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19.8.18

recordar, repetir e apagar

O sujeito sofre de reminiscências. A assertiva não é nova, pelo contrário, é o que há de mais clássico e singular do discurso psicanalítico. Trata-se, contudo, de coisa moderna ao mesmo tempo. Se a memória de um falante fosse deletada, seu sofrimento desapareceria para a construção de uma nova história de vida, mais ou menos sujeita aos mesmos percalços e ciladas de antes. Este procedimento pode ser o desejo de alguns, de maneira que ao analista é demandado que lhe extraia fragmentos de passado cuja função não parece nada além de um fazer-sofrer. Certo é que uma mente sem lembranças é objeto de desejo tão somente porque seu alcance é da ordem do impossível. Na realidade, o que se faz em análise é recordar, a fim de que as inevitáveis repetições na vida cotidiana possam ser efeitos de uma elaboração de situações vividas. Se o analista não oferece nada muito além de uma reaproximação da dor, há, por outro lado, quem ofertou um mecanismo para que o sofrimento não mais existisse. Este cara enriqueceu e seus clientes foram felizes para sempre. Não foi este o fim da história. As reminiscências de dor são importantes em sua singularidade e, por alguma razão, ao recordá-las se produz mais dor bem como um apego e anseio por superá-las. É por conta desta contradição no sujeito que o tema se torna instigante, de maneira a dedicá-lo aqui alguma abordagem. Créditos ao brilhante roteiro de Michel Gondry que atualizou o “recordar, repetir e elaborar” de Freud em uma roupagem lúdica. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004) é título analítico por si só. Ainda que não fosse filme, apenas a frase seria material de trabalho. A mente humana só alcança sua resplandecência quando a lembrança associada à dor deixa de existir? É o que ofertam certos tipos de terapias contemporâneas. Neste filme, bem como em uma análise, recordar o que faz sofrer é tarefa crucial.


Com efeito, o que faz sofrer é o amor. Afeto investido e mesclado a ilusões tão essenciais e que em algum momento pode ser necessário deixar de investi-lo. A originalidade do roteiro articula a propensão humana para amar e a dor de uma separação com a ficção científica. Ora, um médico oferta um serviço no qual todas as memórias relativas a um ser outrora amado seriam apagadas. Aqueles que se submetessem ao procedimento obtinham a chance de um recomeço com a garantia de que “ex bom é ex-morto”. Não mais se sofreria de reminiscências, já que o antigo amado passaria a ser um desconhecido. No roteiro, Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) submeteram-se ao procedimento e tiveram suas vidas renovadas. Não é isso. Ainda que o tema deste ensaio seja a memória e não o amor, vale destacar que no filme algo de considerável valor e intensidade se produziu no relacionamento do casal. A isto pode ser dado o nome de “amor” ou qualquer outro, desde que não se desconsidere o fato deles não saírem ilesos dessa relação, mas sim de tê-la vivida com profundidade e entrega emocional. Rompimentos não são dolorosos caso a barreira para um real envolvimento tiver sido plenamente mantida. O que se destaca da vivência de Joel e Clementine é a descoberta de que o outro investido era revelador de imperfeições, de forma que a falha emergiu e em algum momento tornou-se insustentável. A saída encontrada foi esquecê-lo. Para tanto, todos os significantes relacionados a esse outro foram levados ao consultório, de forma que no procedimento as memórias eram apagadas uma a uma, a começar pela mais recente. Ainda que a garantia de êxito fosse de 99%, é este um por cento que falta que aqui interessa. Esta porcentagem mínima fomenta os questionamentos: mas é isso que o sujeito queria? Numa realidade contemporânea em que nota-se o medo de envolvimentos, livrar-se de toda e qualquer memória associada à dor é objeto de desejo? O procedimento, se real, teria público?

Ter as memórias apagadas implicava a necessidade de revisitá-las. Eis aí o problema. Revisitá-las pela última vez, mas ainda assim estabelecer algum contato. Como em um sonho, os momentos vivenciados junto ao ser amado um dia investido eram despertados para que só assim deixassem de existir. A ficção traz um elemento essencial ao que interessa enquanto leitura psicanalítica: a não-passividade do sujeito. Joel e Clementine submeteram-se a esquecer e para tanto tiveram que sentir “tudo de novo” e reagir a isso. Nesta posição de agentes da demanda seria possível questionar o próprio desejo. Assim, Joel decide por agarrar-se às reminiscências que o faziam sofrer. Ele se implica em uma auto-sabotagem enquanto dormia, na tentativa de impedir que tais memórias fossem deletadas para sempre. Mais que um apego às recordações, ele junta-se a Clementine para que fossem salvos do alcance de uma mente sem lembranças. Na ficção, como na análise, o desejo de esquecer é uma demanda inicial e aparente. A possibilidade de lembrar é temida bem como recordar o que causa dor é uma via necessária para que exista tratamento. Conforme consta desde os primórdios de Freud, não se trata de esquecer, mas de elaborar, de se produzir a fala de uma situação dolorosa, de descolar significantes e significados. Algo deixado por esta obra de Gondry é a real de que memórias fazem sofrer, mas existe a oportunidade de elaboração. Neste tipo de dor é certo que existe beleza bem como a chance de se produzir algo novo a partir disso.  

Renato Oliveira

12.5.17

da mãe pródiga à suficientemente louca

“Feliz dia das mães” é uma frase de forte apelo comercial. Ao se afirmar isso neste presente canal de comunicação, nada mais se faz do que repetir o fato de que a data é firmada para atender aos interesses de lucro do mercado. A existência de “mães simbólicas” além das biológicas aumenta a perspectiva de faturamento. Nesta escrita, contudo, não se falará de “psicanálise do consumidor”, pois há uma dimensão muito mais apreciada pelo saber analítico, aquela que reflete toda a afetividade existente no ser mãe. A partir daí, se fala em posição materna bem como na ideia de vínculo e, sobretudo, é sabido que o ser mãe pode ter seu início ainda na infância, quando o desejo de conceber um filho começa a ser elaborado. A data comemorativa articulada com o cinema e a psicanálise nada nos traz senão a realidade de sentimentos despertados por este vínculo, que podem ser das mais diferentes ordens, mas nesse ensaio, é claro, se abordará sobre conflitos. Ora, as mães do cinema aqui elencadas não são outras senão aquelas cuja dimensão afetiva suscitada pela relação com o filho é objeto de interesse da psicanálise. Assim, há desde o lugar para a pródiga quanto para a mãe suficientemente louca.  

O título no Brasil “Stella Dallas Mãe Redentora” (1937) é analítico por excelência. O melodrama retrata uma mulher à qual a demanda “ser mãe” foi aceita e tomada como missão. É um retrato curioso de uma mulher excluída do lugar de esposa por apresentar uma excentricidade de comportamento incompatível ao conceito de normalidade do marido. Com a saída dele, é notória a entrega da personagem à posição materna. Este filme de King Vidor fomenta uma discussão sobre a feminilidade baseada na concepção freudiana de que a maternagem seria uma possível saída para a mesma, de modo que ao tornar-se mãe, uma mulher encontraria uma via de acesso à feminilidade. O filho não somente ocupa a função de objeto da falta, como é capaz de temporariamente ser resposta ao inquérito do que é ser uma mulher. Logo, a ascensão da personagem à posição de mãe pode ser pensada não apenas como um enaltecimento da criança, mas como uma via de saída para encontrar-se enquanto mulher nesta posição possível.   

