “isso não foi horrível, as coisas poderiam até ser piores”.

É certo que um fato estava posto em cena: Abe se relacionava com as pessoas empregando constantemente o mecanismo de divisão, para ele os objetos estavam cindidos em seres idealizados (Miranda) – para com a qual ele se comportava como uma “criança feliz e esperançosa” – e seres desprezados (seus pais, funcionários da empresa, e o mundo em geral), e para com esses sua atitude era de notória revolta. Ele rejeitava uma aproximação aos mesmos, enquanto frente a ela se mostrava muito mais falante, flexível e demandante. Na idealização havia a presença de amor, confiança e entusiasmo, enquanto para com os objetos da outra categoria supracitada, é a indiferença, a desconfiança e a hostilidade que imperavam. 


Para ele, o casal parental era concebido como uma união imperfeita. As ansiedades suscitadas pelo mesmo eram amenizadas na fantasia inconsciente de Abe também mediante a divisão. Ora, Jackie | Christopher Walken | era ao mesmo tempo pai e chefe, ambas as posições que se associam a um lugar de poder. É bastante provável que a indiferença de Abe para com ele ocultava um real temor desta autoridade bem como um inconsciente sentimento de inveja edípica primitiva. Em conversa com Phyllis | Mia Farrow |, sua mãe, nosso cavalheiro murmurava: “papai é tão babaca. Quero dizer, eu sempre sou tão legal com ele. Por exemplo, mostrando como ligar a TV e outras coisas”. Ele mencionou, inclusive, a hipótese de fugir de casa. Em relação à figura materna, contudo, o relacionamento tinha uma configuração distinta, pois, primeiramente, esta era posta em cena como “a outra peça do jogo edípico”, afinal, eles disputavam dinheiro no jogo de gamão e esta lhe devia 845 dólares. Como uma criança que não suporta ouvir “não” ou “espere mais um pouco” ele revogava que lhe fosse destinado um cheque como pagamento. Ademais, ela era um ser compassível, colocada e sentida como mediadora no embate entre pai e filho “já crescido”.


Este cenário complementa-se, por fim, com a figura do irmão Richard | Justin Bartha |. Não farei comentários referentes a aparência dele. Como talvez dissesse Freud: tirem conclusões da experiência de vocês em ter um irmão médico, brilhante e bem sucedido em todas as áreas da vida. Claro que Abe o odiava e que Richard [Dick] era o predileto dos pais, e – agora vem a parte drástica – dizia Phyllis que amara os dois filhos de igual modo, sem acepções. Vamos lá, não há como não elencar a possibilidade de que Dick representasse um objeto ideal de Abe expelido, que na realidade externa era odiado por materializar-se como um ser cuja perfeição era impossível de ser atingida. O ódio e a inveja inconsciente eram torturantes para serem assumidos na consciência de Abe, de modo que para se livrar destes sentimentos penosos, ele os projetava sobre a figura do irmão e o atacava verbalmente, “destronando-o”, como se o mesmo fosse esvaziado de qualidade e quaisquer possíveis dotes. Em sua fantasia, o pênis do irmão e do pai eram sentidos como objetos terrificantes, capazes de atrair o interesse materno e, para além disso, concebidos como superiores ao seu. Abe não podia introjetar tais objetos e uma consequência direta disso era sua hostilidade declarada para com todos de sua família e trabalho, em especial, os homens.


Agora quero saber de vocês: pareceu-lhes uma abordagem de um cavalheiro imaturo, um corpo em proporção de homem com mentalidade de menino? Qual idade mental vocês dariam a esse jovem com menos de 30 anos? Ora, percebe-se que Abe tinha um ego integrado, porém imaturo, com discursos e comportamentos muito pouco concisos. A sua divisão de objetos em bons e maus o fazia portar-se como um “ventríloquo feliz” diante de uns e um “rebelde sem causa” junto a outros. Ele não assumia as responsabilidades do trabalho e não via sentido em ser corrigido por quaisquer erros. Faltava-lhe princípio de realidade?

