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18.10.15

born to be wild

Uma das concepções mais piegas já inventadas é a de que, nos relacionamentos afetivos e sexuais as pessoas precisam fazer uma escolha em papel timbrado quanto ao sexo com o qual pretendem se relacionar. Logo em seguida, dar provas de que estão muito bem resolvidos nessa decisão. O cinema, assim como outras linguagens da arte, intencionalmente foi utilizado para embaralhar essa noção estática socialmente concebida de que a orientação sexual é fixa, rígida e intransferível. Dentre os resultados, faz com que pessoas comuns questionem seus valores pessoais bem como a educação que lhes foi transmitida, e ademais, consegue alterar os humores daqueles que não se agradaram com a intencionalidade da proposta. As identificações interpessoais são transitórias e a recusa em aceitar essa noção pode gerar catástrofes. Para que o filme de hoje, em formato de texto, possa ser sentido, é recomendável ligar o botão do free e aceitar a tese de que as relações humanas são perturbadas. Nessa composição, também há lugar para se repensar o postulado de Freud quanto às identificações que culminam numa organização sexual definitiva.

Hoje eu tenho novamente a missão de escrever uma resenha sem expor fatos que revelem o desfecho do filme, mesmo ciente da pertinência dos mesmos. Ocultá-los é a melhor escolha, pois julgo não ser louvável desfazer o prazer da surpresa. Savage Grace (2007) nos é contado pela narrativa da carta de um filho dirigida ao pai. A direção é de Tom Kalin, a história inicia-se em na década de 40 e transita pelos anos de autodescobertas de uma família. Ainda não obtive a constatação de que esse filme tenha caído nas graças de certos meios psicanalíticos. Em seu lançamento, deduzo que assim fosse esperado, pois ao abordar uma clássica relação triangular edípica, ilustra um dos temas mais clássicos que saltou às vistas de Freud. 


Num núcleo de gente rica, são apresentadas cenas de um casal mediadas pelo relacionamento com um bebê, nascido para ser selvagem. Nada poderia parecer mais caricato ao cenário analítico do que a apresentação de uma família em que a figura materna demonstra afetividade e é fisicamente próxima ao bebê, enquanto o pai lhe é distante. Essa é uma primeira impressão, e se o nível de ansiedade estiver elevado, logo faremos a suposição de que a criança desenvolverá uma fixação amorosa na mãe e odiará o pai. 

Devo ressaltar que o mais interessante é aceitar que essa configuração esteja presente na história, embora esta não se limite a mostrar a formação de uma cena edípica. As características pessoais dos envolvidos bem como a riqueza de discursos surpreendem aqueles que, com suas respostas prontas sobre o Édipo, creem dominar o assunto.  


Quando era um bebê, a mãe Barbara Baekeland | Julianne Moore | é vista a exercer o holding para com a adorável recém-chegada criatura. 12 anos depois, o filho Tony Baekeland | Eddie Redmayne | retribui parte do carinho dado ao levar à mãe o café da manhã na cama. Ele diz que se sente desamparado ao estar sozinho e recebe três beijos, sendo um nos lábios. Esta cena é um indício satisfatório para supor uma relação de proximidade emocional e física entre mãe e filho. Tony afirma que “gostaria de vir primeiro” aos compromissos sociais da mãe. Até aí, tudo bem (em termos). Quando se trata de representar o universo infantil e o apego pelos primeiros objetos, é suposto que certo tom melodramático seja praticamente inevitável. Isso é resultado da fantasia da criança em ser amada pelos pais e investida afetivamente por um deles, que tende a produzir um desejo de aproximação que se quer constantemente repetir. Uma criança dizer que gostaria de "vir primeiro" ao desejo da mãe pode ser efeito de um saber inconsciente quanto ao desejo dela. Reconhece-se como parte desse desejo. 

Outros dois detalhes deste momento inicial são importantes para complementar as ideias expostas. Barbara diz que o remédio que pelo filho foi trazido seria um segredo entre ambos. Não é preciso teorização alguma para se entender que um dos maiores laços com outra pessoa é estar ligada a ela por palavras, isso pode ser emocionalmente sentido como um pacto. Detendo-se a este pequeno segredo em questão, quem dentre nós responderá como é sentir que um dos pais esconde coisas do outro e você é utilizado na trama? Se este primeiro detalhe foi de Eros, o segundo, certamente, pertence ao exercício de Tanatos: o pai numa luta de espadas. O fato de essas duas cenas serem seguidas pode sugerir uma cisão, na qual – de acordo com as estatísticas – a figura paterna é concebida como a representação do poder enquanto a materna esta ligada ao amor. Lógico que não são lugares fixos e que o desenvolvimento psíquico consiste exatamente em desinvestir essas figuras dos locais em que na infância foram colocadas. 