Uma filha objeto de desejo também é tema principal do filme “Belíssima” (1951) de Luchino Visconti. Do mesmo modo que no anterior, o pai é uma figura sem destaque na trama. A criança é eleita para brilhar, de modo que a mãe, em esforços frenéticos, faz tudo a seu alcance para que a filha seja admitida como estrela mirim de cinema. Vale destacar que é proveniente do discurso da mãe a crença de que a filha é suficientemente talentosa para tornar-se atriz. A criança, na trama, existe tão somente como extensão deste desejo, como aquela que é convocada a responder do lugar de falta materno. Em outras palavras, a mãe em questão revive na relação com a filha o desejo de ser ela mesma reconhecida enquanto talentosa. Ademais, eis aqui a oportunidade de questionar se somente um filho menino pode ter a função de falo para uma mãe, dado que a filha em questão é eleita como troféu, reconhecida exclusivamente pela mãe como portadora de um dom para o sucesso. 

Fotografia do filme "Sonata de Outono" (1978)

Opostamente ao super investimento na filha, há o lugar da filha dejeto tão bem representado em “Sonata de Outono” (1978). Este é o drama bergmaniano do retorno da mãe pródiga, cujo auto-investimento no decorrer da vida se sobrepôs ao interesse em “ser mãe”. Há um reencontro entre ambas marcado pelo o que pode ser chamado de um reacender de antigos conflitos emocionais, nunca perdidos, apenas mantidos sob a condição de desligamento. A expressão do talento da mãe enquanto pianista evoca o lugar de igualdade que a filha foi chamada a ocupar. Não sendo, contudo capaz de atingi-lo e ao mesmo tempo torturada pela demanda materna, é possível que a filha tenha se tornado uma quase resposta a este desejo. Em outras palavras, o reencontro físico entre elas pode metaforicamente representar o reaparecimento da criança emocionalmente vulnerável bem como disposta a atingir à condição de excelência anunciada no desejo da mãe. O elevado eu-ideal materno imposto não poderia resultar senão em frustração. 

Conclui-se assim que “mães do cinema” é um termo inadequado, dado que elas trazem à tona seres reais. Nada é mais comum à experiência cotidiana do que a realidade de crianças que são convocadas a responder do lugar de falta materno, podendo ser super investidas emocionalmente ou até mesmo tomadas como dejetos. É certo que o encontro entre mães e filhos promove a emergência de sentimentos até então esquecidos. Os afetos provenientes destas mais antigas relações foram desde sempre apreciáveis à leitura analítica, que indagou as motivações em torno do “ser mãe” ao longo da história. Em adição a estes afetos espinhosos quando não dolorosos, é certo que a relação com as mães é produtora de um impulso à vida, que implica na descoberta de que não se é tudo ao desejo materno. É somente com a aceitação deste “não se é” que se pode vir a ser alguma coisa que se sobreponha a arquitetura de desejo de outrem

Felicidades,
Renato Oliveira

15.9.15

a mulher do futuro

Quando Freud se propôs a analisar as condições de vida do sujeito em articulação com a sociedade daquela época, sentido de vida foi um tema que não lhe escapou. O conceito é abstrato, realmente, e mais apropriado ao domínio de estudos em Filosofia do que em quaisquer outros. Sendo assim, para dar uma tonalidade mais alegre à circunstância, não falaremos de sentido, e sim de ambição. Esta é uma palavra forte e parece ter um contorno mais definido. É notório também que este novo termo é mais adequado e, assim sendo, suficiente para introduzir um texto sobre um filme cujo humor é sua matéria-prima. Working Girl (1988), que se não fossem as razões comerciais, teria sido conhecido por “A trabalhadora”. 

Por que não reconhecer, desde então, que há temas que a indústria hollywoodiana sabe abordar como nenhuma outra? Não se trata de superestimação, o fato é que filmes produzidos em determinados países podem muito bem refletir características proeminentes daquela cultura. Na presente ocasião, é por um lugar na big apple (cidade grande) que será abordado, de maneira que a ambição será pensada a partir do desejo por um lugar nos negócios.

Primeiramente, eu gostaria de ressaltar que este filme dirigido por Mike Nichols permite certas possibilidades distintas de interpretação, vai do karma de cada um. Há desde aqueles que o reconhecerão como profícuo a automotivação aos que podem concebê-lo como nada muito além de um entretenimento oitentista. Não há aspiração a ser cult e a subestimação é um problema crônico em certos redutos. Há os que podem percebê-lo também como uma “briga de mulheres”, e antes que a coisa pareça o elefante que cada ser vê de um jeito, é melhor que eu me detenha a expor as ideias que me parecem caras.


É praticamente inevitável que este ensaio se destine a tornar-se uma análise psicológica de Tess McGill | Melanie Griffth |. Ora, é a história de uma secretária que assumiu o lugar da chefa. A introdução do filme revela uma cidadã de 30 anos inclinada às questões corporativas, disposta ao jogo por uma promoção na empresa. É perceptível tanto a sua intenção quanto os infortúnios que lhe ocorrem. Empreguei o termo sentido de vida que, no início do filme pode ser pensado a partir do descontentamento da protagonista com as condições de sua existência. Três razões me fazem pensar que Tess sentia-se objetificada: 1. No trabalho, foi desclassificada em um concurso para um cargo superior; 2. O namorado lhe dá de presente uma “lingerie-fetichista”, de maneira que ela diz que seria interessante ganhar um presente que pudesse usar na rua; 3. Um encontro de negócios com um tarado.  

Os planos externos, bem como aqueles filmados dentro do ambiente corporativo apresentam um considerável número de pessoas habitando um mesmo espaço, o que transmite aquele desgosto claustrofóbico pautado na noção de que não cabe mais gente no mundo. Esse sentimento tem a sua relevância, uma vez que se tratando das questões de trabalho é justamente a concorrência um dos principais conceitos que nos são transmitidos desde a educação escolar. Nesse cenário de superpopulação oitentista é que emerge o interesse da jovem em querer se destacar. 


Ao ser designada a um novo departamento dentro da mesma empresa, ela tornou-se secretária de Katharine Parker | Sigourney Weaver |. Sua mensagem de boas vindas revelou que ambas tinham a mesma idade. A personalidade da chefa é a de uma pessoa mimada, que se compraz em ser correspondida em seus interesses e caprichos. É dada certa ênfase a estas características ao longo do filme. No entanto, nem é preciso que assim o fosse para retratar uma noção conhecida por todos: a de que a posição de poder, por sua vez, não é altruísta. Assim, a tendência, com base em dados normativos, é a de que uma pessoa tende a gozar nessa situação utilizando-se dos que se encontram em posição hierárquica inferior. É o uso de poder que esta em jogo, e esse conceito é ilustrado a partir das atividades adversas exercidas por Tess além daquelas comuns ao papel de secretária. De calçar patins em Katharine a servir aperitivos em eventos.

