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19.8.18

recordar, repetir e apagar

O sujeito sofre de reminiscências. A assertiva não é nova, pelo contrário, é o que há de mais clássico e singular do discurso psicanalítico. Trata-se, contudo, de coisa moderna ao mesmo tempo. Se a memória de um falante fosse deletada, seu sofrimento desapareceria para a construção de uma nova história de vida, mais ou menos sujeita aos mesmos percalços e ciladas de antes. Este procedimento pode ser o desejo de alguns, de maneira que ao analista é demandado que lhe extraia fragmentos de passado cuja função não parece nada além de um fazer-sofrer. Certo é que uma mente sem lembranças é objeto de desejo tão somente porque seu alcance é da ordem do impossível. Na realidade, o que se faz em análise é recordar, a fim de que as inevitáveis repetições na vida cotidiana possam ser efeitos de uma elaboração de situações vividas. Se o analista não oferece nada muito além de uma reaproximação da dor, há, por outro lado, quem ofertou um mecanismo para que o sofrimento não mais existisse. Este cara enriqueceu e seus clientes foram felizes para sempre. Não foi este o fim da história. As reminiscências de dor são importantes em sua singularidade e, por alguma razão, ao recordá-las se produz mais dor bem como um apego e anseio por superá-las. É por conta desta contradição no sujeito que o tema se torna instigante, de maneira a dedicá-lo aqui alguma abordagem. Créditos ao brilhante roteiro de Michel Gondry que atualizou o “recordar, repetir e elaborar” de Freud em uma roupagem lúdica. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004) é título analítico por si só. Ainda que não fosse filme, apenas a frase seria material de trabalho. A mente humana só alcança sua resplandecência quando a lembrança associada à dor deixa de existir? É o que ofertam certos tipos de terapias contemporâneas. Neste filme, bem como em uma análise, recordar o que faz sofrer é tarefa crucial.


Com efeito, o que faz sofrer é o amor. Afeto investido e mesclado a ilusões tão essenciais e que em algum momento pode ser necessário deixar de investi-lo. A originalidade do roteiro articula a propensão humana para amar e a dor de uma separação com a ficção científica. Ora, um médico oferta um serviço no qual todas as memórias relativas a um ser outrora amado seriam apagadas. Aqueles que se submetessem ao procedimento obtinham a chance de um recomeço com a garantia de que “ex bom é ex-morto”. Não mais se sofreria de reminiscências, já que o antigo amado passaria a ser um desconhecido. No roteiro, Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) submeteram-se ao procedimento e tiveram suas vidas renovadas. Não é isso. Ainda que o tema deste ensaio seja a memória e não o amor, vale destacar que no filme algo de considerável valor e intensidade se produziu no relacionamento do casal. A isto pode ser dado o nome de “amor” ou qualquer outro, desde que não se desconsidere o fato deles não saírem ilesos dessa relação, mas sim de tê-la vivida com profundidade e entrega emocional. Rompimentos não são dolorosos caso a barreira para um real envolvimento tiver sido plenamente mantida. O que se destaca da vivência de Joel e Clementine é a descoberta de que o outro investido era revelador de imperfeições, de forma que a falha emergiu e em algum momento tornou-se insustentável. A saída encontrada foi esquecê-lo. Para tanto, todos os significantes relacionados a esse outro foram levados ao consultório, de forma que no procedimento as memórias eram apagadas uma a uma, a começar pela mais recente. Ainda que a garantia de êxito fosse de 99%, é este um por cento que falta que aqui interessa. Esta porcentagem mínima fomenta os questionamentos: mas é isso que o sujeito queria? Numa realidade contemporânea em que nota-se o medo de envolvimentos, livrar-se de toda e qualquer memória associada à dor é objeto de desejo? O procedimento, se real, teria público?

Ter as memórias apagadas implicava a necessidade de revisitá-las. Eis aí o problema. Revisitá-las pela última vez, mas ainda assim estabelecer algum contato. Como em um sonho, os momentos vivenciados junto ao ser amado um dia investido eram despertados para que só assim deixassem de existir. A ficção traz um elemento essencial ao que interessa enquanto leitura psicanalítica: a não-passividade do sujeito. Joel e Clementine submeteram-se a esquecer e para tanto tiveram que sentir “tudo de novo” e reagir a isso. Nesta posição de agentes da demanda seria possível questionar o próprio desejo. Assim, Joel decide por agarrar-se às reminiscências que o faziam sofrer. Ele se implica em uma auto-sabotagem enquanto dormia, na tentativa de impedir que tais memórias fossem deletadas para sempre. Mais que um apego às recordações, ele junta-se a Clementine para que fossem salvos do alcance de uma mente sem lembranças. Na ficção, como na análise, o desejo de esquecer é uma demanda inicial e aparente. A possibilidade de lembrar é temida bem como recordar o que causa dor é uma via necessária para que exista tratamento. Conforme consta desde os primórdios de Freud, não se trata de esquecer, mas de elaborar, de se produzir a fala de uma situação dolorosa, de descolar significantes e significados. Algo deixado por esta obra de Gondry é a real de que memórias fazem sofrer, mas existe a oportunidade de elaboração. Neste tipo de dor é certo que existe beleza bem como a chance de se produzir algo novo a partir disso.  

Renato Oliveira

22.3.18

dançando até a glória

Promessa feita e não cumprida. Uma vez, ao assistir “A noite dos desesperados” (They Shoot Horses, Don’t They?, 1969) a conclusão foi de que a obra não seria revista. No entanto, sabe-se que na produção de Freud se encontra a noção de que as repetições na vida cotidiana não se restringem às experiências de satisfação. Logo, para que esta resenha fosse escrita, rever este filme pareceu uma tarefa imprescindível. Em síntese, esta direção de Sydney Pollack diz respeito ao espetáculo do casal capaz de dançar por mais tempo em um teste de resistência. Os candidatos batalhavam por um prêmio em dinheiro e alguns deles também pela chance de ascensão na carreira artística. Para tanto, deveriam dançar por uma sucessão de dias ou meses, com intervalos de apenas dez minutos a cada duas horas. Se caíssem, estariam eliminados. É curioso notar como a própria regra do jogo é reveladora por si mesma: o verbo cair indica ir ao chão, desmoronar, perder o controle e também representa um possível estado de esgotamento, de limite. Era isso o que estava em questão. Privados de sono, atividade sexual e qualquer contato com a realidade externa, a incumbência imposta e aceita era tão apenas dançar e correr em maratonas organizadas. 


Todos estavam propensos a cair. A personagem Gloria (Jane Fonda) juntamente com seu par Robert (Michael Sarrazin) protagonizam a condição de inibição instintiva a qual estava o grupo submetido. Para o alcance de uma meta profissional, ela decidiu jogar. Ainda que com uma capacidade de apuração crítica do espetáculo, Gloria tem uma visão parcial do jogo até ser conduzida ao entendimento de interesses implícitos na organização daquele evento. Sua oferta era o seu corpo, bem como os limites deste, seu principal adversário. O nome da personagem chama a atenção. Afinal, que glória buscada era aquela que implicava uma negação de si própria e abandono a condições precárias de sobrevivência? Dentre os candidatos, havia aqueles com uma tendência maior em enlouquecer em menor tempo. Era um espetáculo estapafúrdio e o andamento do projeto em nada mais implicava senão na exposição de “guerreiros” cada vez mais esgotados, ávidos por vencer, porém com toda propensão à queda. Vale notar que despido de um filtro analítico, este é um filme de entretenimento. O ambiente até mesmo tem ares circenses. Há os que se divertirão com a miséria humana, tal como ocorre nos dias de hoje em reality shows.

Os candidatos que conseguissem não ser desestabilizados pelas circunstâncias iriam longe no jogo. É certo que They shoot horses, don’t they? fornece material para a análise da audiência gerada pelos atuais programas de reality shows ao mesmo tempo em que parece ser um filme profético ao anunciar uma fórmula que faria sucesso em décadas futuras. Contudo, pode-se destacar que sua linguagem é metafórica, pois diz respeito à busca pela sobrevivência humana associada a uma negação do próprio ego. Esta condição se relaciona a um contexto, o das relações de trabalho, dada a semelhança com a luta competitiva, a necessidade de sustento e a busca por reconhecimento profissional. 

A inibição da vida instintiva, conforme postulada por Freud, diz respeito à forma como os impulsos sexuais eram desviados de sua meta podendo ou não ser canalizados em fins não-sexuais socialmente aceitos. Esta leitura reflete a realidade de sua época ao mesmo tempo em que possui simetria às condições de trabalho hoje. Sabe-se que no mundo moderno não se trata exatamente da negação sexual plena, mas impera a mesma ordem de inibição, na qual o sujeito deve renunciar a seu próprio ego, reprimir seus inquéritos e não expressar suas reais opiniões para que não seja eliminado do jogo. O trabalho numa ótica do sonho capitalista esta associado diretamente a um lugar de reconhecimento e implica a necessidade de autonegação bem como a capacidade de suportar “calado”. Não por menos o termo “workaholic” se apresenta como atribuição de mérito àqueles que canalizam a energia libidinal em superar seus limites em horas trabalhadas. O desafio que assumiram diz respeito, como no filme, em manter-se de pé por um tempo recorde, a despeito das consequências físicas ou emocionais. Seguindo este entendimento, o corpo não apenas é produtor, mas é o espetáculo em si. As excessivas horas trabalhadas bem como a negação do corpo biológico em nome do “ideal sonhado” refletem que este corpo esta sob efeito de um discurso que o faz ficar de pé, tal como “no pain no gain” (sem dor, sem ganho em inglês). Esta submissão quando alienada indica que a negação de si e o “manter-se de pé” assumem vias de normalidade. Não por menos este padrão é requerido no meio corporativo, que seleciona pessoas dispostas a pegarem suas cruzes, negarem a si mesmas e continuarem dançando, sem cair.