Ainda sobre o amor, durante um passeio no parque, Barbara pergunta ao filho: “continuará me amando quando meu cabelo estiver branco e meus peitos caídos?”. A ocasião foi oportuna para revelação de detalhes geracionais, ao mencionar a avó como aquela que a orientou a casar-se – “’procure o homem’, dizia. O homem a que se referia, suponho, era o dinheiro”. Por fim, acrescenta: “os ricos não põe apelidos no dinheiro”, mas os psicanalistas sim, de maneira que este, em algumas condições, passa a ser chamado de falo. Nesta conversa, foi transmitida ao menino parte da herança emocional da família, na qual o casamento era uma convenção e o dote exercia plena influência na decisão a ser tomada. Nada muito além do que um arranjo em que lugares e ocupações eram destinados às pessoas. A minha opinião é a de que nos dias de hoje, não mudou muita coisa no resultado final, apenas o falo, enquanto objeto circulante – algo que é colocado no lugar da falta – é que se desloca do dote-dinheiro para outros atrativos que determinam a decisão de duas pessoas ficarem juntas.

É assim que esse dote paterno é dado a se tornar conhecido. Barbara se refere ao esposo Brooks Baekeland | Stephen Dillane | como alguém que escreve, explora e possui bons conhecimentos em matemática. Como uma criança descobre quem é um pai? A pergunta tem certa relevância se partirmos do entendimento de que seja pai, seja mãe, seja biológico ou não, uma pessoa vem a tornar-se conhecida pela criança como um objeto total por vias discursivas. Nesse caso, o menino assimila quem é o pai a partir de um referencial feminino, como se ela lhe anunciasse: "estou a dizê-lo quem é o pai para mim". Se minha memória não me trai, ao abordar as pesquisas sexuais infantis, Freud incluiu uma questão quase metafísica: a curiosidade da criança em descobrir o que a mãe viu no pai. Barbara respondera a partir da equação falo > = dinheiro.


Com a passagem dos anos e inclusão de um quarto elemento nessa relação triangular, os protagonistas puderam dar provas de serem mais perturbados do que a suposição de pessoas comuns. Blanca | Elena Anaya | é apresentada como a “garota de Tony” num contexto em que ao espectador mais atento é notório que não há uma intensa ligação física ou emocional entre eles. A este respeito, o ceticismo de Barbara se traduz em palavras: “uma mãe sabe quando seu filho esta gostando de alguém”. Sobre a formação de elo afetivo-sexual, é concebível que Tony fora capaz experienciá-lo com Jack | Unax Ugalde |, ainda que se mostrasse hábil e extraísse satisfação na relação sexual com Blanca. 

Após ser incluída no roteiro, essa jovem demarca uma nova repartição. Ela se envolve, na realidade, com Brooks, e um casal a partir de então é formado. A ex-esposa sentiu-se traída e fez escândalo; a Tony o fato pareceu indiferente. Agora é o momento de empregar um discurso do pai para aludir a quem era Barbara: “quero dizer, sua mãe era uma atriz, e de certo modo continua sendo”. Creio não ser exagero afirmar que Blanca estava para Brooks assim como Tony estava para Barbara. Isto é, o segundo tomando o primeiro como objeto de investimento libidinal. 


Não se trata de um filme sobre relações de amor, julgo na verdade, ser apropriada a referência às ligações afetivas e sexuais presentes a partir de noções da paixão, das identificações e da incorporação de objeto. Ao escrever a carta ao pai, Tony admite a condição de falta da mãe, cuja ligação ao filho tornara-se ainda mais intensa com a saída do esposo. Sobre a ligação mãe e filho na vida adulta, o roteiro mescla cenas singelas com outras que sugerem uma mãe voraz por atenção e prazer, cuja demanda é de difícil apreensão. Dentre outros detalhes que poderiam ser destacados desse período após a separação do marido, creio que o envolvimento de Barbara com Sam | Hugh Dancy | é um fator crucial em pauta.