Eu empreguei um verbo que acredito ser elucidativo: usar. Nas relações de trabalho, há tanto o entendimento de ser uma mão de obra usável quanto a fazer um uso do lugar que lhe é destinado em uma empresa. Tess dá indícios de ter ciência da posição que ocupava, mas pelo interesse de crescimento profissional, e, acima de tudo, ambição e intrepidez, ela passou a fazer um uso diferenciado deste lugar. Que uso foi este senão a miragem de transposição? É uma imagem simples de ser explicada. Ela reconheceu que K. Parker tinha as condições de vida sonhadas, um eu ideal que representava o lugar que ela, enquanto secretária, sonhava alcançar. Esse vislumbre poderia resultar em uma aliança entre ambas, de modo que a big boss seria concebida como a ponte para a ascensão. O “acordo verbal” de início foi este – “via de duas mãos, lembre-se”


A experiência, contudo, mostra que não se deve contar com pessoas indiferentes ao teu crescimento, seja ele profissional, pessoal ou whatever. Ademais, é desafiador manter-se focado em fazer uso de uma oportunidade para promoção num contexto em que pessoas influentes o subestimam. Ainda que esse não seja o principal tema em questão, deve ser mencionado, uma vez que Tess dava provas de interesse na busca por informação, isto é, ambição por reunir conhecimentos imprescindíveis a quem almeja cargo de gerência. Tess, a heroína, revela: “leio muitas coisas, nunca se sabe de onde virão as grandes ideias”

Esse contato com a velocidade da informação fez com que Tess se interasse sobre um projeto que não ouso explicar e propusesse a K. Parker um negócio que poderia ser exitoso. Ela compartilhou sua grande ideia com a “poderosa da firma”. Sabem aquela noção de direitos autorais? Isso esta em pauta, uma vez que Tess descobriu que sua ideia fora levada adiante pela chefa, que ousou contatar um dos empresários envolvidos, fazendo-se passar pela criadora da proposta. Ao tomar conhecimento disso, durante um período de ausência de K. Parker após fraturar o pé, a decisão de Tess não foi outra senão reagir. O plano seria assumir a autoria do projeto, ainda que tendo que ocupar-se temporariamente do lugar de K. Parker.


Sem a devida atenção aos detalhes do filme, alguns podem ter compreendido que ela se passou pela chefa. Ainda que tenha utilizado suas roupas e ocupado sua poltrona, não concordo. Tess não fez uso do significante “K. Parker”, na realidade, ela se identificou com a posição de poder que esta se encontrava. Soube como copiar seu modo de falar e principalmente suas condutas em um universo propriamente masculino. Suas principais motivações eram o desejo por ascensão somado ao despeito devido à usurpação de sua ideia. Ademais, ao fazer semblante de “mulher de negócios”, ela nada mais fez senão seguir um conselho da própria superior: “Tess, não se chega a lugar algum no mundo esperando que as coisas venham até você. Você faz acontecer. Observe Tess. Aprenda comigo”

É certo que existe na própria trama do filme um sentimento de inconformismo, que favorece o aprendizado por identificação. Isso, em vocabulário analítico, não é nada mais senão a introjeção do objeto no ego e uma fusão de ambos. A esse respeito, pode-se equiparar diretora e secretária sem que pareça que ambas sejam pessoas distintas. O filme, assistido a partir da ótica de Tess traz a impressão de sua fantasia, na qual a distância hierárquica que as separavam não era uma transposição de difícil alcance. Talvez o otimismo dos filmes daquela época nos ajude a vislumbrar o impossível com maior facilidade. Ainda assim, há uma imagem que metaforiza a distância entre as duas, trazendo realismo. Na casa de K. Parker havia quatro quadros de pop art com o seu retrato que reunidos davam a impressão de ser apenas um quadro. Tess o observava, de maneira a formar o entendimento de que quanto ao poder na empresa, a chefa era quatro vezes maior.



Para levar a “grande ideia” adiante, Tess precisaria convencer o empresário Jack Trainer | Harrison Ford | a aderir à causa.  Há um flerte entre eles numa festa antes mesmo de uma primeira reunião de negócios. Um comentário dele deve ser destacado: “você é a primeira mulher aqui que se veste como mulher, não como uma mulher pensaria que um homem se vestiria se fosse mulher”. A riqueza dessa observação é de uma grandeza tal que poderia tornar-se um livro. Detenho-me, contudo, ao que é mais peculiar ao contexto. 

A essência do filme é a busca por um lugar no mundo corporativo. Tess buscava uma ascensão e para tanto precisava ser notada. Mesmo sendo um local em que outras mulheres também disputavam por espaço, ainda assim, trata-se de um ambiente em sua maior parte masculino. É comum o reconhecimento de que naquela década, o "mundo dos negócios" era um lugar em que homens ocupavam as maiores posições, e algumas mulheres, tinham locais de destaque enquanto exceções. Era limitado o número de mulheres que conseguiam se equiparar aos homens. Estava travado, portanto, um embate de gênero. Tess McGill almejava um diferencial. Enquanto possíveis outras funcionárias batalhavam por "masculinizar-se", ou seja, fazerem-se fálicas como uma tentativa de ganho de respeito nesse lugar, ela decidiu tomar como referência K. Parker e fazer-se mulher, mais ainda. Para tanto, utilizou-se de ornamentos que realçassem a feminilidade, de modo que ela fora notada por Jack justamente por isso. 


Este filme é uma das melhores alusões já feitas à indagação primordial de Freud quanto ao que deseja uma mulher, pois insere este questionamento em um contexto, e assume a missão de, se não respondê-lo, ao mínimo oferecer material para discussão. Pode-se assim pensar quanto ao que deseja uma mulher nas questões de trabalho, e de que maneira ambicionar é um modo de manter o desejo circulante. Além disso, suscitar um debate quanto ao mistério em torno de recursos que uma mulher possui para fazer-se mulher num contexto em que homens estão identificados entre eles. A noção de identificação fálica pode ser pensada como uma reunião de homens, em sua maior parte, que estão conectados a um objetivo comum e que admitem a inclusão de outros homens para este mesmo intento. Isso pressupõe certa massificação, que é fácil de ser visualizada a partir da forma como homens estão vestidos em um mesmo ambiente corporativo. Para incluir-se neste, é dedutível que uma mulher busque tornar-se homem, no sentido de estar identificada com a posição masculina, ou que, de outro modo, para alcançar uma posição de destaque, ela faça-se mulher a partir de um referencial feminino, que não, evidentemente, a questão do falo, que é o óbvio, o já posto. Agora, em que consiste esse referencial feminino é uma das maiores questões analíticas cuja resposta escapa.

Para tornar essa noção estranha ainda mais emblemática, destaco que tenho a opinião de que Tess estava identificada com o falo em uma posição feminina. Assimilar o filme como a "história de uma impostora" é insuficiente, mas o termo me agrada. O verbo impostar significa emitir corretamente a voz. A direção tomada por Tess foi esta, não só ao imitar a dicção de K. Parker, mas em todo o decorrer de sua identificação com ela – “tenho cabeça para negócios e corpo para o pecado”. Mas, para atingir seu objetivo durante a ausência da chefa, ela precisou fazer-se mulher e ser reconhecida como homem por outros homens, ou seja, como ligada ao poder. Só assim para ser admitida no “grupinho de engravatados” cujo falo era a única orientação possível. "Fazer-se mulher" contempla um processo de criação, cuja noção deve ser pensada a partir da descoberta da própria feminilidade. No caso de Tess, uma "feminilidade corporativa".


Deve-se notar, contudo, que ela não assumiu a posição de K. Parker unicamente por suas pretensões; foi preciso que outro a colocasse nesse lugar. Somente ao ser reconhecida por Jack como uma "mulher de negócios" foi que ela realizou uma troca de lugares: Cyn | Joan Cusack |, a amiga, fora colocada como sua secretária para que ela assumisse oficialmente a poltrona de K. Parker. É de um autorizar-se por si mesmo que se trata.

A amiga, embora irreverente, buscava representar o "princípio da realidade", o que somente aumentou a convicção de Tess quanto a seu desejo por ascensão. A real pessoa que exerceu a função de lhe dar "choque de realidade" fora a própria chefa ao anunciar o seu retorno previsto. 