É compreensível que a personagem Gloria não desistiria tão fácil do jogo, pois embora a perspectiva de glória estivesse colocada para todos, nela esta se encontrava encarnada mediante o nome próprio. Ainda assim, a complexidade da personagem não se restringe a uma nomeação e pode ser analisada a partir da força gerada frente ao desafio bem como pelo gradual desfalecimento de seu corpo prestes a ver a glória. Certamente esta obra de Pollack alude ao “no pain no gain” dado que é um filme que ao provocar reflexão pode gerar mal-estar ou incômodo.

Renato Oliveira

25.1.18

não seja quadrado

O Cine Freud retorna três meses depois já em clima carnavalesco e travestido de macaco. Esta fantasia foi propositalmente escolhida para homenagear a mais próxima espécie do ser humano e, ao mesmo tempo, questionar o que existe de animal no ser falante. A oportunidade é para se pensar a vida em sociedade hoje cada um no seu quadrado. Ora, “O mal-estar na civilização” é um artigo que abre janelas, dentre elas, uma que serve de guia à verdade de que a vida comunitária implica numa renúncia aos impulsos instintivos. Ou seja, pra virar gente e humano foi preciso abandonar as paixões do instinto para em seguida cair na linguagem, aprender não só a falar como também a se nomear enquanto sujeito – reconhecido pelo nome, pelo status, pela profissão – e assim estruturar-se como um ser coletivo. Deste modo, impera na vida social o que pode ser pensado como uma estética da conformidade. Ainda assim, não seja quadrado, pois é bem certo que as sociedades organizadas para funcionarem bem são produtoras de nada mais do que o caos. A tentativa em organizar culmina em um coletivo que produz e atualiza o mal-estar. Com estas palavras é sintetizado o contexto do filme The Square – A Arte da Discórdia (2017).


A direção de Ruben Östlund apresenta uma abordagem sobre a atual condição do homem que submeteu seus impulsos primitivos a uma organização social que o legitima, o dá lugar. O gerente de museu Christian (Claes Bang) enquanto implicado na inauguração de uma exposição intitulada “The Square” se deu conta de que foi assaltado, de modo que a carteira, o celular e suas abotoadoras foram-lhe levados. Seguindo o conselho de um parceiro de trabalho, ele identificou via GPS o prédio em que o celular se encontrava e distribuiu anonimamente uma carta de ameaça em cada apartamento, tocando o terror. A partir de então, uma série de situações estapafúrdias se originaram. Descrevê-las aqui seria uma tentativa inviável de reproduzir o caos provocado por pessoas incapazes de manterem-se em seus devidos quadrados. No entanto, é certo que o roteiro traz elementos valiosos para a análise, tal como o quadrado em si e a figura do macaco. A estes será dada ênfase.

Frente ao prédio do museu, um quadrado foi riscado no chão bem como no primeiro ambiente da exposição há um quadrado que nada mais serve senão para depósito. Ora, o que seria depositado senão o celular e a carteira, aquilo que não pode faltar, que faz o sujeito existir socialmente enquanto sujeito? O quadrado é, portanto um lugar de esvaziamento... Até mesmo porque ele se tornou o setting para a gravação de um vídeo de anúncio publicitário da exposição, no qual uma criança, uma menina branca representando não só a Suécia, mas o poder branco como tal foi colocada enquanto mendiga para ter seu corpo explodido. O quadrado, absolutamente é um lugar individual, a única diferença, conforme mostrada é se você escolhe ou não acreditar nas pessoas. É assim um local de despojamento e de escolha subjetiva.

Na cadeia evolutiva, o aprender a falar teve crucial importância na mutação humana. Destacam-se dois macacos no filme, um em sua forma mais primitiva enquanto animal de estimação em um apartamento, e outro que surge já em corpo de homem, o qual evidentemente não fala, é a pura expressão do instinto de caça, agressão e sobrevivência. Em forma artística este surge frente a um grupo organizado em um jantar de gala. Ele é o avesso dos demais presentes e protagonizou uma das cenas ápices desta obra na qual o homem é confrontado com a versão mais fiel dele mesmo se a linguagem e o poder de refrear impulsos lhe fossem retirados. Como dito, é a renúncia a uma vida entregue às pulsões que organiza o ser humano socialmente. No homem primitivo, por outro lado, além da não-articulação da fala há a expressão direta da agressividade bem como o abandono ao instinto. No entanto, vale refletir, esta oposição não é tão demarcada assim. Nota-se hoje que a linguagem civilizante do homem parece cada vez mais fraca, ela não dá conta de civilizá-lo por completo. Assim, o recuo ao instinto aflorado, colocado para fora, o que produz senão a desorganização do sujeito e a formação de barbáries? É certo que a linguagem não matou o instinto por completo, como alguns acreditam. Basta se pensar no quanto há de expressão do instinto na busca pela sobrevivência financeira. A expressão instintiva aqui abordada entretanto, não diz apenas de uma luta pela vida, mas é resultado de não haver norma social, enquadramento comunitário forte o suficiente para aniquilar o macaco de cada um. O mal-estar social desde o freudismo é efeito deste macaco ativo em cada ser falante, a externalização do que prevaleceu de mais primata em cada um. Tem-se aí o fracasso da linguagem em aniquilar o mais radicalmente primitivo. A ligação do homem com o macaco se reproduz diariamente por atos desprovidos de racionalidade, tais como a discriminação dos vulneráveis, a homofobia, a guerra. As situações bizarras desencadeadas no filme bem como “o macaco à solta” anunciam o limite da linguagem humana em organizar. O que se vê portanto, é a reprodução do caos. A este respeito, se jogar um anagrama com a palavra “caos”, tem-se tanto “caso”, “soca” quanto ”saco”. Nada muito inspirador, realmente, nem mesmo a melhor mensagem de positividade para 2018. Ainda assim, o filme vale ser visto e as coisas aqui escritas são mais sinceras do que muitas outras que te foram ditas e desejadas nas últimas semanas. Feliz ano novo a todos.

Renato Oliveira

14.10.17

"Elle" é puro lust for life

Lust for life. Este som do Iggy Pop é tocado em Elle (2016) em dois momentos, tão somente, mas fazia eco na cabeça deste que vos escreve durante todo o filme ao revê-lo. Não é à toa que foi incluso na trilha sonora, bem como é possível que se sobreponha à função de sonorizar o roteiro, seus efeitos vão mais além e tem a função de chave, de significação. Não é necessário fazer mistério nem drama, pois é certo que esta última obra de Paul Verhoeven é a pura produção de lust. Por esta via é possível atribuir algum sentido à repetição da personagem e a seu suposto prazer na dor e no assujeitamento. 


Não é lugar-comum a história de uma mulher que enquanto vítima de um atentado sexual, não faz disso discurso do trauma e não sintomatiza. A personagem Michèle (Isabelle Huppert) é estuprada e após o incidente recolhe os pedaços de vidro, toma banho e segue sua vida. Não é feita a denúncia do ato e ela não apresenta indício algum de lesão emocional. Os termos em destaque são escorregadios e talvez inapropriados: vítima e estuprada. Enquanto o roteiro sustenta o mistério quanto à personalidade oculta do agente, emerge a possibilidade de reflexão se, de fato, trata-se de uma situação de abuso, se as posições de ativo e passivo são claramente notórias como assim são supostas. É um filme profícuo para abalar noções socialmente firmadas, tais como a de que uma agressão necessariamente provoca um trauma e de que mulheres são física e emocionalmente mais frágeis do que homens. Pode-se também pensar que o filme seja considerado um desserviço numa época em que se eleva o discurso feminista. Inclusive, Simone de Beauvoir é citada. É certo que não se trata de uma abordagem anti-feminista e que não há demanda da personagem para tratamento de trauma algum. Os episódios em que Michèle fora surpreendida pela aparição do mascarado-agressor se repetem três ou quatro vezes. É a presença de um horror corporificado seguida das tentativas da personagem em reagir ao ato ao mesmo tempo em que a ele se submete. Logo, a atividade e a passividade juntas anunciam uma posição subjetiva na qual Michèle se coloca. E esta somente pode ser pensada mediante o lust

Eis o significante cantado, lust, mas que não deixa de ser som, e que ressoa, clama por uma significação possível. A Língua Portuguesa o aproxima à ideia de luxúria, a noção de incontinência, dado que o desejo sexual tem esta característica de desregulagem. O dicionário também o define como “desejo ardente” e “sede”. Sede do que? De alguma coisa, seja de amor, vida ou poder. Em outras palavras, é a dimensão da falta que esta inserida no lust, que dá lugar ao desejo e produz um descompasso no que seria a vida artificialmente adaptada do sujeito neurótico. Isso não poderia ser mais freudiano dado que a herança do mestre austríaco implica na exposição da peste. Ao expô-la, como Verhoeven fez, o horror e o nojo são colocados em cena, pois flutua sobre a mente do expectador a possibilidade de que aquela mulher sentia prazer ao ser agredida, tratada como uma cadela. Mas o lust não vem sozinho, nem pode. De acordo com uma das máximas lacanianas, o significante só produz significação em relação a outro significante, por isso lust for life

Numa tradução bem literal, luxúria para a vida, o que soa quase como um convite: “vamos tomar uns bons drinks que a morte é certa”. O estilo de vida de Michèle não destoava disso, uma luxúria por vida. Ora, tanto quanto é certeira a ideia de que o lust é um atravessamento à vida, o termo serve como fundamento à existência do sujeito do inconsciente marcado pela falta, pela linguagem, por um furo que se articula nesta coisa demoníaca que é o desejo. É possível sim que Michèle gozava na posição de vítima, a qual lhe é atribuída, o que não indica que ela se colocava em tal condição. Pode-se também pensar que os intervalos entre uma aparição e outra eram seguidos por medo e desejo, seja o temor do total aniquilamento do corpo, o real da morte, bem como o desejo pelo usufruto máximo desta condição, o orgasmo que não anula a dor. Não por menos, o orgasmo é concebido enquanto “a pequena morte”, le petite mort, em francês. O lust só pode ser para a vida (ou por vida) na medida em que há uma constante produção de um desejo propriamente sexual, o impulso a vida que existe em equivalência ao medo/desejo de morrer. O lust implica num usufruto, um mais-gozar, em repetições, e Michèle é a prova disso tal como se pode notar: o marido de sua melhor amiga era seu amante; ela sabia que o mascarado retornaria, e não fugiu, tão somente muniu-se de instrumentos de defesa, o que sugere um desejo pelo retorno deste homem; ela flerta com um vizinho e o masturba com os pés por baixo da mesa; sua posição de liderança na empresa indicava um desejo de poder na palavra, de manter-se neste status.