Um amante com idade próxima a do filho: uma equivalência bem feita. Algumas interpretações não requerem grandes argumentos. A não obviedade disso é que Sam estava para Barbara como para Tony também. Ele seduz a ambos. E antes de acharmos que há alguma incongruência nisso, os três reunidos na cama, com Sam entre eles, começam a gargalhar. É da sociedade moralista que eles riem... E também da nossa cara em achar ménage à trois uma prática moderna. 


É notório, portanto que não era de falta de sexo que eles padeciam. E o termo “padecer” só pode ser apropriado se pensado a partir de uma reflexão sobre o fato de mãe e filho anunciarem um descontentamento com suas vidas. Não é apenas de um tom de desgosto existencial que se trata; a ligação entre Barbara e Tony desperta o sentimento de que algo não ia bem. Sendo assim, reunir em síntese o que até aqui foi exposto pode ser válido para nortear uma interpretação derradeira sobre o filme. 

Inicialmente, a condução do roteiro parece sugerir a compreensão de que o filho muito apegado com a mãe necessariamente terá o pai como rival e não será capaz de superar esta dependência amorosa nas relações futuras. No entanto, não é de fato o que ocorre com Tony, uma vez que o pai não é atacado na vida adulta, bem como sua ausência é sentida como falta, de modo que na carta ele é chamado a ocupar novamente um lugar, não o de pai – supondo que esse dever estivesse concluído – mas o de esposo. Em outros termos, isso é um indicativo de que os sentimentos de inveja primitivos próprios à fase edípica foram superados. Seja pela não rivalidade com o pai, seja por reconhecer que à mãe algo faltava que ele, enquanto filho, não era capaz de oferecer.

Tony se reconhece como tendo um pênis, um suposto falo a ser ofertado, e o julga ser insuficiente, pois admite não ser capaz de satisfazer a mãe. A recusa em atender ao pedido materno não é somente uma submissão à lei do incesto, pois primordialmente representa um entendimento da fantasia de Barbara, na qual pede por um filho ainda criança. Recusar a manutenção da ligação fusional é uma forma de anunciar à mãe que a sua procura por satisfação deveria ser canalizada para outro objeto que não o filho. 


É difícil assimilar o que Barbara queria ao manter-se ligada a Tony e demandar-lhe que a satisfizesse sexualmente. Há coisas que somente podem ser ditas por meio da arte, e às vezes, com a arte dentro dela mesma. Ao analisar o quadro que Barbara pintava, é possível supor qual era sua demanda às figuras masculinas. A pintura era a de uma mulher que segurava um bebê aos braços, que pelos traços reconhecemos como um autorretrato. Isso nos indica o possível desejo dela em existir enquanto mulher ao SER MÃE, de sentir-se toda neste papel. O crescimento do filho era sentido como perda, como anulamento de si mesma e talvez só pudesse ser concebível com o compartilhamento de objetos sexuais. A aflição de Barbara era por não encontrar outra posição feminina que falasse de seu sexo senão a ligada ao bebê.  

Penso que a tentativa de Tony de religar a mãe ao pai era uma possível saída para a demanda dela em fazer-se presente na vida do filho, mais ainda. Havia uma tentativa de desligamento da parte dele e um cansaço por ter que estar junto a ela. Não é por menos que Sam o nomeia como um “cuidador” e diz que alguém deveria prestar-lhe cuidados. 


A identificação com a mãe, cujos primórdios foram aqui mencionados, pode certamente ser tida como a causa e o desdobramento de toda a situação. Como fomos instruídos desde o início de nossa relação com a obra de Freud, o jogo de identificações edípicas consiste em pegar uma referência – “com quem quero me parecer?”. Pode ser paranoia da minha cabeça, mas a forte ligação entre Barbara e Tony recebeu um correspondente no corpo. Ora, conforme são mostradas diferentes etapas da vida, as tonalidades de cabelo de ambos (do ruivo ao castanho) parecem cada vez mais próximas, como se eles estivessem sincronizados por esse referencial estético. 