O mecanismo de divisão é por si só um recurso absolutamente primitivo do ego, bem como a projeção excessiva, ambos usados com frequência por Abe. Ele se referia a Justin | Zachary Booth |, seu primo, como um loser (perdedor, em inglês) e a Dick como alguém mais baixo e “super inseguro”. Em sua fala, estes objetos eram esvaziados de bondade e desprovidos de qualquer potencialidade. Ele não conseguia se haver com sua própria destrutividade dirigida contra o casal parental e outros objetos. Logo, para evitar a ansiedade consequente deste fato – bem como seu sentimento de inadequação social (expresso desde a cena inicial no casamento) – Abe atribuía suas próprias características terrificantes a seres reais, sentidos como portadores de toda sua maldade e fraqueza. Ademais, o mundo era um lugar aterrorizador, a este respeito, cabe observar sua descrição do mesmo: “somos todos nós pessoas horríveis. A humanidade é uma fossa da porra. As pessoas se olham no espelho todo santo dia e mentem para elas mesmas dizendo que são bons, que se importam e que amam. Elas só se importam consigo mesmas. As pessoas tratam você como merda todo santo dia, e então agem como se as outras pessoas fossem merda”.


Este discurso acima fomenta um mundo de possibilidades de interpretações. Quero ressaltar apenas uma: o uso de projeção excessiva. Como já mencionado, isso o fazia alterar o sujeito do discurso, ele empregava o pronome “eles” para deformar o sentido de uma frase que lhe dizia respeito. Abe tratava as pessoas como se as mesmas fossem dejetos humanos tendo em vista que essas continham as piores partes de seu self projetadas. Sua ansiedade era constante, pois não sabia como se livrar deste “estado de coisas”. A capacidade de analisar concretamente sua vida e seu comportamento estava dissociada de si mesmo, pois Abe projetou-a em Marie | Donna Murphy |, a qual também exercia uma função superegoica, colocando-o frente à realidade dos fatos – “Cresça! Ninguém precisa de você”.


Há uma cena do filme em que Abe defronta-se com Phyllis e Dick em seu carro, os quais expressavam dizeres mórbidos a respeito dele. A mãe e o irmão eram, portanto, sentidos como perseguidores externos que o acusavam de ser a pessoa que ele era na realidade. Sua ansiedade paranoide o fez tentar se livrar de ambos os objetos. Quero agora enfatizar que no discurso dos perseguidores estava implícita a mesma noção que o sistema social neoliberal nos afirma todos os dias: para ser bom e ter prestígio e aceitação das demais pessoas você tem que vencer, colecionar prêmios e troféus, ser inteligente, bonito e fazer por você mesmo. Você esta sozinho. E se nada der certo, você é o único culpado. O nome de tudo isso em uma só palavra: MERITOCRACIA.


Eu finalizo este intrépido ensaio com essa reflexão. Penso que era aí que Todd queria chegar >>> para ser bom aos olhos de todos, o indivíduo tem que, desde muito cedo, corresponder ao que se é esperado dele. Vale considerar que o mesmo objeto nutridor é aquele que fantasia coisas a respeito do bebê que talvez estejam para além do alcance dele quando for mais velho. Abe é apontado como um nada. Desmorona-se a noção de perspectiva a um homem que deseja casar. Todd enfatiza a construção e ruína da esperança de melhoria ao homem moderno, de reverter insucessos em conquistas. Abe estava realmente fora de forma e fora da forma. Ele era julgado pelo formato de seu corpo e colocado, portanto, à margem daqueles tidos como sexualmente atrativos. Ao mesmo tempo encontrava-se fora da forma de seu tempo (comportamentos regredidos e usos de defesas primitivas) e fora do molde que socialmente era esperado dele. A música dizia: “você pode ser quem você quiser. Hoje é o aqui e o agora. Então viva sua vida, você pode modificá-la”... E qual é o lugar da psicanálise na “esperança de mudança”? Ela garante isso? Quando auxiliamos na condução de um paciente ao conhecimento de suas fantasias e desejos, consideramos que é esperado de nós que ele se modifique com esta experiência?