O filme é uma oportunidade ímpar para se repensar a aparente dicotomia prazer versus desprazer, de modo que é tão somente o sujeito que pode anunciar sua posição subjetiva em relação ao outro. É um roteiro que causa certa desarmonia, pois tal como coloca Lacan “não há acordo pré-formado entre o desejo e o campo do mundo” (LACAN, J. O Seminário livro 6 – O desejo e a interpretação, Zahar, p. 385). O que há, e pode ser visto aqui, é o lust for life, a matéria-prima, a existência do sujeito firmada numa sede da coisa, qual seja ela, não importa, é este constante retorno de uma forma de gozar, sentida não sem estranhamento e com certo grau de avidez. Assim, se o significante “lust” esta para “life”, vale o questionamento se na retirada do mesmo, na repressão deste impulso ainda se pode falar em vida, ou se será preciso reencontrar o desejo para assim atribuir à vida um lugar, uma significação.

Até a próxima,
Renato Oliveira

2.9.17

belle de jour: oferta e recusa

“Estou te falando: não é pra você me dar isto que eu tô te pedindo, porque não é o que eu quero”. Esta frase nada mais é que uma versão popular do discurso peço-te que não me dês aquilo que te peço, pois não é isto. Mas se não for isto, então é o que? É a possibilidade de um não-entendimento aparente que serve de ocasião para se revisitar Luis Buñuel – nunca deixar de fazê-lo – pois seu cinema não cessa de algo a dizer sobre o inconsciente. Certo é que não se trata da primeira vez em que aqui se fala sobre Belle de Jour (1967), e não será a última. Um dentre os mais conhecidos e polêmicos filmes deste realizador espanhol ainda gera discurso. No entanto, se tão somente sua sinopse for contada em qualquer círculo de pessoas, não causará grande impacto. Ora, atualmente o fato de uma mulher desligar-se do papel do lar para dedicar-se ao exercício sexual não parece evocar significativo horror. Inclusive por se viver na era do ego é completamente justificável que para fins de autoestima tal deslocamento seja admissível. Se por um lado, um menor moralismo em torno da prostituição é um ponto positivo, por outro não é de ego que diz a coisa freudiana, mas sim de desejo, por esta razão que hoje se retomará aqui o pois não é isto a fim de situar a posição no desejo da personagem-título, a gélida Séverine (Catherine Deneuve).


A incógnita presente no filme diz respeito àquilo que motivou uma mulher burguesa a abster-se do conforto do lar no período vespertino para atender aos pedidos sexuais de clientes em um discreto bordel. É suposto uma demanda real não-confessada por trás do pedido de Séverine de ser aceita como uma das funcionárias da casa. O que queria esta mulher? Esta aparente não razão torna-se ainda mais incompreensível quando o marido de Séverine é comparado aos seus clientes, dado que este é suposto ser aquele que a satisfaria sexualmente. Pois bem, foi empregada a palavra que acentua o que esta em pauta: o roteiro do filme articula uma satisfação que não se completa. Seja na oferta do corpo enquanto “belle de jour”, seja na recusa em continuar nesta posição, o tempo todo a personagem anuncia uma insatisfação. Afirmar que a insatisfação era tão somente sexual é limitar o que esta em jogo e ao mesmo tempo supor que do lado do masculino haveria um eleito que a faria toda satisfeita. E não é disso que se trata, mas sim de uma insatisfação que vai além do sexual, que coloca em falta sua condição enquanto mulher, a qual contempla a ausência do amor, do encontro, do fazer-se um com o amado... Sobra algo de um “mais, ainda” que não se atinge. 

Vale destacar que no que diz respeito ao feminino, a questão da insatisfação foi discutida tanto por Freud quanto por Lacan. O primeiro declara que a menina sente-se insatisfeita ao nível do corpo físico por algo que não lhe foi dado. Por mais que Freud tenha sido alvo das críticas feministas no decorrer das décadas pela sua ênfase da ordem do imaginário no pênis como objeto de desejo da menina, deve-se ter em vista que é o objeto real que, num primeiro momento, se encontra disponível para que a presença da falta seja elaborada. A insatisfação associada a um sentimento de injustiça por algo que não foi dado não é resolvida quando uma mulher tem um filho, mas é algo que prevalece nos encontros amorosos futuros dada a certeza de que algo falta. Lacan, numa ênfase distinta da imaginária, aborda a insatisfação como uma característica do desejo histérico, que deve manter-se enquanto não-satisfeito. Pode-se dizer que uma histérica trabalha para a manutenção de um desejo que precisa continuar a existir enquanto desejo, e para tanto é necessário que ao outro cuja oferta é endereçada – “te peço que me dês” – que este não dê coisa alguma senão a recusa.

Sobre a (in)correspondência entre demandar e encontrar a resposta, pode-se situar o que se passava no filme. Normalmente, na situação de um bordel, a prostituta é a oferta à qual é endereçada a demanda do cliente, que pode ser mais ou menos fetichizante, mais ou menos bizarra de acordo com os valores da cultura ou do grupo. Contudo, com a referência da psicanálise, o cinéfilo é levado a assimilar este filme a partir destas posições invertidas: Séverine é a boa histérica, o objeto de estudo, de forma que se ela foi ao encontro de Madame Anais (Geneviève Page) e ofertou-se enquanto corpo, algo se anunciava da demanda dela, mas o que? É certo que ela se endereçava aos clientes, que pedia-lhes alguma coisa que não a satisfação sexual quão menos um acariciamento em seu ego. A personagem não emprega palavras que revelem algo da ordem da necessidade ou mesmo do desejo, mas apenas anuncia a si própria como oferta, num primeiro momento, e como recusa, quando nega a se manter na posição de “bela da tarde”. Por alguma razão, algo similar acontece em análise, quando o analisante não apenas comparece, mas se apresenta ao mesmo tempo em que apresenta algo que faz sofrer e articula um discurso a respeito disso. Na escuta analítica, o desejo ainda que enquanto não-dito é suposto estar ali, por conta da presença da angústia, o afeto que lhe é revelador. É possível que a resposta, a verdade, a significação sejam o pedido contido na demanda, mas para que o sujeito se implique em conhecer a si e entre em análise, cabe ao analista lembrar-se do “não me dês aquilo que te peço”.

Abraços,
Renato Oliveira

3.2.17

Todd Solondz bom pra cachorro

A relação deste falante que aqui escreve com Todd Solondz é caso antigo. Tudo começou em “felicidade”, seu mais aclamado filme, e até os dias de hoje é certo que a felicidade nunca acaba. No roteiro de Wiener-dog (2016), seu mais recente filme, a personagem principal não fala, pois é um animal que transita entre pessoas que não se conhecem nem mesmo se ligam. Um cachorro passeia o filme todo entre cidadãos que não se conhecem, de modo que se torna uma espécie de testemunha-ocular das realidades destes sujeitos. Esta montada a sinopse do filme. Até ai, sem Freud à vista. Com efeito, este escrito não é uma declaração de amor pela obra de Todd, ainda que o ato seja elogioso, dado que ele criou um cachorro-passageiro para mostrar que as pessoas sofrem, vivem sozinhas e não vislumbram um propósito maior para suas existências. De um menino em tratamento de câncer, uma jovem cuja infância foi “puro bullying”, um excêntrico acadêmico a uma idosa reclusa – é a vida durante a guerra, a batalha de procurar um sentido vital e não encontrá-lo. É válido dar contorno aos termos. O que aqui se nomeia "sentido" pode ser entendido como ligação.





Freud anunciou a pulsão de vida como um movimento de encontro do sujeito com elos exteriores, não por menos, a paixão e a atividade sexual são capazes de trazer um sentimento de estar vivo. Wiener-dog, em oposição, retrata a pulsão de morte, o gradual retorno ao inanimado enquanto ainda se respira, logo, pessoas e ideais estão morrendo. Há seres que diariamente morrem de saúde, velhice e, absolutamente, de falta de desejo. Para além da morte no plano do sujeito, há também a destruição de ideais socialmente firmados, tais como: a família perfeita pautada no amor genuíno e inabalável de pais para com filhos e vice-versa; a descrença num plano existencial planejado por Deus e o ceticismo quanto a um futuro melhor. Tudo à caminho da decomposição. E o que resta? A finitude. No roteiro do filme, há pessoas confrontadas com o fato de que suas vidas são uma passagem. As personagens parecem desiludidas bem como se encontram “deslibidinalizadas” – a energia de ligação parece ausente entre elas. Pode-se assim visualizar uma oposição entre as pulsões de ligar, por um lado, e as de destruir e silenciar, por outro, de modo que as últimas é que predominam. Trata-se, portanto, de uma abordagem curiosa sobre a desunião dos corpos, pois nem sequer o vínculo entre pais e filhos é marcado por um nítido elo afetivo-emocional, em suma são pessoas sozinhas e sem rumo desde cedo. Cabe ainda a questão: há algo capaz de unificá-las? Pode-se dizer que um elemento liga estas personagens, mas não as unifica. O cachorro. Este é um objeto transitante, sem lar ou passado, que não se incorpora em uma família, não forma elo, apenas acompanha pessoas entregues a um cenário desolador. O animal diz da condição de seus temporários donos, pois ele recebe nomes de finitude, tais como “merda” e “câncer”. Todd, mais do que nunca, desvela que tudo esta destinado a morrer. A referência, contudo não é à morte física em si, mas ao desligamento dos corpos. Logo, é possível se pensar na pulsão de morte em termos de separação corpórea, como exemplo, tem-se a solidão enquanto realidade social. No filme aborda-se a transitoriedade das coisas, a perda de vínculos de amizade e a dificuldade em formá-los. Nota-se que estar só é uma condição em si, da infância à velhice. 