A temática “brincar com o perigo” foi a ocasião propícia para alusão a questões da feminilidade comuns a teoria analítica. As características emocionais de Tess – diligência, ineditismo, iniciativa, criatividade, entre outras – quando pensadas a partir do título do filme traduzido no Brasil, “A secretária do futuro” parece ter um tom premonitório. Talvez fosse suposto que vinte anos depois seria maior o número de mulheres em posições de destaque em empresas, ou tão somente alguém imaginou que, no futuro, o fazer-se mulher seria um dos mais modernos assuntos de causa analítica, cuja não resposta aparente gera em nós um descontentamento, similar ao de Tess, possivelmente. 

Renato Oliveira

15.7.15

filmar e punir

Acho fascinante a experiência de rever filmes vistos a long time ago e ter a sensação de nunca tê-los visto. ~~Coisas do subconsciente~~ alguém poderia dizer. É ao som de hardcore que se inicia Ken Park (2002) e se por acaso parece que será uma comédia teenager-pastelão, essa impressão subitamente se esvai quando um jovem, junto aos skatistas retira uma filmadora da mochila e uma arma. Em seguida se mata – "o nome dele era Ken Park".


Filmes alternativos: uma iniciativa nobre e profícua para mostrar aquilo que a censura não deixa. Longe de ser um conhecedor do gênero, sei, contudo que grandes são os desafios daqueles que desejam realizar obras cinematográficas sem para tanto terem considerável apoio financeiro e marketing. “Cavar lugar” é o tipo de missão que alguns assumem a responsabilidade de aceitá-la. A minha opinião é de que os cidadãos Larry Clark e Edward Lachman fizeram um significativo buraco e hastearam uma bandeira ao realizar esse filme. É certo que a metáfora não é das melhores, mas é uma forma de expor minha acepção de que o resultado ficou fantástico e digno de apreciação! Vida longa, portanto aos amigos que ousaram enfrentar a censura ao realizar filmes, cada um à sua época. 

Sobre o filme a ser comentado, fico a imaginar como foi a determinados círculos sociais recebê-lo há 13 anos. Não há necessidade de fazer mistério acerca de seu conteúdo: é um filme com cenas de nudez e sexo, tão apenas. Ao pensar na dicotomia entre revelar e ocultar, é certo que, em vocabulário simples, uma das principais descobertas de causa analítica é a de que o homem, por razões de seu conforto mental, esconde coisas de si próprio. Assim, o roteiro é pautado, primordialmente, na exibição de sentimentos ocultos no âmbito doméstico trazidos a tona.


Após a cena de suicídio, são apresentados os quatro protagonistas em questão, todos adolescentes e imersos em circunstâncias familiares perturbadoras. Acerca de detalhes do cotidiano desses falantes, me detenho a relatar apenas o estritamente necessário ao que pretendo comentar em seguida. 1. Shawn | James Bullard | >> submetia o irmão mais novo à prova de amor numa quase exibição de bondage – “diga que sou seu mestre e você me ama”. Fazia sexo com a jovem e sensual sogra. 2. Claude | Stephen Jasso | >> vivia com uma mãe grávida e um pai hábil no supino (levantamento de peso). 3. Peaches | Tiffany Limos | >> órfã de mãe, morava com um pai religioso para o qual a falecida ainda estava muito vivamente presente na vida deles. 4. Tate | James Ransone | >> vivia com avós e não denotava ter afeição por eles. No jogo de palavras, formou “whiplash” (som do chicote).

Ainda com este intuito de síntese, quero responder a pergunta quanto ao que ocorrerá no decorrer da história sem que, para tanto, o final do filme seja revelado. A resposta chega a ser blasé: a vida deles será mostrada em articulação com suas particulares relações com o sexo, o corpo e a agressividade. Podem-se destacar alguns elementos que se repetem, úteis para se elencar similaridades entre os principais envolvidos.

Shawn, Tate e Peaches submetiam alguém a soft bondage (dominação leve), os meninos utilizavam o irmão mais novo e um cachorro, e ela, amarrou às grades de sua cama um “colega de igreja”. O tom de ameaça que Tate falava com o animal era similar ao empregado pelo pai de Claude, que também se envolvera em prática agressiva, só que demasiadamente hostil, ao insistir para que o filho levantasse um pesado halter e ao agredi-lo após quebrar seu skate.


Nota-se que Peaches, assim como Claude, estavam colocados em um ideal de eu pelos pais. No primeiro caso, o viúvo a exortava quanto ao cumprimento do dever religioso, de modo que a filha era associada à “imagem virginal” da mãe. Claude era não correspondente ao lugar de idealização, seu pai o desmerecia, o rebaixava a condição de ser fraco, desde o momento em que o acusava de não ter músculos. Essas acepções se reforçam, em conversa com a esposa, ao referir-se a ele como “a menina da mãe”. Não é somente o retrato de um pai tirânico, é primordialmente a apresentação de uma hostilização gratuita, sem causa. A intensidade desse sentimento é similar a “cegueira religiosa” do pai de Peaches.

São muitos nomes mencionados ao mesmo tempo, contudo, creio que com estes poucos exemplos é possível àqueles que não viram o filme assimilar que a atmosfera produzida não é doce. Trata-se de jovens diariamente convocados a dar provas de força, a corresponder a ideais estabelecidos e a lidar com uma censura socialmente imposta. Os diretores tiveram uma iniciativa parecida com a de Freud, no início de seu trabalho: falar sobre relações perturbadoras em seu caráter de normalidade. Ora, as situações retratadas podem parecer, numa percepção superficial, como a descrição do “mundo caótico” de adolescentes, do desafio de “crescer com dores” e adaptar-se ao mundo ET AL. No entanto, não compartilho dessa opinião. Os protagonistas não são meramente vítimas, e sim falantes em uma sociedade marcada pela censura e pelos ideais compartilhados.


O clássico comentário de Freud – “somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro” – é uma ótima ilustração. Ele anuncia que se espera do sujeito força para enfrentar o teste de realidade, noção difícil de conceituar, mas que se refere ao poder de suportabilidade social. Vejam os termos isoladamente: ferro, força, poder e suportabilidade. Todos aludem à noção fálica. Claro que há pênis no filme, mas não é de órgão sexual nem mesmo de sexo que se trata, mas da censura dos sujeitos um sobre os outros. Aqui o ato de censurar não esta relacionado à imposição de limites em medidas educativas, mas sim a iniciativa em tolher a liberdade do indivíduo, à suposição de que as pessoas não são capazes de escolherem por elas mesmas e sobretudo ao sadismo de impor-se como o mais forte. Quem assume este papel? Não são os nomes que serão citados, mas sim os lugares em que esse tipo de controle é exercido: famílias, empresas, escolas e mídia.

A experiência inicial de Freud com a psicanálise revelou a censura como um elemento das relações sociais, uma noção que ele tão brilhantemente articulou com a moral sexual civilizada. Claro que é inviável tecer correlações pormenorizadas da sociedade daquela época com a nossa realidade tupiniquim, contudo, a principal comparação que ouso comentar é referente ao desprendimento dele e a produção do filme: ambos retratam a posição do sujeito frente ao proibido. 

A teoria das pulsões, desde quando se falava em pulsões de autoconservação, foi um conceito enriquecido pelo que se pode apreender do sujeito em sua relação com os fenômenos de amor, agressão e sexualidade. Em linguagem comum, “pra que a coisa fique bem, é bom que as pulsões andem juntas”, ou seja, fundidas. Uma espécie de encontro da tendência à destruição com as vivências no campo do amor, da construção, do elo social. O filme, todavia é um verdadeiro retrato da desfusão das pulsões.


A relação sexual de Shawn com a sogra seguida pela briga de Claude e seu pai ilustra essa acepção acima. Tem-se um jovem em playground no corpo do outro em investimentos de prazer, na primeira cena, e uma intencionalidade em destruir, na segunda. A problemática de quando uma pulsão se manifesta sozinha se dá pela tendência ao aniquilamento do objeto.