Você até pode querer ser quem quiser, mas não pense que será fácil, a despeito de por quem se decida ser. E você, por fim, sente que pode ser quem almeja ser? Se uma pessoa não se adaptar suficientemente bem, as demais irão rir dela e colocá-la num filme. E com um pouco de azar, a história dela, ainda por cima, cairá nas mãos de um psicólogo que gosta de escrever tragédias e comédias e piorar o destino de cavalheiros com amorfia.

Felicidades,

Renato Oliveira

20.12.13

um toque de hilaridade

As pessoas dizem que o casamento é uma instituição sagrada. E o sentido de estarmos aqui para nada mais é senão questionar as opiniões públicas pautadas em noções comuns. Sim, a presente ocasião é oportuna para a abordagem de sentimentos, aqueles terrificantes, somente. Estamos em família no filme Cousins (1989), pois o diretor Joel Schumacher faz um retorno a esse núcleo central que parece uma cartola de surpresas agridoces sempre quando seus membros escolhem o caminho da “falação”. 


Sabem aquelas reuniões em que as pessoas, depois de tempos sem se verem, colocam os updates em dia e sempre geram polêmicas desnecessárias, questionamentos adversos de quem casou e não casou e a piada do “pavê ou pacumê?!” Sim, o contexto era basicamente este. Embora seja desanimador esse retrato prévio, certamente se produziu um filme muito significativo para abordar os sentimentos consequentes da decisão de se unir a alguém. Ora, nossos quatro estimáveis sujeitos de pesquisa de hoje elaboravam exatamente este afeto, e como saber o que é estar em união senão a partir do medo de perder o objeto?


Os casais Larry | Ted Danson | e Tish | Sean Young | bem como Tom | William Petersen | e Maria | Isabella Rossellini | compareceram ao casamento de um tio idoso e hilário. O programa, como de costume, foi uma cerimônia religiosa seguida de festa. As pessoas estavam eufóricas, tanto que ao observar a cena você se pergunta (suponho) acerca da razão de um casamento evocar tanta adrenalina em um público! Será que estavam, na realidade, felizes pelo casal, ou por poderem usufruir da ocasião para satisfazerem seus próprios interesses egoicos, especialmente os de natureza oral? Pensem que o casamento enquanto celebração é, na maior parte das vezes, dividido em cerimônia e festa, a primeira associada ao religioso e, portanto, a diferentes figuras do sagrado, e o segundo pode ser diretamente relativo ao profano.


Ora, a este respeito, justifico-me: primeiro abençoa-se o ato matrimonial e se decreta que “somente a morte poderá separá-los”. Geralmente não se fala sobre ciúme, traição e perda da libido neste momento. Agora, durante a festa são suscitadas tanto as paixões quanto os prazeres propriamente carnais, inclusive, a voracidade. Existe coisa mais avassaladora do que a emergência destes dois elementos? São datas em que se fala muito e come-se em demasia e já não parece mais oportuno às pessoas ouvir um discurso de mais de cinco minutos.


Larry tentou falar em público e teve dificuldade em obter a atenção dos presentes. Ele queria falar de afetos, quando na verdade na festa havia espaço para o tesão e a fome, tão somente. Pois bem, reuniram-se, portanto, parentes, conhecidos e semiconhecidos, pessoas insuportáveis: 100, 50 e 75 por cento, respectivamente. E no meio da festa, após trocas de olhares, Tom e Tish afastaram-se dos demais, “sumiram” da visão dos convidados. Depois deste panorama nada otimista sobre as relações familiares em casamentos, é evidente que você já entendeu a sucessão dos fatos. Eles se conheceram neste dia, transaram, e em seguida retornaram às suas posições familiares. Porém devo acrescentar que mais inesperado que isso foi o encontro dos que não foram: Larry e Maria, que começaram a compartilhar doses do que eram eles mesmos enquanto aguardavam os cônjuges. 


“Você confia em mim?” + presentes nos dias seguintes = perfeita fórmula do “traidor”. Essa palavra tem mesmo uma denotação pesada, mas o fato é que com Tom podemos apreender o protótipo do comportamento de um homem que trai. Conversas frequentes e atípicas sobre fidelidade e entregar presentes inesperados a esposa são quase que uma assinatura do laudo do crime. Sem contar, que todos sabemos, via as evidências, de que homens tem menos talento para disfarçar delitos do que mulheres. Mas você não precisa concordar com as estatísticas. Sim, Tom traiu a esposa e o conceito de fidelidade emerge no filme a partir do oposto, a noção do que é não ser fiel. Esta concepção é reafirmada na cena em que ele vai atrás de outras mulheres com quem se relacionava sexualmente a fim de demarcar um fim de relação, porque sim, ele intentava continuar sendo infiel, mas apenas com Tish enquanto objeto.