Mas, se tudo esta destinado a morrer, vale a pergunta: o que é duradouro hoje? Visualiza-se no roteiro a existência de algumas possíveis constâncias, isto é, condições mostradas que parecem não se alterar por um período de tempo. Antes do total silenciamento para o qual a história culmina, certas condições se mantêm na vida das personagens, destacam-se quatro: o tratamento de câncer da criança; a viagem na estrada; os problemas de comunicação do professor e a solidão da senhora idosa. Tais personagens existem em realidades paralelas, nada sabem, portanto, uma da outra. E mesmo quando acompanhadas, estão sozinhas. Uma energia libidinal capaz de uni-las, manifesta no amor e no contato sexual, é quase uma condição quimérica. É notório, portanto, que com esta exposição acima é improvável, mas não impossível, que seja-lhes suscitado o desejo em ver o filme. De algum modo a felicidade nunca acaba, já que cada filme posterior de Todd faz alusão a sua obra central. De “Felicidade” até “A vida durante a guerra” terá a abordagem de Todd se tornado mais pessimista? Ou realista? O destino será a finitude em si ou a certeza do destino de não haver mudança ou superação?

Vocês decidem,
Renato Oliveira

15.12.16

o desejo de saber, mais ainda

“Mais do mesmo”: a expressão se difundiu nas redes sociais. Não é um termo interessante, contudo indica tanto monotonia quanto a possibilidade de uma escavação. Para os presentes fins, aqui se adotará este segundo sentido. Há alguns anos atrás, neste mesmo endereço eletrônico foi publicada uma resenha sobre o filme Blow-Up (1966) ou “Depois daquele beijo”, um dos mais notórios trabalhos do diretor Michelangelo Antonioni. Ora, por que novamente se fazer discurso sobre ele? As primeiras ampliações feitas em formato de texto não deixaram de produzir inquéritos no falante por trás delas. Sabe-se que a iniciativa primordial de Freud foi postular um saber ao inferir a existência do inconsciente. Tido enquanto lugar da verdade, o inconsciente freudiano não é “pegável” ou mensurável, não esta localizado em uma parte específica do corpo, mas é um saber que se faz conhecido por seus efeitos. O protagonista de Blow-Up é um fotógrafo, seu nome ou características pessoais não são relevantes, mas uma pergunta cabe ser feita: o que era a realidade para ele? Esta era-lhe demonstrável, passível de ser fotografada e ele exercia influência sobre a mesma ao registrá-la sob determinados ângulos. Ele não só dava as coordenadas para capturar a realidade como também estabelecia os enquadramentos. Logo, a fotografia enquanto expressão artística é uma prova da realidade. Em oposição, na psicanálise não há esta prova, mas sim um saber que é suposto no outro, primeiramente no analista, para em transferência se descobrir que o saber é proveniente do sujeito do inconsciente. É sobre estas noções que se discutirá hoje aqui. 


Quanto ao roteiro do filme, vale se deter ao problema posto em cena: o que tinha na foto? O protagonista fotografa um casal em um parque e ao revelar os negativos, detecta uma quarta pessoa naquele local, oculta entre a vegetação. As fotos eram o recurso para visualização, análise e reflexão da realidade, mas o que era esta realidade em questão? O filme não a define, há uma incógnita quanto a se esta realidade era, de fato, demonstrável. O fotógrafo se viu capturado em um engodo, ele esteve frente a um fragmento de realidade que não foi visto. Será que seu principal sentido, a visão, o enganava? Parecia-lhe quase inconcebível ter fotografado uma paisagem sem identificar o quarto elemento, o que gerou um efeito de surpresa, quase como se ele enquanto sujeito estivesse ausente no momento em que as fotos no parque foram tiradas. É concebível que foi o sujeito da razão quem sumiu. Não se trata de uma paranóia do fotógrafo, mas sim de seu desejo de ver e uma curiosidade pelo saber, que culminou no interesse pela comprovação da realidade, como se esta lhe pregasse uma peça. Ora, e o que vem a ser a realidade do inconsciente senão aquilo que prega uma peça no sujeito e gera efeitos de surpresa e angústia? Trata-se de uma realidade que se anuncia e que somente pode ser apreendida num só-depois. Era exatamente com esta dimensão de porvir que o protagonista estava implicado. Contudo, o que tanto ele viu naquelas fotografias? Ele reconheceu que não sabia com exatidão a natureza do relacionamento entre o casal, de modo que ao fotografá-los, esta realidade poderia ser assimilada. É mostrada a implicação profissional do artista no estudo de um fenômeno que se mostrava enquanto oculto, e para tanto o recurso de zoom foi sucessivamente aplicado por ele. Deve-se destacar que ele não viu duas coisas: uma arma e um homem morto. A presença de um mistério foi suscitada pela análise da expressão facial da mulher na foto, de modo que ele retornou ao “local do crime”, pois seu desejo era conhecer o objeto que até antes dos blow-ups (ampliações) estivera oculto e torná-lo assim demonstrável. Mais freudiano, impossível. 

É válido se deter na relação do fotógrafo com seu objeto de análise, o homem morto. Ao retornar ao parque, ele se deparou com um cadáver e o reconheceu como sendo o mesmo homem fotografado. Logo, o artista comprovou uma realidade, só que temporária e suspeita, dado que numa posterior ida ao local, o ambiente estava desabitado. Este paradoxo entre fazer-se presente e desaparecer é uma boa alusão ao Sujeito do Inconsciente, pois é assim que ele se revela em uma análise. Há momentos de seu aparecimento, entre uma fala e outra, nos quais é reconhecido pelo falante por seus efeitos de surpresa ou angústia. A relação entre psicanálise e fotografia pode ser pensada com base em uma articulação de um desejo de saber. Assim como o filme não se pauta em uma perspectiva explicativa, Freud não produziu um saber analítico para explicar uma realidade, mas sim para expor um mais-além. Em sua produção técnica, o austríaco realizou uma série de blow-ups com vistas a mostrar algo que existia sem ser visto – sintomas, chistes, sonhos e atos falhos eram produções humanas ignoradas pelo saber médico, portanto fora do interesse de investigação. A fotografia freudiana trouxe à vista o desejo inconsciente enquanto repetição na relação do sujeito com uma realidade. Ademais, na escuta analítica, o sintoma pode ser tomado enquanto um fenômeno visualizável e cabe, portanto o desafio de implicar o próprio analisante na direção de saber lê-lo.

Duas considerações devem ainda ser feitas. A personagem feminina capturada na fotografia é uma possível referência à resistência. Ela não se implica em retaliar o fotógrafo, mas sim na captura dos negativos. Tem por objetivo impedir que uma realidade registrada fosse impressa. Ela foi ao estúdio com vistas a obter as provas de um suposto crime. É uma personagem angustiada, o que indica que havia ali um não-dito, dado que a angústia é um afeto sinalizador. Mas qual o objeto desta angústia? Nada se pode provar e tão somente inferir que a ansiedade daquela mulher aumentou mais ainda o desejo do artista em ver, em realizar uma série de ampliações fotográficas na suposição de que um saber oculto poderia ser desvelado. Nota-se também que a revelação de um possível assassinato é uma boa imagem para evocar o horror relativo ao desejo recalcado, que tem a mesma natureza de existir sem poder ser visto num primeiro plano. É um desejo que esta por entre os galhos e folhas do inconsciente. É admissível assim que o campo do inconsciente seja um jardim de Alice para alguns, ou mesmo um pântano úmido com folhagens secas.

Até o ano que vem,
Renato Oliveira

18.10.15

born to be wild

Uma das concepções mais piegas já inventadas é a de que, nos relacionamentos afetivos e sexuais as pessoas precisam fazer uma escolha em papel timbrado quanto ao sexo com o qual pretendem se relacionar. Logo em seguida, dar provas de que estão muito bem resolvidos nessa decisão. O cinema, assim como outras linguagens da arte, intencionalmente foi utilizado para embaralhar essa noção estática socialmente concebida de que a orientação sexual é fixa, rígida e intransferível. Dentre os resultados, faz com que pessoas comuns questionem seus valores pessoais bem como a educação que lhes foi transmitida, e ademais, consegue alterar os humores daqueles que não se agradaram com a intencionalidade da proposta. As identificações interpessoais são transitórias e a recusa em aceitar essa noção pode gerar catástrofes. Para que o filme de hoje, em formato de texto, possa ser sentido, é recomendável ligar o botão do free e aceitar a tese de que as relações humanas são perturbadas. Nessa composição, também há lugar para se repensar o postulado de Freud quanto às identificações que culminam numa organização sexual definitiva.

Hoje eu tenho novamente a missão de escrever uma resenha sem expor fatos que revelem o desfecho do filme, mesmo ciente da pertinência dos mesmos. Ocultá-los é a melhor escolha, pois julgo não ser louvável desfazer o prazer da surpresa. Savage Grace (2007) nos é contado pela narrativa da carta de um filho dirigida ao pai. A direção é de Tom Kalin, a história inicia-se em na década de 40 e transita pelos anos de autodescobertas de uma família. Ainda não obtive a constatação de que esse filme tenha caído nas graças de certos meios psicanalíticos. Em seu lançamento, deduzo que assim fosse esperado, pois ao abordar uma clássica relação triangular edípica, ilustra um dos temas mais clássicos que saltou às vistas de Freud. 