A crueldade da tratativa do pai de Claude, difícil de ser detalhada, desperta, ainda assim, uma indagação: com base em que? Qual a razão da hostilidade? É necessário haver motivo ou determinadas relações familiares são propriamente hostis por sua configuração? Tenho uma hipótese: a hostilidade pode ocultar um desejo de incorporação. É uma atualização daquele princípio adolescente-escolar em que dois jovens que se detestam, podem vir a se casar. A conduta hostil é uma defesa para não admitir um sentimento tido como repulsivo. O objeto é atacado numa espécie de tentativa de provar a si próprio o quanto ele é detestável. Sem querer fazer “psicanálise de portão”, saiba que se um dado número de pessoas te detesta, considere que você possa ser objeto do desejo de grande parte delas. A dica é: não responda desse lugar e não siga conselhos.


As atividades sexuais e as drogas, mostrados com naturalidade, exatamente como deve ser, nesse contexto aludem à noção de que os infortúnios da vida cotidiana precisam ser compensados. E como Freud mencionou, a compensação deve ocorrer com medidas paliativas que possam equivaler à frustração experimentada. Os recursos para a suportabilidade são descobertas resultantes da busca por prazeres que amenizem as vivências ruins. Isso não significa, de forma alguma, que o sexo seja paliativo, mas ajuda-nos a pensar na alienação de práticas compulsivas. 

Ken Park pode até ser um filme para adolescentes, mas não somente. A certeza é de que não é um filme de adolescentes, uma vez que sua essência não é retratar um universo jovem, mas sim fomentar uma discussão em torno da censura. A exibição de cenas de órgãos genitais geralmente proibidas pela indústria cinematográfica é tema de discussão justamente ao se fazer o que não pode.


A propósito, Claude comenta sobre uma sociedade em que os envolvidos transam até 16 vezes ao dia – “é tipo uma sociedade perfeita, nunca ninguém briga, se dão todos bem”. Por fim, ele questiona se esta seria ou não uma sociedade utópica. Ainda sobre os fenômenos da sexualidade, não penso que o problema esteja na existência da lei, mas sim o enjaulamento do sujeito baseado em regras que estão além do "não pode", pois contemplam o estabelecimento de modelos e formas aceitáveis. Ademais, é assustador a rigidez disso, a alienação na forma como normas de comportamento e padrões de beleza são aceitos. Em síntese, toda uma educação moral civilizatória cujo enquadre do sexo deixa pessoas de fora, delimita posições e reforça uma transgeracionalidade sexual opressora. Vive-se ainda tempos de "doenças de sexo", cuja origem é um sepultamento, uma rigidez moral que bloqueia o diálogo e o conhecimento do corpo. 

Acredito que o inverso da censura, no contexto hostil em que ela foi abordada, seja a liberdade do sujeito com responsabilização. É nessa direção que o filme culmina, quando ousa mostrar-nos possíveis cidadãos livres, cuja ilustração somente pode ser possível se iniciada com uma liberdade em relação ao conhecimento do próprio corpo. Foi, portanto sobre certas “coisas ocultas” trazidas à luz em filme que se abordou aqui, às quais, uma vez consciente, aumentam o valor de veracidade da experiência de encontro.

Com afeto,
Renato Oliveira

11.4.15

luz nas trevas

Gostaria de ter patrocínio para promover a feira das perguntas sem respostas. Nem teria que me preocupar com a mobília porque nada seria colocado em exposição. É certo que alguns concordariam que há, de fato, “perguntas sem recipientes”, às quais só o destino sabe solucioná-las. No entanto, não nos contentando com os poderes miraculosos, inventamos um caminho para chegar a alusões possíveis para aquilo que surge na vida da gente como impossível de ser respondido. Se não fosse este “tesão de inquérito” e autêntico desejo de saber fico a me perguntar se o cinema não teria virado latim. Claro que os interesses comerciais seriam outro ponto a se discutir, mas isso não é compatível aqui. Do que se trata senão de filmes escritos com base na pergunta: O QUE É ISSO? A despeito do passar do tempo, esse questionamento não se finda, porque importa-nos dar algum sentido para o isso que aparece na tela.


Creio não ser “viagem” da minha parte, ainda que com o risco de apedrejamento por queda à banalidade, afirmar que a psicanálise nasceu quando Freud ousou se questionar a respeito do “isso” que estava ali à mostra por meio do sintoma. Mesmo após alguns anos de estudo, isso não se ocultou, pelo contrário, continuava acessível à observação nas outras manifestações do inconsciente, conforme vocês sabem porque estudaram o assunto. É curioso, entretanto, recorrer à ilustração para mostrar que ao “isso” que fora nomeado por Freud de “id”, tem-se uma imagem menos cavernosa do que o necessário. Quem tem a intrepidez de dizer “quero conhecer o isso que habita em mim”? O diretor Andrzej Zulawski fez um filme para mostrar o suposto “isso” de cada um, cujo nome é Possession (1981). Acho incrível pensar que comemoraremos o centenário desse trabalho um dia (não devo estar aqui) e ainda restarão questões a serem pensadas a partir de um filme com uma proposta simples, fatídica e fabulosa!

É a narrativa de um homem que amava sua mulher, a qual, por sua vez, não amava somente ele. O verbo amar é cabível nesse contexto com o sentido de quero possuir você. O que é realmente importante que vocês saibam do roteiro do filme por meio deste escrito é tão somente isso: ele suspeitava que ela tinha um amante e queria provas para confirmar este pressuposto. Para além disso, tudo o mais é horror e creio que isso não serei capaz de fazê-los sentir. Seria imponência demais da minha parte assim supor. Quero, contudo, mostrar alguns comportamentos dele a partir de seu desejo de saber e fazer as correlações psicanalíticas possíveis com o “isso” que nos é dado a ver no filme.


Disseram para Mark | Sam Neil |, o marido em questão, que sua esposa esperava que ele fizesse alguma coisa, nem que fosse mágica, pois estava colocado em cena o fato de que ela tinha alguém para além dele. Se ele não houvesse tido iniciativa para discutir a relação, não nos pareceria verossímil a problemática em pauta. “Ele quer ela, ela não quer ele”: esta é a primeira impressão que temos. Creio que talvez houvesse motivos para temer uma mulher que diz: “todo mundo pode fazer o bem e o mal... Mas, se preferir, posso fazer apenas o mal”. Somos, a princípio, testemunhas de um casal que discutia sem que tenhamos a certeza do que lhes causava tanta tensão. Supomos assim a presença de um terceiro ausente, para o qual o interesse da mulher convergia.

Na minha vida de estudante de Psicologia, dediquei-me por um tempo ao estudo da feminilidade em psicanálise, mas isso não me impede de conhecer alguma coisa de postulados teóricos sobre mente de um homem. Sobre este marido com ataque de nervos penso que a descoberta de que ela tinha outro era sentida na cabeça dele com base em pensamentos tais como os que seguem: “eu não sou tudo para ela. O que falta lhe oferecer? Alguém apareceu e lhe proporcionou algo melhor do que aquilo que eu poderia ofertar. Mas sei como tê-la de volta”. Ademais, é comum um homem querer a confirmação se um amante faz sexo melhor do que ele, por mais degradante que possa ser ouvir um “sim”. Ora, é frequente a escuta de que o homem, em circunstâncias tais, tende a colocar-se na relação como aquele supostamente capaz de tamponar qualquer falta. Uma sucinta declaração de Mark para Anna | Isabelle Adjanni | confirma isso: “não suporto vê-la assim. Será do jeito que você quiser. Estou aqui”.