Esta declaração expressa nos atos de Tom tem uma estereotipia antiga, óbvia e neurótica. Pode-se presumir desde então a existência de culpa inconsciente em Tom, de modo que ao dar presentes e aproximar-se dos filhos ele buscava reparar um dano consciente feito a um objeto, no caso, a esposa. Mesmo não tendo a confirmação se Maria sabia do fato, a solução inicialmente encontrada foi essa. Um adendo: Tish, de outro modo, era muito mais sutil, e sua conduta revelava possivelmente maior oxigenação encefálica. Ela perguntou a Larry: “você mataria um dragão por mim?” Ele respondeu: “um dragão bebê”. Talvez ela quisesse saber as extensões desse suposto amor e as dimensões do território atual em que encontrava seu casamento. 


Vamos agora para o outro casal. Qual era a dúvida de Maria? A fidelidade de seu esposo. Claro que ela suspeitou, e essa incógnita a fez procurar Larry para lançar luz nessas alamedas da mente. A emotividade feminina e masculina diante de uma questão delicada é brilhantemente expressa na cena em que ela, numa feira, não conseguia formular a pergunta, pois isso era seguido de ansiedade e angústia. Ela precisou dar algum indício da questão que desejava saber para que Larry a verbalizasse: “Se acho que o seu marido e minha mulher dormiram juntos? Eu não sei. Só eles sabem”. Ela menciona que ele parecia não estar preocupado e ele argumenta ao dizer que “sexo não é grande coisa”. Após a afirmação de Maria de que algo aconteceu, Larry se expressa nos seguintes dizeres: “Eu acredito na liberdade de escolha de cada um. Tish precisa crescer para ser sua própria pessoa. O que os outros fazem é problema deles. Você está livre para escolher. Isso é ótimo! Mal nos conhecemos e já estamos nos desentendendo”.

Enquanto ela elabora sua dúvida mediante uma posição cautelosa, porém ativa de investigação, ele apoia-se muito mais na riqueza do diálogo e no tom inconclusivo de seu próprio saber. Esse contexto fomenta uma questão que não pode ser deixada de lado: a fidelidade está ou não associada com a noção de posse de objeto? Imagine se em casamentos, o sacerdote dissesse: “toma, isso é seu e isso é dela. Um é do outro. Façam o que acharem melhor disso, mas não se destruam!”. 


Não encontramos na literatura psicanalítica clássica discussões aprofundadas sobre fidelidade no matrimônio, mas se aborda, com grande maestria, sobre amor, culpa e ciúme. As atitudes reparatórias de Tom pautavam-se em um embate de forças do superego com o ego, gerando culpa inconsciente ou pré-consciente. Muitas vezes é temível entrar em contato com a ansiedade decorrente da constatação de que um objeto foi destruído porque se usou contra ele tendências destrutivas ou sádicas. Olha, essa palavra não poderia ser colocada em local melhor, porque o cenário que foi formado e sobre o qual farei meus comentários baseia-se exatamente nisso: um jogo sádico de casais – Larry e Maria – que juntaram suas incertezas para brincar com a imaginação de seus amantes.

Tudo começou após a morte do tio recém-casado, a qual alude ao tema central do filme, a saber, a presença da morte da confiança após uma suposta traição. A brincadeira não consistia em “jogar com a mesma moeda”, mas sim em fazer uso de um recurso primitivo, porém causador de efeitos: o ciúme. Inicialmente, enquanto passeavam, viram chapéus a venda e Maria interessou-se por eles. Observe o intento dos dois: – “Aquele chapéu ficaria lindo em você!” – “Tom odeia que eu use chapéus”“Então vou comprá-lo para você!”“Não! (...) Mas a cara que o Tom faria... O que a sua esposa odeia que você use?”“Cuecas samba canção, ela não acha sensual”. Sim, eles compraram ambos objetos e souberam como usá-los para atrair a atenção dos cônjuges.