Num núcleo de gente rica, são apresentadas cenas de um casal mediadas pelo relacionamento com um bebê, nascido para ser selvagem. Nada poderia parecer mais caricato ao cenário analítico do que a apresentação de uma família em que a figura materna demonstra afetividade e é fisicamente próxima ao bebê, enquanto o pai lhe é distante. Essa é uma primeira impressão, e se o nível de ansiedade estiver elevado, logo faremos a suposição de que a criança desenvolverá uma fixação amorosa na mãe e odiará o pai. 

Devo ressaltar que o mais interessante é aceitar que essa configuração esteja presente na história, embora esta não se limite a mostrar a formação de uma cena edípica. As características pessoais dos envolvidos bem como a riqueza de discursos surpreendem aqueles que, com suas respostas prontas sobre o Édipo, creem dominar o assunto.  


Quando era um bebê, a mãe Barbara Baekeland | Julianne Moore | é vista a exercer o holding para com a adorável recém-chegada criatura. 12 anos depois, o filho Tony Baekeland | Eddie Redmayne | retribui parte do carinho dado ao levar à mãe o café da manhã na cama. Ele diz que se sente desamparado ao estar sozinho e recebe três beijos, sendo um nos lábios. Esta cena é um indício satisfatório para supor uma relação de proximidade emocional e física entre mãe e filho. Tony afirma que “gostaria de vir primeiro” aos compromissos sociais da mãe. Até aí, tudo bem (em termos). Quando se trata de representar o universo infantil e o apego pelos primeiros objetos, é suposto que certo tom melodramático seja praticamente inevitável. Isso é resultado da fantasia da criança em ser amada pelos pais e investida afetivamente por um deles, que tende a produzir um desejo de aproximação que se quer constantemente repetir. Uma criança dizer que gostaria de "vir primeiro" ao desejo da mãe pode ser efeito de um saber inconsciente quanto ao desejo dela. Reconhece-se como parte desse desejo. 

Outros dois detalhes deste momento inicial são importantes para complementar as ideias expostas. Barbara diz que o remédio que pelo filho foi trazido seria um segredo entre ambos. Não é preciso teorização alguma para se entender que um dos maiores laços com outra pessoa é estar ligada a ela por palavras, isso pode ser emocionalmente sentido como um pacto. Detendo-se a este pequeno segredo em questão, quem dentre nós responderá como é sentir que um dos pais esconde coisas do outro e você é utilizado na trama? Se este primeiro detalhe foi de Eros, o segundo, certamente, pertence ao exercício de Tanatos: o pai numa luta de espadas. O fato de essas duas cenas serem seguidas pode sugerir uma cisão, na qual – de acordo com as estatísticas – a figura paterna é concebida como a representação do poder enquanto a materna esta ligada ao amor. Lógico que não são lugares fixos e que o desenvolvimento psíquico consiste exatamente em desinvestir essas figuras dos locais em que na infância foram colocadas. 


Ainda sobre o amor, durante um passeio no parque, Barbara pergunta ao filho: “continuará me amando quando meu cabelo estiver branco e meus peitos caídos?”. A ocasião foi oportuna para revelação de detalhes geracionais, ao mencionar a avó como aquela que a orientou a casar-se – “’procure o homem’, dizia. O homem a que se referia, suponho, era o dinheiro”. Por fim, acrescenta: “os ricos não põe apelidos no dinheiro”, mas os psicanalistas sim, de maneira que este, em algumas condições, passa a ser chamado de falo. Nesta conversa, foi transmitida ao menino parte da herança emocional da família, na qual o casamento era uma convenção e o dote exercia plena influência na decisão a ser tomada. Nada muito além do que um arranjo em que lugares e ocupações eram destinados às pessoas. A minha opinião é a de que nos dias de hoje, não mudou muita coisa no resultado final, apenas o falo, enquanto objeto circulante – algo que é colocado no lugar da falta – é que se desloca do dote-dinheiro para outros atrativos que determinam a decisão de duas pessoas ficarem juntas.

É assim que esse dote paterno é dado a se tornar conhecido. Barbara se refere ao esposo Brooks Baekeland | Stephen Dillane | como alguém que escreve, explora e possui bons conhecimentos em matemática. Como uma criança descobre quem é um pai? A pergunta tem certa relevância se partirmos do entendimento de que seja pai, seja mãe, seja biológico ou não, uma pessoa vem a tornar-se conhecida pela criança como um objeto total por vias discursivas. Nesse caso, o menino assimila quem é o pai a partir de um referencial feminino, como se ela lhe anunciasse: "estou a dizê-lo quem é o pai para mim". Se minha memória não me trai, ao abordar as pesquisas sexuais infantis, Freud incluiu uma questão quase metafísica: a curiosidade da criança em descobrir o que a mãe viu no pai. Barbara respondera a partir da equação falo > = dinheiro.


Com a passagem dos anos e inclusão de um quarto elemento nessa relação triangular, os protagonistas puderam dar provas de serem mais perturbados do que a suposição de pessoas comuns. Blanca | Elena Anaya | é apresentada como a “garota de Tony” num contexto em que ao espectador mais atento é notório que não há uma intensa ligação física ou emocional entre eles. A este respeito, o ceticismo de Barbara se traduz em palavras: “uma mãe sabe quando seu filho esta gostando de alguém”. Sobre a formação de elo afetivo-sexual, é concebível que Tony fora capaz experienciá-lo com Jack | Unax Ugalde |, ainda que se mostrasse hábil e extraísse satisfação na relação sexual com Blanca. 

Após ser incluída no roteiro, essa jovem demarca uma nova repartição. Ela se envolve, na realidade, com Brooks, e um casal a partir de então é formado. A ex-esposa sentiu-se traída e fez escândalo; a Tony o fato pareceu indiferente. Agora é o momento de empregar um discurso do pai para aludir a quem era Barbara: “quero dizer, sua mãe era uma atriz, e de certo modo continua sendo”. Creio não ser exagero afirmar que Blanca estava para Brooks assim como Tony estava para Barbara. Isto é, o segundo tomando o primeiro como objeto de investimento libidinal. 


Não se trata de um filme sobre relações de amor, julgo na verdade, ser apropriada a referência às ligações afetivas e sexuais presentes a partir de noções da paixão, das identificações e da incorporação de objeto. Ao escrever a carta ao pai, Tony admite a condição de falta da mãe, cuja ligação ao filho tornara-se ainda mais intensa com a saída do esposo. Sobre a ligação mãe e filho na vida adulta, o roteiro mescla cenas singelas com outras que sugerem uma mãe voraz por atenção e prazer, cuja demanda é de difícil apreensão. Dentre outros detalhes que poderiam ser destacados desse período após a separação do marido, creio que o envolvimento de Barbara com Sam | Hugh Dancy | é um fator crucial em pauta.

Um amante com idade próxima a do filho: uma equivalência bem feita. Algumas interpretações não requerem grandes argumentos. A não obviedade disso é que Sam estava para Barbara como para Tony também. Ele seduz a ambos. E antes de acharmos que há alguma incongruência nisso, os três reunidos na cama, com Sam entre eles, começam a gargalhar. É da sociedade moralista que eles riem... E também da nossa cara em achar ménage à trois uma prática moderna. 


É notório, portanto que não era de falta de sexo que eles padeciam. E o termo “padecer” só pode ser apropriado se pensado a partir de uma reflexão sobre o fato de mãe e filho anunciarem um descontentamento com suas vidas. Não é apenas de um tom de desgosto existencial que se trata; a ligação entre Barbara e Tony desperta o sentimento de que algo não ia bem. Sendo assim, reunir em síntese o que até aqui foi exposto pode ser válido para nortear uma interpretação derradeira sobre o filme. 

Inicialmente, a condução do roteiro parece sugerir a compreensão de que o filho muito apegado com a mãe necessariamente terá o pai como rival e não será capaz de superar esta dependência amorosa nas relações futuras. No entanto, não é de fato o que ocorre com Tony, uma vez que o pai não é atacado na vida adulta, bem como sua ausência é sentida como falta, de modo que na carta ele é chamado a ocupar novamente um lugar, não o de pai – supondo que esse dever estivesse concluído – mas o de esposo. Em outros termos, isso é um indicativo de que os sentimentos de inveja primitivos próprios à fase edípica foram superados. Seja pela não rivalidade com o pai, seja por reconhecer que à mãe algo faltava que ele, enquanto filho, não era capaz de oferecer.

Tony se reconhece como tendo um pênis, um suposto falo a ser ofertado, e o julga ser insuficiente, pois admite não ser capaz de satisfazer a mãe. A recusa em atender ao pedido materno não é somente uma submissão à lei do incesto, pois primordialmente representa um entendimento da fantasia de Barbara, na qual pede por um filho ainda criança. Recusar a manutenção da ligação fusional é uma forma de anunciar à mãe que a sua procura por satisfação deveria ser canalizada para outro objeto que não o filho. 


É difícil assimilar o que Barbara queria ao manter-se ligada a Tony e demandar-lhe que a satisfizesse sexualmente. Há coisas que somente podem ser ditas por meio da arte, e às vezes, com a arte dentro dela mesma. Ao analisar o quadro que Barbara pintava, é possível supor qual era sua demanda às figuras masculinas. A pintura era a de uma mulher que segurava um bebê aos braços, que pelos traços reconhecemos como um autorretrato. Isso nos indica o possível desejo dela em existir enquanto mulher ao SER MÃE, de sentir-se toda neste papel. O crescimento do filho era sentido como perda, como anulamento de si mesma e talvez só pudesse ser concebível com o compartilhamento de objetos sexuais. A aflição de Barbara era por não encontrar outra posição feminina que falasse de seu sexo senão a ligada ao bebê.  