A separação era uma ideia insustentável para ele. O decorrer do filme apresenta a destrutividade no gradual enlouquecimento do casal conforme Mark fazia de tudo para obter a identidade do amante. Seguindo os eventos quero ressaltar e tomar para análise alguns símbolos que foram surgindo (não na minha cabeça, mas que apareciam no filme).


Enquanto o marido, possivelmente, meditava sobre a situação conjugal sentado em uma cadeira de balanço, observamos um movimento que vai acelerando aos poucos. Não lembro o nome da lei da Física que explica isso. Sei, contudo, que parece haver um aumento gradativo de tensão. Estava demarcada uma separação entre o casal, que não era aceita por ele, e ela não conseguia desvincular plenamente o marido de sua vida, uma vez que ainda lhe oferecia justificativas verbais. O movimento da cadeira pode representar um símbolo de avanço e retrocesso sem sair do lugar. A inclinação da cadeira com o peso do corpo era tanta que parecia que ele ia cair, mas, ainda assim, se mantinha. Era como se ele estivesse prestes a desistir do confronto, seja liberando-a para o outro ou via homicídio, mas ainda assim, voltava a si e se dissuadia destas ideias.


É importante explicar que a confirmação da esposa de que havia outro não fora suficiente para frear os movimentos frenéticos de Mark. Ela não somente confirmou ter alguém, como forneceu o endereço do mesmo. Ele foi até o suposto rival, Heinrich | Henz Bennent |, e antes de acirrar um confronto entre eles, foi obrigado a ouvir: “a charada esta no infinitivo. Aceitar”. Acho curioso notar que mesmo com esta visualização do cenário, Mark não se contentou em suas investigações iniciais, como se o “isso” que ele queria saber ainda se mantivesse oculto. As discussões com Anna prosseguiam, em uma delas, inclusive, ela lhe revelou: “você não entende? Você me dá nojo! Sou uma vadia, um monstro! (...) Transo com todos e você não sabe!”. E logo confirmamos, mais uma vez, que o desconhecido nos atrai. Em busca de um saber ainda não todo relevado, Mark contratou um detetive. No escritório deste, sentado em uma cadeira, não mais de balanço, mas dessas que rodam, observa-se que ele fazia constantes movimentos circulares. No formato de um círculo, logicamente, e sem dar uma volta completa, sem fechá-la, portanto. É como perseguir uma coisa sem um ponto de chegada, o que traz a ideia de uma busca que não se finda. Uma “volta completa” seria a obtenção de um saber pleno do desejo do outro, bem como de suas intenções intrínsecas, arraigadas ao âmago do ser. Uma ilusão, evidentemente. Afinal, por mais próximo que se conviva com alguém, é inviável pensar que o nosso poder de sondagem será suficiente para desvela-lo a nu para nosso interesse.


Trata-se de um filme em que a obsessão do marido serve de ocasião para se mostrar a carne humana que detém segredos psicológicos e espirituais para além de nossa limitada compreensão. Outros símbolos estranhos aparecem. Enquanto Anna cozinhava, Mark, menos exasperado, revela seus sentimentos: “quando esta longe, vejo-a como um animal ou ser possuído. Mas quando a vejo tudo isso desaparece”. Nessa cena, vemos Anna cortar carne com uma faca elétrica para depois jogar os pedaços na máquina de moer. Isso significa algo? É o que ela estava fazendo com o marido? Seria a carne um pedaço do coração dele destruído pela indiferença dela? Sou mais tentado a pensar que a carne representava outra parte do corpo dele (o pênis, claro) sentida como flácida, picotada, fragmentada e transformada em partículas moídas uma vez que deixara de ser objeto de desejo dela, sendo renegado como um brinquedo que já deixou de ser interessante. Não é por menos que a ferida narcísica dele se revela em atos de cólera extrema.


Eles estão descontrolados. Não apenas um descontrole, mas também um desespero posto em cena. Descontrole e desespero. Cortem o “des”. Resta-nos “controle” e “espero”: ele esperava obter o controle da situação. Que Anna admitisse um amante não era o suficiente, ele queria um dito de verdade sobre o desejo dela. O desespero do marido era por não ter indícios de um controle, o que, por sua vez, o tirava de uma condição de poder para jogá-lo num círculo de perseguição à verdade plena sem nunca alcançá-la. Com um corte no pescoço de Anna feito com a faca elétrica, ele demanda que ela tão somente fale: “tudo será do jeito que quiser! Apenas fale. Não precisa dizer nada”. Ficaremos aqui até amanhã para entender o que ele realmente queria saber. “Falar, mas nada dizer”: talvez isso indique que ele não estava em condições de ouvi-la devido à angústia decorrente de suas indagações acerca do enigma que envolvia o desejo da esposa.


Foi preciso que Mark encontrasse o primeiro outro em questão, Heinrich, para por seu intermédio constatar que havia um eleito para além dos dois. Essa revelação aumentou o anseio de Mark e levou o investigador contratado a seguir Anna até um prédio, para em seguida fingir-se de síndico a fim de descobrir a identidade daquele a quem ela fora visitar. Ao entrar, ele abriu as persianas, isto é, lançou luz em ambientes escuros. Qualquer investigação nada mais é do que isso. A experiência inicial de Freud com a psicanálise também o foi. A demanda do marido era fazer Anna falar. Como não obteve êxito neste intento, sua intenção passou a ser a de iluminar um saber desconhecido supostamente real, ele queria fazer aparecer o outro que a fazia desejar. Aqui cabe uma pergunta: é verdadeiro o postulado de que há em nós um outro, não a nossa razão consciente, que nos faz desejar aquilo que a consciência repugna? Em síntese, aparecer é sempre, de algum modo, ter que lidar com o assombro.

Na busca pelo desconhecido, Anna apontou ao detetive onde estava o outro, indicando-lhe o banheiro sem janelas. Isso nos mostra que no lugar em que a revelação se detém não há janela. Assim, não dá para ver o que se passa estando do lado de fora. Só é possível ver o que esta dentro se você estiver inserido. Se usarmos essas noções como metáfora, podemos aludir à fala do sujeito como reveladora dele mesmo, do “isso”, de seus conteúdos inconscientes, desde os mais primitivos, daquilo que esta sob efeito de recalcamento e quer, assim, aparecer. O saber sobre o Inconsciente esta no sujeito, é uma linguagem que pode tornar-se manifesta. Ninguém pode revelá-lo senão o próprio dono, o único com acesso a este campo de palavras.


Logo, o que havia de tão assustador no local por ela indicado? É interessante notar que enquanto se tornava mais forte o anseio do marido em querer que a verdade desconhecida fosse toda dita, “isso” era falado no sintoma do filho. Com Freud aprendemos que alguns acometimentos físicos são manifestações do inconsciente, e com Lacan, que o sintoma da criança revela algo da ordem do sintoma dos pais. Sobre Bob | Michael Hogben |, o garotinho, nas palavras de sua professora: “ele sabe de tudo, sente tudo, é incrível. Depois do almoço temos uma hora de descanso. Bob dorme quase o tempo todo. Enquanto dorme, chora, grita. (...) Ele sofre. É sempre muito difícil acalmá-lo”. Há uma cena também em que ele acorda aos berros após um pesadelo. O que a criança anunciava, portanto, era um estado de desordem familiar que o atormentava. O sintoma dessa criança também retrata a existência de uma coisa perturbadora que após aparecer via sonho, é temporariamente afastada da consciência ao acordar "como se nada tivesse acontecido". Trata-se de um “horror” que ainda não foi nomeado aqui, mas o discurso da professora, enquanto lavava a faca elétrica usada por Anna, é revelador nesse sentido: “mulheres são perigosas. (...) Sou de um lugar onde o mal parece mais fácil de ser detectado, porque você pode notá-lo na pele. Ele se torna pessoas. Assim você sabe o perigo de ser atingido por ele”


A personificação do mal comentada por ela refere-se à noção de que pode ser de uma interioridade humana que se trate quando se fala acerca de uma maldade causadora de algum tipo de assolação. Falamos do lugar de conhecedores apenas parciais de uma mente, com a ciência de que não há um entendimento pleno de seu funcionamento. Iluminamos algumas de suas áreas, sabemos que é a linguagem que a fazer advir como Sujeito do Inconsciente e também recuamos ao se deparar com a verdade de que seus conteúdos não nos são agradáveis. Cortar-se com a faca elétrica ou com a garrafa de vinho, mostrar a carne exposta e crua: outro símbolo que retrata a apresentação do humano tal como o é, apenas uma carne com alguns conteúdos desconhecidos inacessíveis a razão. O diretor ousa querer mostrá-los e não há outro gênero senão o terror que seja mais apropriado para tanto.