Devo esclarecer que eles não se comportavam de maneira infantil, pelo contrário: com diálogos, empatia e amizade, eles foram capazes de suscitar em Tom e Tish uma incógnita acerca do que os fazia se darem tão bem. Aos demais, estava presente a dúvida se sexo fazia ou não parte da relação entre eles. Portanto, em um primeiro momento, o jogo de casais pautou-se na seguinte pergunta: “o que eles sabem sobre nós?”.

Nas horas em que Maria e Larry passavam juntos havia ocasião para que cada um se colocasse nesse convívio de acordo com suas próprias motivações internas. Eram períodos de declarações afetivas e poesia. Devo esclarecer que eles faziam uso moderado de acting out, ou seja, emitiam comportamentos de atuação para evocar alguma reação no outro. Os cônjuges e outros familiares ficavam intrigados com essa situação produzida. O ciúme de Tish e Tom era consequente da cumplicidade e do respeito presente no convívio de Larry e Maria enquanto elos afetivos. Não é bonito? Mas tem uma coisa mais. Não era apenas ciúme o que eles sentiam da dupla Larry e Maria, mas também inveja. Sim, inveja no ciúme. Qual a diferença?


Em linhas gerais, o ciúme ocorre em uma relação tríplice, está associado à noção de posse de um objeto. Assim, um terceiro objeto surge e é sentido como mau, como capaz de tomar para si o ser eleito e amado. Há também a elaboração de fantasias em torno desse objeto hostil. O ciúme tem início na vida mental quando os objetos são reconhecidos como seres totais – “cada um é um”, essa é a noção. A inveja, de outro modo, é muito mais primitiva, pois é sentida por objetos parciais. Observem que na fúria de Tom havia uma inveja em estado latente do pênis de Larry – não somente o órgão em si – mas aquilo que ele era suposto ter enquanto objeto de excelência e gratificador que despertou a atenção e o interesse de Maria. De modo similar, o poder de sedução feminina era o principal atributo identificado em Maria por Tish e tornou-se gerador de inveja.

É preciso ressaltar que Larry e Maria também experimentavam ansiedades enquanto jogavam. Afinal, a suposição de traição que lhes serviu como ocasião para o jogo era sentida com angústia, ainda que moderada. Eles riam da própria condição e faziam uso do lúdico, e essa possivelmente era uma ação defensiva do ego ao sentimento pré-consciente de ter sido traído. Em uma traição (não apenas as conjugais) descobre-se que o objeto estimado não é uma fonte inesgotável de amor, bondade e gratificações. Ele pode também ser mau, destrutivo e agressor. 


Com um encontro espontaneamente forjado em um restaurante, deu-se início a segunda etapa do jogo de casais – “testes de reação alheia”. Larry e Maria extraiam, com humor, uma determinada satisfação sádica ao perceberem que Tom e Tish acreditavam terem sido pagos com a mesma moeda

Culpa, ciúme e amor, para enfatizar. Era suposto haver sentimentos penosos de culpa em Tom e Tish, e foi com o intento de brincar com o jogo do ciúme que seus cônjuges criaram um cenário para a emergência de questões reais acerca do amor. É realmente difícil falar de amor como uma “substância pura”, mas como não se lembrar das palavras de Freud de que uma pessoa se sente muito segura quando sabe que é amada? Com a brincadeira de nossos protagonistas, essa segurança não somente foi abalada, mas retirada de cena, dando lugar ao ciúme e ao temor de retaliação. Ainda assim, será que existia amor nessas relações? A infidelidade é o resultado de um amor passado que não se articula mais no presente? 

Um dia uma pessoa estava na plataforma de uma estação de trem. Ela viu do outro lado o seu ser amado. Em instantes ele também a viu. Seu impulso foi correr para encontrá-lo. Apressou-se, desceu e subiu escadas, atravessou o fluxo de pessoas, até que chegou do outro lado e se deparou com o nada. Não havia ninguém ali. O ser amado havia feito o mesmo percurso que ela, e, encontrava-se, agora, na plataforma oposta a que ela estava, aguardando-a. Nesse momento ela se sentiu realmente amada.