Penso que a tentativa de Tony de religar a mãe ao pai era uma possível saída para a demanda dela em fazer-se presente na vida do filho, mais ainda. Havia uma tentativa de desligamento da parte dele e um cansaço por ter que estar junto a ela. Não é por menos que Sam o nomeia como um “cuidador” e diz que alguém deveria prestar-lhe cuidados. 


A identificação com a mãe, cujos primórdios foram aqui mencionados, pode certamente ser tida como a causa e o desdobramento de toda a situação. Como fomos instruídos desde o início de nossa relação com a obra de Freud, o jogo de identificações edípicas consiste em pegar uma referência – “com quem quero me parecer?”. Pode ser paranoia da minha cabeça, mas a forte ligação entre Barbara e Tony recebeu um correspondente no corpo. Ora, conforme são mostradas diferentes etapas da vida, as tonalidades de cabelo de ambos (do ruivo ao castanho) parecem cada vez mais próximas, como se eles estivessem sincronizados por esse referencial estético. 

É certo que sustentar uma identificação ao longo dos anos cujo cerne era ligar sexualmente mãe e filho tornou-se uma rotina intolerável. Assim, cabe uma indagação quanto à finalidade da carta ao pai: era necessário a Tony livrar-se dessa mãe, devolvê-la ao dono para que a mesma se curasse, ou era para livrar-se de seu próprio desejo de ceder que ele o fazia? O testemunho do filho foi expresso nos termos: “às vezes tenho uma mente maldita e não sei o que fazer com ela, mas tento combatê-la com toda a minha alma”. A solução para esse retrato do intolerável seria como pesos tirados dos ombros, o encontro como uma graça salvadora, porém primitiva, que propusesse assim um sentido de liberdade. 

Um abraço,
Renato Oliveira

11.4.15

luz nas trevas

Gostaria de ter patrocínio para promover a feira das perguntas sem respostas. Nem teria que me preocupar com a mobília porque nada seria colocado em exposição. É certo que alguns concordariam que há, de fato, “perguntas sem recipientes”, às quais só o destino sabe solucioná-las. No entanto, não nos contentando com os poderes miraculosos, inventamos um caminho para chegar a alusões possíveis para aquilo que surge na vida da gente como impossível de ser respondido. Se não fosse este “tesão de inquérito” e autêntico desejo de saber fico a me perguntar se o cinema não teria virado latim. Claro que os interesses comerciais seriam outro ponto a se discutir, mas isso não é compatível aqui. Do que se trata senão de filmes escritos com base na pergunta: O QUE É ISSO? A despeito do passar do tempo, esse questionamento não se finda, porque importa-nos dar algum sentido para o isso que aparece na tela.


Creio não ser “viagem” da minha parte, ainda que com o risco de apedrejamento por queda à banalidade, afirmar que a psicanálise nasceu quando Freud ousou se questionar a respeito do “isso” que estava ali à mostra por meio do sintoma. Mesmo após alguns anos de estudo, isso não se ocultou, pelo contrário, continuava acessível à observação nas outras manifestações do inconsciente, conforme vocês sabem porque estudaram o assunto. É curioso, entretanto, recorrer à ilustração para mostrar que ao “isso” que fora nomeado por Freud de “id”, tem-se uma imagem menos cavernosa do que o necessário. Quem tem a intrepidez de dizer “quero conhecer o isso que habita em mim”? O diretor Andrzej Zulawski fez um filme para mostrar o suposto “isso” de cada um, cujo nome é Possession (1981). Acho incrível pensar que comemoraremos o centenário desse trabalho um dia (não devo estar aqui) e ainda restarão questões a serem pensadas a partir de um filme com uma proposta simples, fatídica e fabulosa!

É a narrativa de um homem que amava sua mulher, a qual, por sua vez, não amava somente ele. O verbo amar é cabível nesse contexto com o sentido de quero possuir você. O que é realmente importante que vocês saibam do roteiro do filme por meio deste escrito é tão somente isso: ele suspeitava que ela tinha um amante e queria provas para confirmar este pressuposto. Para além disso, tudo o mais é horror e creio que isso não serei capaz de fazê-los sentir. Seria imponência demais da minha parte assim supor. Quero, contudo, mostrar alguns comportamentos dele a partir de seu desejo de saber e fazer as correlações psicanalíticas possíveis com o “isso” que nos é dado a ver no filme.


Disseram para Mark | Sam Neil |, o marido em questão, que sua esposa esperava que ele fizesse alguma coisa, nem que fosse mágica, pois estava colocado em cena o fato de que ela tinha alguém para além dele. Se ele não houvesse tido iniciativa para discutir a relação, não nos pareceria verossímil a problemática em pauta. “Ele quer ela, ela não quer ele”: esta é a primeira impressão que temos. Creio que talvez houvesse motivos para temer uma mulher que diz: “todo mundo pode fazer o bem e o mal... Mas, se preferir, posso fazer apenas o mal”. Somos, a princípio, testemunhas de um casal que discutia sem que tenhamos a certeza do que lhes causava tanta tensão. Supomos assim a presença de um terceiro ausente, para o qual o interesse da mulher convergia.

Na minha vida de estudante de Psicologia, dediquei-me por um tempo ao estudo da feminilidade em psicanálise, mas isso não me impede de conhecer alguma coisa de postulados teóricos sobre mente de um homem. Sobre este marido com ataque de nervos penso que a descoberta de que ela tinha outro era sentida na cabeça dele com base em pensamentos tais como os que seguem: “eu não sou tudo para ela. O que falta lhe oferecer? Alguém apareceu e lhe proporcionou algo melhor do que aquilo que eu poderia ofertar. Mas sei como tê-la de volta”. Ademais, é comum um homem querer a confirmação se um amante faz sexo melhor do que ele, por mais degradante que possa ser ouvir um “sim”. Ora, é frequente a escuta de que o homem, em circunstâncias tais, tende a colocar-se na relação como aquele supostamente capaz de tamponar qualquer falta. Uma sucinta declaração de Mark para Anna | Isabelle Adjanni | confirma isso: “não suporto vê-la assim. Será do jeito que você quiser. Estou aqui”.

A separação era uma ideia insustentável para ele. O decorrer do filme apresenta a destrutividade no gradual enlouquecimento do casal conforme Mark fazia de tudo para obter a identidade do amante. Seguindo os eventos quero ressaltar e tomar para análise alguns símbolos que foram surgindo (não na minha cabeça, mas que apareciam no filme).


Enquanto o marido, possivelmente, meditava sobre a situação conjugal sentado em uma cadeira de balanço, observamos um movimento que vai acelerando aos poucos. Não lembro o nome da lei da Física que explica isso. Sei, contudo, que parece haver um aumento gradativo de tensão. Estava demarcada uma separação entre o casal, que não era aceita por ele, e ela não conseguia desvincular plenamente o marido de sua vida, uma vez que ainda lhe oferecia justificativas verbais. O movimento da cadeira pode representar um símbolo de avanço e retrocesso sem sair do lugar. A inclinação da cadeira com o peso do corpo era tanta que parecia que ele ia cair, mas, ainda assim, se mantinha. Era como se ele estivesse prestes a desistir do confronto, seja liberando-a para o outro ou via homicídio, mas ainda assim, voltava a si e se dissuadia destas ideias.


É importante explicar que a confirmação da esposa de que havia outro não fora suficiente para frear os movimentos frenéticos de Mark. Ela não somente confirmou ter alguém, como forneceu o endereço do mesmo. Ele foi até o suposto rival, Heinrich | Henz Bennent |, e antes de acirrar um confronto entre eles, foi obrigado a ouvir: “a charada esta no infinitivo. Aceitar”. Acho curioso notar que mesmo com esta visualização do cenário, Mark não se contentou em suas investigações iniciais, como se o “isso” que ele queria saber ainda se mantivesse oculto. As discussões com Anna prosseguiam, em uma delas, inclusive, ela lhe revelou: “você não entende? Você me dá nojo! Sou uma vadia, um monstro! (...) Transo com todos e você não sabe!”. E logo confirmamos, mais uma vez, que o desconhecido nos atrai. Em busca de um saber ainda não todo relevado, Mark contratou um detetive. No escritório deste, sentado em uma cadeira, não mais de balanço, mas dessas que rodam, observa-se que ele fazia constantes movimentos circulares. No formato de um círculo, logicamente, e sem dar uma volta completa, sem fechá-la, portanto. É como perseguir uma coisa sem um ponto de chegada, o que traz a ideia de uma busca que não se finda. Uma “volta completa” seria a obtenção de um saber pleno do desejo do outro, bem como de suas intenções intrínsecas, arraigadas ao âmago do ser. Uma ilusão, evidentemente. Afinal, por mais próximo que se conviva com alguém, é inviável pensar que o nosso poder de sondagem será suficiente para desvela-lo a nu para nosso interesse.


Trata-se de um filme em que a obsessão do marido serve de ocasião para se mostrar a carne humana que detém segredos psicológicos e espirituais para além de nossa limitada compreensão. Outros símbolos estranhos aparecem. Enquanto Anna cozinhava, Mark, menos exasperado, revela seus sentimentos: “quando esta longe, vejo-a como um animal ou ser possuído. Mas quando a vejo tudo isso desaparece”. Nessa cena, vemos Anna cortar carne com uma faca elétrica para depois jogar os pedaços na máquina de moer. Isso significa algo? É o que ela estava fazendo com o marido? Seria a carne um pedaço do coração dele destruído pela indiferença dela? Sou mais tentado a pensar que a carne representava outra parte do corpo dele (o pênis, claro) sentida como flácida, picotada, fragmentada e transformada em partículas moídas uma vez que deixara de ser objeto de desejo dela, sendo renegado como um brinquedo que já deixou de ser interessante. Não é por menos que a ferida narcísica dele se revela em atos de cólera extrema.