Suponho que esse “outro” que Mark não podia ver e para o qual o desejo de Anna se voltava, pode ser concebido como o autor da perturbação que também a assolava. No momento em que se dirige a uma igreja após um estado de perturbação e fixa seus olhos na estátua de Jesus Cristo – símbolo de pureza, de mortificação do desejo na carne, de renúncia e santificação – parece que ela esta tentando ver a si própria nesta imagem. Como se assim fosse possível usá-la como um espelho para santificar-se após a descoberta do que havia de demoníaco e aterrorizador em si própria. Esses conteúdos internos também podem ser concebidos como 'sujos', uma vez que a moralidade do sujeito atribui esse caráter àquilo que foi afastado da consciência via recalque. Jesus Cristo aparece como o símbolo do ideal do eu impossível de ser alcançado senão com a morte, uma vez que em vida a relação do homem com o “desejo-sujeira” é inevitável. Sobre o impasse em seu relacionamento com o olhar do sagrado, ela anuncia: “o que perdi lá foi a irmã fé. O que me restou foi a irmã acaso. Eu teria que ter cuidado da minha fé, preservá-la”


Isso tudo o que foi dito até aqui, claro que não é “tudo” coisa alguma. É apenas uma parcialidade interpretativa de “um mal” oculto em uma história sob a pele de um suposto amante, do qual só a esposa era suposta saber alguma coisa, e que causava no casal um aterrorizante sentimento de assolação. Com vistas a não revelar um spoiler aos que não viram o filme, limitei-me à sentença de que o desconhecido era o amante e o amante era o isso. A valentia de ver tanto a carne crua até então escondida quanto à interioridade deste “outro” perseguido é similar à coragem do analisante quando se põe a falar daquilo que o faz sofrer. Ele sabe que sua pele será aos poucos rasgada e que o processo somente ocorrerá com o enfrentamento da dor consequente desse jogo de palavras. A esperança ao iluminar esses locais da mente é que o caminho a ser trilhado não será em círculos.

Beijos de luz,

Renato Oliveira

20.12.13

um toque de hilaridade

As pessoas dizem que o casamento é uma instituição sagrada. E o sentido de estarmos aqui para nada mais é senão questionar as opiniões públicas pautadas em noções comuns. Sim, a presente ocasião é oportuna para a abordagem de sentimentos, aqueles terrificantes, somente. Estamos em família no filme Cousins (1989), pois o diretor Joel Schumacher faz um retorno a esse núcleo central que parece uma cartola de surpresas agridoces sempre quando seus membros escolhem o caminho da “falação”. 


Sabem aquelas reuniões em que as pessoas, depois de tempos sem se verem, colocam os updates em dia e sempre geram polêmicas desnecessárias, questionamentos adversos de quem casou e não casou e a piada do “pavê ou pacumê?!” Sim, o contexto era basicamente este. Embora seja desanimador esse retrato prévio, certamente se produziu um filme muito significativo para abordar os sentimentos consequentes da decisão de se unir a alguém. Ora, nossos quatro estimáveis sujeitos de pesquisa de hoje elaboravam exatamente este afeto, e como saber o que é estar em união senão a partir do medo de perder o objeto?


Os casais Larry | Ted Danson | e Tish | Sean Young | bem como Tom | William Petersen | e Maria | Isabella Rossellini | compareceram ao casamento de um tio idoso e hilário. O programa, como de costume, foi uma cerimônia religiosa seguida de festa. As pessoas estavam eufóricas, tanto que ao observar a cena você se pergunta (suponho) acerca da razão de um casamento evocar tanta adrenalina em um público! Será que estavam, na realidade, felizes pelo casal, ou por poderem usufruir da ocasião para satisfazerem seus próprios interesses egoicos, especialmente os de natureza oral? Pensem que o casamento enquanto celebração é, na maior parte das vezes, dividido em cerimônia e festa, a primeira associada ao religioso e, portanto, a diferentes figuras do sagrado, e o segundo pode ser diretamente relativo ao profano.


Ora, a este respeito, justifico-me: primeiro abençoa-se o ato matrimonial e se decreta que “somente a morte poderá separá-los”. Geralmente não se fala sobre ciúme, traição e perda da libido neste momento. Agora, durante a festa são suscitadas tanto as paixões quanto os prazeres propriamente carnais, inclusive, a voracidade. Existe coisa mais avassaladora do que a emergência destes dois elementos? São datas em que se fala muito e come-se em demasia e já não parece mais oportuno às pessoas ouvir um discurso de mais de cinco minutos.


Larry tentou falar em público e teve dificuldade em obter a atenção dos presentes. Ele queria falar de afetos, quando na verdade na festa havia espaço para o tesão e a fome, tão somente. Pois bem, reuniram-se, portanto, parentes, conhecidos e semiconhecidos, pessoas insuportáveis: 100, 50 e 75 por cento, respectivamente. E no meio da festa, após trocas de olhares, Tom e Tish afastaram-se dos demais, “sumiram” da visão dos convidados. Depois deste panorama nada otimista sobre as relações familiares em casamentos, é evidente que você já entendeu a sucessão dos fatos. Eles se conheceram neste dia, transaram, e em seguida retornaram às suas posições familiares. Porém devo acrescentar que mais inesperado que isso foi o encontro dos que não foram: Larry e Maria, que começaram a compartilhar doses do que eram eles mesmos enquanto aguardavam os cônjuges. 


“Você confia em mim?” + presentes nos dias seguintes = perfeita fórmula do “traidor”. Essa palavra tem mesmo uma denotação pesada, mas o fato é que com Tom podemos apreender o protótipo do comportamento de um homem que trai. Conversas frequentes e atípicas sobre fidelidade e entregar presentes inesperados a esposa são quase que uma assinatura do laudo do crime. Sem contar, que todos sabemos, via as evidências, de que homens tem menos talento para disfarçar delitos do que mulheres. Mas você não precisa concordar com as estatísticas. Sim, Tom traiu a esposa e o conceito de fidelidade emerge no filme a partir do oposto, a noção do que é não ser fiel. Esta concepção é reafirmada na cena em que ele vai atrás de outras mulheres com quem se relacionava sexualmente a fim de demarcar um fim de relação, porque sim, ele intentava continuar sendo infiel, mas apenas com Tish enquanto objeto.