Renato Oliveira

2.10.13

paixão diabólica

Não existe nada suficientemente sagrado que não possa vir a ser profano. Para que a análise do filme de hoje seja compreendida é preciso que as pessoas não fiquem “sem corda”, que mesmo que elas se surpreendam com o fatídico pacto entre dois jovens ainda existam formas para falar sobre o que se sente. Como não sentir entusiasmo ao ser convidado para um elegante jantar? No entanto pela experiência é constatado que caso seja servido champagne, vale questionar a razão para tanto. Como fora dito “é Freud quem vê um sentido para todas as coisas”. Numa data remota comentei sobre um grupo de amigos que se esforçava para oferecer um jantar sem conseguir concluí-lo. Desta vez, contudo, todos os preparativos estavam prontos, inclusive, o principal prato: um jovem morto, recém-assassinado que ocuparia um lugar de destaque abaixo da superfície da mesa. Com ênfase, era um “jantar peculiar” organizado por uma pessoa possuinte de um humor mórbido e uma devoção sem igual para realizar grandes feitos. A homenagem em forma de declaração é a Hitchcock, mais uma vez, que mostrou uma apurada compreensão freudiana ao dirigir o festim diabólico | Rope – 1948 |.


Claro que não é de hoje que se comenta sobre temas próprios a psicanálise presentes nos filmes hitchcockianos. É possível que desde os anos na Inglaterra ele não perdia uma nova edição das obras de Freud que na época ainda não eram completas. Um biógrafo pode confirmar esta hipótese. Ou talvez não seja nada disso, pois pode ser que meramente se vê seres humanamente perturbados em seus filmes ou “mais saudáveis e naturais” do que seres bonzinhos. Para a ocasião basta reconhecer que uma caixa pode ter inúmeras funções, principalmente caso possua um bom espaçamento interno. Os amigos Brandon | Johl Dall |e Phillip | Farley Granger | resolveram cometer um “crime colegial” e elegeram o celebrado da vez: David Kentley | Dick Hogan |, que fora enforcado pela dupla supracitada e em seguida foi destinado ao desconforto de uma caixa de madeira. O termo “caixão” não se aplica ao contexto, absolutamente. O jovem assassinado seria celebrado como um ser faltante que poderia surgir em qualquer momento. Ora, estava planejado um jantar e a fatídica caixa seria a mesa. Talvez resida nesta criação o pressuposto de que ocasiões de morte não necessariamente precisam ser experienciadas com pranto ou em cenários fúnebres.


Os promotores do evento, contudo, não assimilavam aquele acontecimento de igual modo. Brandon sentia-se cheio de júbilo e anunciava sua expectativa para o jantar. Ele contemplava a si mesmo como aquele que não somente maquinava intentos no mundo das ideias, mas os transpunha para uma cena real. Ademais, ele estava a serviço de si mesmo, de seu intelecto ou de algo que em si lhe revelava o seu próprio desejo.

Enquanto para Brandon toda aquela circunstância era motivo de festa, Phillip estava diante de um real difícil de ser traduzido em palavras. Arrependimento não é um termo adequado para explicar o que se passava com ele. O foco de Phillip estava no crime realizado com sua participação – “acho que uma pessoa era tão boa ou tão ruim como qualquer outra. Você me assusta. Sempre me assustou. Desde o primeiro dia de aula. Talvez faça parte do seu charme. Não fico calmo como você, e resolvi brincar com você”. Para resumir a posição dele, seria dito, com base nas informações que se tem da história, que Phillip fora convidado para uma brincadeira e, sem ameaças, ele falou “sim”.