Eles estão descontrolados. Não apenas um descontrole, mas também um desespero posto em cena. Descontrole e desespero. Cortem o “des”. Resta-nos “controle” e “espero”: ele esperava obter o controle da situação. Que Anna admitisse um amante não era o suficiente, ele queria um dito de verdade sobre o desejo dela. O desespero do marido era por não ter indícios de um controle, o que, por sua vez, o tirava de uma condição de poder para jogá-lo num círculo de perseguição à verdade plena sem nunca alcançá-la. Com um corte no pescoço de Anna feito com a faca elétrica, ele demanda que ela tão somente fale: “tudo será do jeito que quiser! Apenas fale. Não precisa dizer nada”. Ficaremos aqui até amanhã para entender o que ele realmente queria saber. “Falar, mas nada dizer”: talvez isso indique que ele não estava em condições de ouvi-la devido à angústia decorrente de suas indagações acerca do enigma que envolvia o desejo da esposa.


Foi preciso que Mark encontrasse o primeiro outro em questão, Heinrich, para por seu intermédio constatar que havia um eleito para além dos dois. Essa revelação aumentou o anseio de Mark e levou o investigador contratado a seguir Anna até um prédio, para em seguida fingir-se de síndico a fim de descobrir a identidade daquele a quem ela fora visitar. Ao entrar, ele abriu as persianas, isto é, lançou luz em ambientes escuros. Qualquer investigação nada mais é do que isso. A experiência inicial de Freud com a psicanálise também o foi. A demanda do marido era fazer Anna falar. Como não obteve êxito neste intento, sua intenção passou a ser a de iluminar um saber desconhecido supostamente real, ele queria fazer aparecer o outro que a fazia desejar. Aqui cabe uma pergunta: é verdadeiro o postulado de que há em nós um outro, não a nossa razão consciente, que nos faz desejar aquilo que a consciência repugna? Em síntese, aparecer é sempre, de algum modo, ter que lidar com o assombro.

Na busca pelo desconhecido, Anna apontou ao detetive onde estava o outro, indicando-lhe o banheiro sem janelas. Isso nos mostra que no lugar em que a revelação se detém não há janela. Assim, não dá para ver o que se passa estando do lado de fora. Só é possível ver o que esta dentro se você estiver inserido. Se usarmos essas noções como metáfora, podemos aludir à fala do sujeito como reveladora dele mesmo, do “isso”, de seus conteúdos inconscientes, desde os mais primitivos, daquilo que esta sob efeito de recalcamento e quer, assim, aparecer. O saber sobre o Inconsciente esta no sujeito, é uma linguagem que pode tornar-se manifesta. Ninguém pode revelá-lo senão o próprio dono, o único com acesso a este campo de palavras.


Logo, o que havia de tão assustador no local por ela indicado? É interessante notar que enquanto se tornava mais forte o anseio do marido em querer que a verdade desconhecida fosse toda dita, “isso” era falado no sintoma do filho. Com Freud aprendemos que alguns acometimentos físicos são manifestações do inconsciente, e com Lacan, que o sintoma da criança revela algo da ordem do sintoma dos pais. Sobre Bob | Michael Hogben |, o garotinho, nas palavras de sua professora: “ele sabe de tudo, sente tudo, é incrível. Depois do almoço temos uma hora de descanso. Bob dorme quase o tempo todo. Enquanto dorme, chora, grita. (...) Ele sofre. É sempre muito difícil acalmá-lo”. Há uma cena também em que ele acorda aos berros após um pesadelo. O que a criança anunciava, portanto, era um estado de desordem familiar que o atormentava. O sintoma dessa criança também retrata a existência de uma coisa perturbadora que após aparecer via sonho, é temporariamente afastada da consciência ao acordar "como se nada tivesse acontecido". Trata-se de um “horror” que ainda não foi nomeado aqui, mas o discurso da professora, enquanto lavava a faca elétrica usada por Anna, é revelador nesse sentido: “mulheres são perigosas. (...) Sou de um lugar onde o mal parece mais fácil de ser detectado, porque você pode notá-lo na pele. Ele se torna pessoas. Assim você sabe o perigo de ser atingido por ele”


A personificação do mal comentada por ela refere-se à noção de que pode ser de uma interioridade humana que se trate quando se fala acerca de uma maldade causadora de algum tipo de assolação. Falamos do lugar de conhecedores apenas parciais de uma mente, com a ciência de que não há um entendimento pleno de seu funcionamento. Iluminamos algumas de suas áreas, sabemos que é a linguagem que a fazer advir como Sujeito do Inconsciente e também recuamos ao se deparar com a verdade de que seus conteúdos não nos são agradáveis. Cortar-se com a faca elétrica ou com a garrafa de vinho, mostrar a carne exposta e crua: outro símbolo que retrata a apresentação do humano tal como o é, apenas uma carne com alguns conteúdos desconhecidos inacessíveis a razão. O diretor ousa querer mostrá-los e não há outro gênero senão o terror que seja mais apropriado para tanto.


Suponho que esse “outro” que Mark não podia ver e para o qual o desejo de Anna se voltava, pode ser concebido como o autor da perturbação que também a assolava. No momento em que se dirige a uma igreja após um estado de perturbação e fixa seus olhos na estátua de Jesus Cristo – símbolo de pureza, de mortificação do desejo na carne, de renúncia e santificação – parece que ela esta tentando ver a si própria nesta imagem. Como se assim fosse possível usá-la como um espelho para santificar-se após a descoberta do que havia de demoníaco e aterrorizador em si própria. Esses conteúdos internos também podem ser concebidos como 'sujos', uma vez que a moralidade do sujeito atribui esse caráter àquilo que foi afastado da consciência via recalque. Jesus Cristo aparece como o símbolo do ideal do eu impossível de ser alcançado senão com a morte, uma vez que em vida a relação do homem com o “desejo-sujeira” é inevitável. Sobre o impasse em seu relacionamento com o olhar do sagrado, ela anuncia: “o que perdi lá foi a irmã fé. O que me restou foi a irmã acaso. Eu teria que ter cuidado da minha fé, preservá-la”


Isso tudo o que foi dito até aqui, claro que não é “tudo” coisa alguma. É apenas uma parcialidade interpretativa de “um mal” oculto em uma história sob a pele de um suposto amante, do qual só a esposa era suposta saber alguma coisa, e que causava no casal um aterrorizante sentimento de assolação. Com vistas a não revelar um spoiler aos que não viram o filme, limitei-me à sentença de que o desconhecido era o amante e o amante era o isso. A valentia de ver tanto a carne crua até então escondida quanto à interioridade deste “outro” perseguido é similar à coragem do analisante quando se põe a falar daquilo que o faz sofrer. Ele sabe que sua pele será aos poucos rasgada e que o processo somente ocorrerá com o enfrentamento da dor consequente desse jogo de palavras. A esperança ao iluminar esses locais da mente é que o caminho a ser trilhado não será em círculos.

Beijos de luz,

Renato Oliveira

9.11.14

doce desejo

O Cine Freud de hoje vem vestido de confeitaria para mostrar que os desejos de uma criança crescida não são nada doces. Na verdade, não precisa nem sequer ser crescido para saber que desejos não são agradáveis ao paladar da mente. Lógico que não me refiro a desejo por doce, sobremesa, casa na praia, vodka com suco de laranja ou coisa do tipo. Faço menção ao desejo como ele aparece na psicanálise enquanto campo do saber e na clínica psicanalítica: desejo daquilo que causa horror, que deseja ser evitado, mantido afastado da consciência. As fias David Slade e Brian Nelson sabem disso, afinal articularam esse entendimento ao criar um filme sobre o qual muito já foi falado, mas não o bastante. A história da brilhante e deliciosa maçã que ao ser mordida deu abertura para a saída de uma larva ganhou novos horizontes, tais como se percebe no filme Hard Candy (2005), que fomos forçosamente obrigados a conhecer por menina má.com.

Não estou nem um pouco disposto a discutir sobre os perigos da era contemporânea e o quanto pode ser nocivo a crianças conversarem em chats – leia-se atualmente: redes sociais – e marcarem encontros. Há inúmeras enciclopédias eletrônicas sobre o assunto e não precisa ser expert na área para saber que gente má intencionada esta em toda a parte, inclusive, os que escrevem resenhas. A questão é: eles estavam conversando em uma sala de bate-papo qualquer e pelo que lemos, já havia um acentuado teor erótico na conversa. Logo marcaram de se encontrar. Tudo assim, absolutamente rápido. Você pode ter a impressão de que duas pessoas trocaram algumas palavras num site e marcaram de se ver, contudo, logo descobrimos que o contato entre eles se estendia por três semanas.

Vemos a seguir um close numa fatia de bolo sendo cortada. Mesmo os mais avessos à glicose sentirão vontade de comer algo com açúcar após essa cena. Ela, Hayley Stark | Ellen Page | extasiava ao sentir o doce sabor do chocolate como um lençol macio sobre a língua. 


Essa sensação de júbilo se tornou ainda maior com a chegada de seu “amigo virtual” em formato humano e 3D: o fotógrafo Jeff Kohlver | Patrick Wilson |, que como acontece habitualmente em filmes, as pessoas se reconhecem muito facilmente. Ah, e tem mais: nos mesmos, gente real “saída da internet” nunca é feia. Que seja, não é ocasião para se discutir sobre isso. Eles conversavam entre café latte descafeínado e mais doce e chocolates, e devo acentuar que Hayley não conseguia disfarçar que não estava nem um pouco decepcionada pela aparência dele. Ela levanta uma questão aparentemente boba neste momento, mas muito relevante: “o meu rosto mente?”. Pois bem, ela tinha 14 anos e a idade dele será revelada mais adiante. Jeff anuncia que ela parecia ser mais velha, o que dá a entender que os seus assuntos eram de “mocinha mais madura”.