Esta declaração expressa nos atos de Tom tem uma estereotipia antiga, óbvia e neurótica. Pode-se presumir desde então a existência de culpa inconsciente em Tom, de modo que ao dar presentes e aproximar-se dos filhos ele buscava reparar um dano consciente feito a um objeto, no caso, a esposa. Mesmo não tendo a confirmação se Maria sabia do fato, a solução inicialmente encontrada foi essa. Um adendo: Tish, de outro modo, era muito mais sutil, e sua conduta revelava possivelmente maior oxigenação encefálica. Ela perguntou a Larry: “você mataria um dragão por mim?” Ele respondeu: “um dragão bebê”. Talvez ela quisesse saber as extensões desse suposto amor e as dimensões do território atual em que encontrava seu casamento. 


Vamos agora para o outro casal. Qual era a dúvida de Maria? A fidelidade de seu esposo. Claro que ela suspeitou, e essa incógnita a fez procurar Larry para lançar luz nessas alamedas da mente. A emotividade feminina e masculina diante de uma questão delicada é brilhantemente expressa na cena em que ela, numa feira, não conseguia formular a pergunta, pois isso era seguido de ansiedade e angústia. Ela precisou dar algum indício da questão que desejava saber para que Larry a verbalizasse: “Se acho que o seu marido e minha mulher dormiram juntos? Eu não sei. Só eles sabem”. Ela menciona que ele parecia não estar preocupado e ele argumenta ao dizer que “sexo não é grande coisa”. Após a afirmação de Maria de que algo aconteceu, Larry se expressa nos seguintes dizeres: “Eu acredito na liberdade de escolha de cada um. Tish precisa crescer para ser sua própria pessoa. O que os outros fazem é problema deles. Você está livre para escolher. Isso é ótimo! Mal nos conhecemos e já estamos nos desentendendo”.

Enquanto ela elabora sua dúvida mediante uma posição cautelosa, porém ativa de investigação, ele apoia-se muito mais na riqueza do diálogo e no tom inconclusivo de seu próprio saber. Esse contexto fomenta uma questão que não pode ser deixada de lado: a fidelidade está ou não associada com a noção de posse de objeto? Imagine se em casamentos, o sacerdote dissesse: “toma, isso é seu e isso é dela. Um é do outro. Façam o que acharem melhor disso, mas não se destruam!”. 


Não encontramos na literatura psicanalítica clássica discussões aprofundadas sobre fidelidade no matrimônio, mas se aborda, com grande maestria, sobre amor, culpa e ciúme. As atitudes reparatórias de Tom pautavam-se em um embate de forças do superego com o ego, gerando culpa inconsciente ou pré-consciente. Muitas vezes é temível entrar em contato com a ansiedade decorrente da constatação de que um objeto foi destruído porque se usou contra ele tendências destrutivas ou sádicas. Olha, essa palavra não poderia ser colocada em local melhor, porque o cenário que foi formado e sobre o qual farei meus comentários baseia-se exatamente nisso: um jogo sádico de casais – Larry e Maria – que juntaram suas incertezas para brincar com a imaginação de seus amantes.

Tudo começou após a morte do tio recém-casado, a qual alude ao tema central do filme, a saber, a presença da morte da confiança após uma suposta traição. A brincadeira não consistia em “jogar com a mesma moeda”, mas sim em fazer uso de um recurso primitivo, porém causador de efeitos: o ciúme. Inicialmente, enquanto passeavam, viram chapéus a venda e Maria interessou-se por eles. Observe o intento dos dois: – “Aquele chapéu ficaria lindo em você!” – “Tom odeia que eu use chapéus”“Então vou comprá-lo para você!”“Não! (...) Mas a cara que o Tom faria... O que a sua esposa odeia que você use?”“Cuecas samba canção, ela não acha sensual”. Sim, eles compraram ambos objetos e souberam como usá-los para atrair a atenção dos cônjuges.


Devo esclarecer que eles não se comportavam de maneira infantil, pelo contrário: com diálogos, empatia e amizade, eles foram capazes de suscitar em Tom e Tish uma incógnita acerca do que os fazia se darem tão bem. Aos demais, estava presente a dúvida se sexo fazia ou não parte da relação entre eles. Portanto, em um primeiro momento, o jogo de casais pautou-se na seguinte pergunta: “o que eles sabem sobre nós?”.

Nas horas em que Maria e Larry passavam juntos havia ocasião para que cada um se colocasse nesse convívio de acordo com suas próprias motivações internas. Eram períodos de declarações afetivas e poesia. Devo esclarecer que eles faziam uso moderado de acting out, ou seja, emitiam comportamentos de atuação para evocar alguma reação no outro. Os cônjuges e outros familiares ficavam intrigados com essa situação produzida. O ciúme de Tish e Tom era consequente da cumplicidade e do respeito presente no convívio de Larry e Maria enquanto elos afetivos. Não é bonito? Mas tem uma coisa mais. Não era apenas ciúme o que eles sentiam da dupla Larry e Maria, mas também inveja. Sim, inveja no ciúme. Qual a diferença?


Em linhas gerais, o ciúme ocorre em uma relação tríplice, está associado à noção de posse de um objeto. Assim, um terceiro objeto surge e é sentido como mau, como capaz de tomar para si o ser eleito e amado. Há também a elaboração de fantasias em torno desse objeto hostil. O ciúme tem início na vida mental quando os objetos são reconhecidos como seres totais – “cada um é um”, essa é a noção. A inveja, de outro modo, é muito mais primitiva, pois é sentida por objetos parciais. Observem que na fúria de Tom havia uma inveja em estado latente do pênis de Larry – não somente o órgão em si – mas aquilo que ele era suposto ter enquanto objeto de excelência e gratificador que despertou a atenção e o interesse de Maria. De modo similar, o poder de sedução feminina era o principal atributo identificado em Maria por Tish e tornou-se gerador de inveja.

É preciso ressaltar que Larry e Maria também experimentavam ansiedades enquanto jogavam. Afinal, a suposição de traição que lhes serviu como ocasião para o jogo era sentida com angústia, ainda que moderada. Eles riam da própria condição e faziam uso do lúdico, e essa possivelmente era uma ação defensiva do ego ao sentimento pré-consciente de ter sido traído. Em uma traição (não apenas as conjugais) descobre-se que o objeto estimado não é uma fonte inesgotável de amor, bondade e gratificações. Ele pode também ser mau, destrutivo e agressor. 


Com um encontro espontaneamente forjado em um restaurante, deu-se início a segunda etapa do jogo de casais – “testes de reação alheia”. Larry e Maria extraiam, com humor, uma determinada satisfação sádica ao perceberem que Tom e Tish acreditavam terem sido pagos com a mesma moeda

Culpa, ciúme e amor, para enfatizar. Era suposto haver sentimentos penosos de culpa em Tom e Tish, e foi com o intento de brincar com o jogo do ciúme que seus cônjuges criaram um cenário para a emergência de questões reais acerca do amor. É realmente difícil falar de amor como uma “substância pura”, mas como não se lembrar das palavras de Freud de que uma pessoa se sente muito segura quando sabe que é amada? Com a brincadeira de nossos protagonistas, essa segurança não somente foi abalada, mas retirada de cena, dando lugar ao ciúme e ao temor de retaliação. Ainda assim, será que existia amor nessas relações? A infidelidade é o resultado de um amor passado que não se articula mais no presente? 

Um dia uma pessoa estava na plataforma de uma estação de trem. Ela viu do outro lado o seu ser amado. Em instantes ele também a viu. Seu impulso foi correr para encontrá-lo. Apressou-se, desceu e subiu escadas, atravessou o fluxo de pessoas, até que chegou do outro lado e se deparou com o nada. Não havia ninguém ali. O ser amado havia feito o mesmo percurso que ela, e, encontrava-se, agora, na plataforma oposta a que ela estava, aguardando-a. Nesse momento ela se sentiu realmente amada.

Renato Oliveira