Eles discutiam a relação na presença do falecido jovem que escondido naquela caixa não deixava de ser testemunha da desrazão produzida no encontro entre os dois amigos. Brandon não conseguia convencê-lo de que a realização do crime os colocava em um status superior àquele dos que somente maquinam o mal, entretanto, com eloquência, prosseguia: “o poder de matar é tão gratificante quanto o de criar. Um assassinato impecável. Matamos pelo prazer do perigo de matar. Estamos vivos. Verdadeira e maravilhosamente vivos. Nem champagne se compara conosco ou com a ocasião”. Por alguma razão parece que somos instigados mais a querer saber dos motivos que levaram Phillip ao acordo do que entender a causa do assassinato, afinal, não somos detetives civis, e uma vez acontecido... Há pistas significativas a serem consideradas. O “jovem culpado” também faz o outro falar. Ele quer saber como o amigo se sentiu durante a realização do ato. A finalidade do grifo será entendida mais adiante. Brandon retrata que não era fácil explicar-lhe, mas que não se lembra de nada até que o corpo de David amoleceu, de maneira que ele sentiu “uma exultação tremenda”.


Ora, a linguagem do crime anuncia, na realidade, a realização de outro ato entre dois homens abominável aos preceitos civis e morais daquela civilização. Phillip não fora enganado ou levado a ser um simples cúmplice, mas ele se submeteu a tudo por amor e devoção ao amigo. Com a realização deste “crime colegial” ele pode estabelecer uma aliança com Brandon, este outro desejado. Qual era o seu verdadeiro remorso? Provavelmente em sua consciência ele se sentia culpado pelo homicídio de David, mas é possível considerar que o conflito de Phillip estava localizado no “choque” e na oposição entre um desejo homossexual e as leis internalizadas e a moral sexual civilizatória que condenava este tipo de afeto. Com o crime fora constituído um “nós” no discurso entre os amigos e esta certeza de que o desejo se transformou em ato causava-lhe ainda mais angústia. Phillip queria saber sobre o prazer do outro, ou seja, ele fazia um inquérito a fim de averiguar se valera a pena a submissão ao ato, revelando, portanto, que assim fizera para satisfazer o desejo do outro amado. Em síntese, entende-se que Phillip tinha características de um sujeito apaixonado que burla suas leis internas por devoção ao encanto suscitado pelo outro. Ademais, o crime foi uma relação sexual, pois retrata uma circunstância em que dois sujeitos cederam ao desejo. Eles brindam a David, afinal foi ele que na condição de oculto faria com que aquele jantar se realizasse.   


Conforme acertavam os últimos preparativos, Brandon anunciara a Mrs. Wilson | Edith Evanson |, a funcionária responsável pelos serviços domésticos, que a mesa seria destinada a leitura e os alimentos e bebidas seriam expostos acima da caixa que estava na sala. É evidente que a ela esta subversão toda pareceu uma decisão desprovida de qualquer sentido, principalmente, pelo uso de candelabros sobre a mesa, que sugeriam, segundo Brandon, “um altar cerimonial onde pode amontoar comida para o sacrifício”. Realizar uma ceia sobre uma grande caixa retrata exatamente a fusão entre o comer, considerado um ato sagrado, com a celebração do profano representada na prova do crime oculta aos olhos, mas ao mesmo tempo presente no interior da caixa.


Aos poucos começaram a chegar os convidados: Kenneth | Douglas Dick |, sua ex-namorada e a “atual” de David, Janet | Joan Chandler | e os pais de David, Mr. Kentley | Cedric Wardwicke | e Mrs. Atwater | Constance Collier |. Não é necessário decorar os nomes. O participante mais importante ainda não chegara. Na realidade todos participariam da festa e notariam os “comportamentos cabreiros” de Phillip que seriam justificados por Brandon: “ele está um pouco antissocial hoje”. Durante a festa também foi revelado pelo amigo que Phillip passaria um tempo na casa da mãe de Brandon. Talvez ele se sentisse ansioso. A bem da verdade é evidente que Phillip estava “sem corda”, ele se sentia desconfortável por supor um saber nas pessoas presentes. Ir à casa da mãe de Brandon seria uma solução possível, pois o ato de estar confinado em uma casa distante remete ao conforto de um armário em sua denotação popular. A ele seria permitido sossegar-se caso encontrasse um lugar seguro para o ocultamento de seu crime motivado pelo desejo por Brandon.  