Eram eles jovens com compatibilidade musical, com um discurso bastante fluído... Tudo isso para dizer que não se tratava daqueles encontros em que cada um não sabe onde pôr as mãos. Uma história de um mp3 da banda Goldfrapp serviu de ocasião, senão pretexto, para a emergência da possibilidade da guria ir para a casa dele. Claro que isso somente pode ser entendido por nós como cortinas abertas para o sexo, e mais evidente ainda é que era isso o que eles queriam. Nada do que eu possa explicar sobre uma frase de Hayley fará mais efeito do que mencioná-la literalmente: “você disse que seria loucura eu ir a sua casa e, bem... Quatro, quatro em cada cinco médicos acham que sou louca. Logo, eu preciso ir à sua casa para ser eu mesma, certo?” Com uma pessoa assim você nunca precisará pedir que ela diga para que veio. Só que claro que a revelação da teenager não foi levada a sério por ele – “não me leve a sério, me leve para sua cama”. Perdoem-me o jogo de expressões, mas preciso sintetizar tudo ao declarar que logo estava Hayley com sua blusa vermelha de frio com capuz, que lembra-nos a figura icônica de chapeuzinho vermelho, agora sim, dentro do lugar para ser vítima da voracidade de um lobo que não dera indício algum de sê-lo. O rosto dele mentia?


Na casa dele, ela sentiu-se muito a vontade, e observava todas as acomodações. O sexo, a princípio era algo propriamente insinuado por meio não só dos olhares deles, mas do interesse declarado dela em querer saber sobre ele e acerca das modelos que se entregavam às suas lentes. Não sei se na cultura estado-unidense não é desagradável uma pessoa semiconhecida abrir a geladeira, mas o que é válido se deter é o diálogo que se estabeleceu entre eles enquanto ela fazia uma bebida com vodka: “cara saudável, heim!” – “quero viver o máximo que puder” – “viver não é muito bom” – “você não quer chegar à velhice?” – “pra quê? Quando tiver 80 anos vou me divertir com o que?” E essa discussão filosófica terminou com Jeff dizendo que quando ela tivesse 80 anos, ele teria 98 e não poderia ser útil a ela. Mas, no final ele atualiza esta conclusão, ao indagar: “E como eu posso ser útil a você?”. Logo a pergunta foi respondida.


Enquanto bebiam, após conhecer o quarto dele e seu estúdio fotográfico, Hayley pede que tire algumas fotografias dela. Durante os primeiros enquadres, ele desmaia e por alguns segundos a história parece ser confusa. O “clímax” do roteiro forma-se a partir dos eventos que sucederam a esta perda momentânea de consciência: Jeff foi amarrado por ela e tornou-se fisicamente cativo ao seu interesse de aniquilá-lo. Ela utilizou uma substância que nos é desconhecida para provocar aquele desmaio e poder capturá-lo. Sim, seu intuito era fazê-lo sofrer, mas posso afirmar que mediante um sofrimento pouco convencional. Na primeira etapa, ela pretendia desvendar sua alma e seus segredos, a situação teria uma característica muito mais verbal, para, numa segunda, executar um plano que atravessaria a dimensão do corpo. 


Hayley anuncia que Jeff estava à caça de uma adolescente de sua idade. Ela o acusava de ser um voyeur, um molestador e pedófilo. Aos poucos, ela menciona casos de meninas que supostamente foram vítimas deste “cordeiro amordaçado”. Para Hayley, a declaração de Jeff de que ele não se relacionava sexualmente com as modelos que fotografava era falsa e ademais, ela procurou elencar sucessivas acusações contra ele.

Observem que primeiramente é estabelecido um setting profano pautado nas palavras que eram expressas por eles, ou seja, o horror relativo a quem ele era e quem foi de verdade e o que ela estava por realizar tinha uma característica de oralidade. Lembrem-se da imagem inicial da torta degustada por Hayley. Há um momento em que ela diz: “aposto que você tem coisas tão saborosas”. Desde então esta marcada uma correspondência entre o que diz respeito à oralidade e a obtenção consequente de prazer sexual. A princípio, o prazer da conversação via chat, seguido da degustação daqueles doces, e, posteriormente, a suposta satisfação obtida com as bebidas para chegar a presente situação do prazer na fala, em desvelar a alma do acusado por meio das palavras que ela o persuadia a proferir. É certo que há um prazer sexual possível a se obter a partir daquilo que é passível de incorporação. Essa ideia foi popularmente traduzida em: “pecado não é o que entra, mas aquilo que sai”.


Esta mesma frase serviria para justificar o próximo delito de Jeff aludido por Hayley: a pornografia. Ela relata que olhou em todas as partes da casa e não encontrou um item sequer – “estava pensando que essas fotos na parede talvez fossem a sua pornografia. Mas aposto que você não se masturba com elas”. Assim, ela descobre um cofre e se defronta com a tarefa de adivinhar a senha a fim de confirmar sua hipótese de que ali se encontrava o verdadeiro material pornô com o qual Jeff obtinha prazer. O que será que havia de tão proibitivo e particular para estar dentro de um cofre escondido entre pedras na casa de um homem que vivia sozinho? Quero ressaltar que a pornografia também pertence ao mesmo eixo de obtenção de prazer sexual já mencionado, a oralidade. Trata-se da introjeção de uma imagem criada (seja a partir de imagens reais, fotos, ou cenas reais ou imaginadas) que serve como estimulação física para fins de prazer autoerótico.


A cena do cofre, bem como todo esse verbal setting nos leva a seguinte questão: Jeff era realmente o “lobo mau” revelado por Hayley, ou as acusações e retaliações eram tão somente projeções dela? Quais eram os seus segredos e o que, na verdade, o fazia gozar? O que são os nossos segredos? Nesse momento quero aludir à palavra inglesa “core”, usada para definição daquilo que se encontra no núcleo, é o miolo de alguma coisa, o seu âmago, como o cofre de Jeff enquanto metáfora de sua Verdade Oculta. Tem segredos que compartilhamos com uma ou outra pessoa, tão somente, inclusive, aqueles que são contados ao analista. Mas o que dizer de “segredos do core”, para além do coração, mais do núcleo do miolo do âmago do ser, que você mesmo não quer lembrar de que eles existem e são teus? É desses que me refiro, “segredo-horror” que precisa ser mantido enquanto secreto. Nesse contexto, como se encaixaria a expressão hardcore? Faz sentido pensá-la como um núcleo duro, literalmente, ou seja, aquilo que é tão nosso que não pode ser descrito nem sequer verbalizado de maneira alguma, o átomo, o indivisível, o que não é passível de ser dividido com ninguém. Sim, era o hardcore de Jeff que Hayley queria trazer a consciência. Isso é ou não uma tortura? E não tem analista que, sem tato da ocasião certa, procura fazer o mesmo?

Hayley queria o hardcore porque ela era o hardcandy, um doce revestido de muito açúcar e chocolate, porém intragável, duro, difícil de ser incorporado. Ela se fez de advogada de acusação para obter uma Verdade, ela queria provar que Jeff era pior do que ela, que suas partes más se tornariam inócuas próximas ao grande pecado dele.


Num segundo momento ela se aproxima do “pecado dele” enquanto instrumento ligado ao corpo. Sim, a frase ficou esquisita. Mas o fato é que nesta parte a tortura sai um pouco do plano verbal para atingir a dimensão corpórea. Vemos um saco de gelo cobrindo a área genital de Jeff enquanto ele permanecia amarrado sobre uma mesa. Vocês entenderam o que está prestes a acontecer – “você é um escândalo em potencial. Todos ficarão mais seguros se eu fizer uma pequena manutenção preventiva”. Roupa de médico, lâmina de barbear, espuma e tesoura: ela pretendia castrá-lo. Acreditava que assim meninas estariam seguras de serem assassinadas por ele. Hayley tenta provar que ele tem um pênis composto de tudo o que há de mal, capaz de causar estrago ao mundo, que seu pênis esta associado à sujeira, tortura, ao sadismo e as perversões no geral. Portanto, “agonias impensáveis” são representadas nas cenas já formuladas na mente de vocês. É necessário acrescentar que o pênis de Jeff é também um hardcandy, isto é, quando ereto, é um doce tentador, mas que não deve ser provado – “aposto que você tem coisas tão saborosas”. A ereção é concebida como um alerta de perigo para a sociedade. Trata-se, assim, de um doce “envenenezante” que precisa ser rejeitado, que não pode sob circunstância alguma ser incorporado.


Dessa maneira, Jeff foi levado a descobrir seu hardcore, o seu cofre foi encontrado e ele teria que se haver com suas partes boas e com as más, principalmente. Como puderam notar, o meu intuito não foi analisar a presença de uma possível psicopatia em Hayley, mas sim a cena montada. Sobre esta, farei uma última observação, mas não menos monstruosa: há uma finalidade no horror da castração ilustrado no filme. Logo no início se tem a impressão de que Jeff  será o lobo-mau que usufruirá do corpo de Hayley, a levará para casa e fará sexo com ela unicamente para seu próprio êxtase, ou seja, que será uma relação sexual sádica e torturante, em que a jovem se submeterá enquanto virgem. Esta cena imaginária alude a uma prática de pedofilia, claro, e, por sua vez, remete a proibição do incesto, (o desejo sexual pelos pais existente apenas em estado latente). Ora, toda essa cena inicial é recalcada na mente do expectador e temporariamente esquecida, de maneira que a inversão de posições (Jeff como objeto) é sentida na consciência enquanto se assiste ao filme com um prazer sádico e sensação de alívio porque é mais fácil admiti-la do que a imagem em estado de recalcamento. Assim, tenha, portanto, cautela ao dizer em público que você precisa de um doce, algum julgamento a partir disso será inevitável.

Abraços a todos,

Renato Oliveira