A festa não começa antes da chegada da pessoa mais importante. Claro que o real promotor do evento já estava lá, mas oculto. Assim o mais importante seria aquele que desconfiaria da existência do faltante, e não, não seria o analista. Para a surpresa dos amigos, Rupert | James Stewart | compareceu. Caso não seja uma fantasmagoria da minha cabeça, ele fora professor dos amigos e da vítima e possuía um humor privativo apropriado para uma “festa peculiar” como comentado. No tempo em que bebiam e conversavam, aos poucos os presentes começaram a questionar a ausência de David, que não tinha o hábito de se atrasar. Enquanto isso Phillip bebia mais ainda como uma tentativa de aplacar o horror da possibilidade da caixa ser aberta, e a Brandon, de outro modo, tudo parecia ser cômico, inclusive, convidar o ex-namorado e atual rival do “aniversariante” para a celebração.


Entre os diversos assuntos que animadamente falavam, Mrs. Atwater comentava sobre suas predileções cinematográficas. Brandon, com seu “humor canastrão” decide contar a todos acerca de um episódio no qual Phillip torcia o pescoço de três galinhas, “uma tarefa que realizava com eficiência”.  O acusado se expressou: “Não é verdade! Nunca estrangulei uma galinha!” Ao olhar de crítica de Rupert, Janet comentou: “perdão, mas é engraçado ficarem alterados por uma galinha morta”. É possível que aquele encontro tenha sido organizado de acordo com o interesse de Brandon em “chocar” realmente, ou seja, revelar um dito de verdade que transformaria todos os presentes em coparticipantes de um ritual profano, mas caso não fosse este o objetivo então é certo que o maior erro da dupla criminal foi se pôr a falar. Sempre há alguém apto a encontrar sentido onde não se aparenta existir. Como perceberam, a Rupert o desaparecimento súbito de David não era um fato comum, aos poucos lhe pareceu concebível associar a ausência do jovem com o temor de Phillip e a eloquência exacerbada de Brandon.

Quero ressaltar que, para além da disputa entre revelar ou manter oculto estava posto em cena um conflito entre instâncias psíquicas representadas naqueles três homens. Brandon, Phillip e Rupert representavam, respectivamente, as três instâncias psíquicas formuladas na segunda tópica freudiana: id, ego e superego. 


Ora, o que faz o primeiro senão ansiar o tempo todo por satisfações infantis? Que criminoso daria um jantar para proclamar o seu crime e possivelmente ser punido? Os seus atos eram propriamente manifestações desprovidas de sentido lógico. Ele constituía-se como uma pessoa de caprichos e não fazia uso de uma diferenciação entre o certo do errado. A discussão sobre a “galinha estrangulada” nada mais foi do que uma afronta do id ao ego, pois Brandon desejava revelar o fatídico acontecimento. 


Phillip é a materialização de um ego em estado de calamidade por haver cedido a seu desejo. Ele tentava – como sabiamente revelou Freud – atender a dois senhores, a conciliar as exigências pulsionais de Brandon, bem como sua devoção por ele, com as espreitadas de um superego quase onisciente. A ingestão de bebida alcoólica, neste contexto, pode até mesmo aludir a uma tentativa fracassada de afastar-se da realidade, de se retirar deste campo de conflito. Ademais, ele não sabia a quem agradar e temia o seu futuro – “rezo para acordar e ver que não fizemos nada ainda”.


Rupert era o juiz da história, o representante moral. O superego, por sua condição tirânica, assume a função de agente criminal, ele interpreta o conto do id sobre a galinha morta como um dito de verdade, como algo que aponta outro caminho. Ele age via discurso e aumenta a tensão do ego ao lhe exigir a mesma atenção e obediência cedida ao id. O seu propósito final era confirmar suas hipóteses para incidir mais ainda a lei sobre Phillip fazendo com que o mesmo tivesse que elaborar alguma saída possível ao sentimento de culpa.

A história nunca termina enquanto não se responder às perguntas: seria um homicídio mais admissível socialmente do que o sexo? Por qual finalidade um pode ser visto sem maiores pudores e outro tem que ser escondido? Ademais, não há dúvida de que atender as paixões pode ser excitante a um amigo e terrificante para outro. Em festas peculiares observe as mesas.  

Com apreço,

Renato Oliveira