É certo que sustentar uma identificação ao longo dos anos cujo cerne era ligar sexualmente mãe e filho tornou-se uma rotina intolerável. Assim, cabe uma indagação quanto à finalidade da carta ao pai: era necessário a Tony livrar-se dessa mãe, devolvê-la ao dono para que a mesma se curasse, ou era para livrar-se de seu próprio desejo de ceder que ele o fazia? O testemunho do filho foi expresso nos termos: “às vezes tenho uma mente maldita e não sei o que fazer com ela, mas tento combatê-la com toda a minha alma”. A solução para esse retrato do intolerável seria como pesos tirados dos ombros, o encontro como uma graça salvadora, porém primitiva, que propusesse assim um sentido de liberdade. 

Um abraço,
Renato Oliveira

11.4.15

luz nas trevas

Gostaria de ter patrocínio para promover a feira das perguntas sem respostas. Nem teria que me preocupar com a mobília porque nada seria colocado em exposição. É certo que alguns concordariam que há, de fato, “perguntas sem recipientes”, às quais só o destino sabe solucioná-las. No entanto, não nos contentando com os poderes miraculosos, inventamos um caminho para chegar a alusões possíveis para aquilo que surge na vida da gente como impossível de ser respondido. Se não fosse este “tesão de inquérito” e autêntico desejo de saber fico a me perguntar se o cinema não teria virado latim. Claro que os interesses comerciais seriam outro ponto a se discutir, mas isso não é compatível aqui. Do que se trata senão de filmes escritos com base na pergunta: O QUE É ISSO? A despeito do passar do tempo, esse questionamento não se finda, porque importa-nos dar algum sentido para o isso que aparece na tela.


Creio não ser “viagem” da minha parte, ainda que com o risco de apedrejamento por queda à banalidade, afirmar que a psicanálise nasceu quando Freud ousou se questionar a respeito do “isso” que estava ali à mostra por meio do sintoma. Mesmo após alguns anos de estudo, isso não se ocultou, pelo contrário, continuava acessível à observação nas outras manifestações do inconsciente, conforme vocês sabem porque estudaram o assunto. É curioso, entretanto, recorrer à ilustração para mostrar que ao “isso” que fora nomeado por Freud de “id”, tem-se uma imagem menos cavernosa do que o necessário. Quem tem a intrepidez de dizer “quero conhecer o isso que habita em mim”? O diretor Andrzej Zulawski fez um filme para mostrar o suposto “isso” de cada um, cujo nome é Possession (1981). Acho incrível pensar que comemoraremos o centenário desse trabalho um dia (não devo estar aqui) e ainda restarão questões a serem pensadas a partir de um filme com uma proposta simples, fatídica e fabulosa!

É a narrativa de um homem que amava sua mulher, a qual, por sua vez, não amava somente ele. O verbo amar é cabível nesse contexto com o sentido de quero possuir você. O que é realmente importante que vocês saibam do roteiro do filme por meio deste escrito é tão somente isso: ele suspeitava que ela tinha um amante e queria provas para confirmar este pressuposto. Para além disso, tudo o mais é horror e creio que isso não serei capaz de fazê-los sentir. Seria imponência demais da minha parte assim supor. Quero, contudo, mostrar alguns comportamentos dele a partir de seu desejo de saber e fazer as correlações psicanalíticas possíveis com o “isso” que nos é dado a ver no filme.


Disseram para Mark | Sam Neil |, o marido em questão, que sua esposa esperava que ele fizesse alguma coisa, nem que fosse mágica, pois estava colocado em cena o fato de que ela tinha alguém para além dele. Se ele não houvesse tido iniciativa para discutir a relação, não nos pareceria verossímil a problemática em pauta. “Ele quer ela, ela não quer ele”: esta é a primeira impressão que temos. Creio que talvez houvesse motivos para temer uma mulher que diz: “todo mundo pode fazer o bem e o mal... Mas, se preferir, posso fazer apenas o mal”. Somos, a princípio, testemunhas de um casal que discutia sem que tenhamos a certeza do que lhes causava tanta tensão. Supomos assim a presença de um terceiro ausente, para o qual o interesse da mulher convergia.

Na minha vida de estudante de Psicologia, dediquei-me por um tempo ao estudo da feminilidade em psicanálise, mas isso não me impede de conhecer alguma coisa de postulados teóricos sobre mente de um homem. Sobre este marido com ataque de nervos penso que a descoberta de que ela tinha outro era sentida na cabeça dele com base em pensamentos tais como os que seguem: “eu não sou tudo para ela. O que falta lhe oferecer? Alguém apareceu e lhe proporcionou algo melhor do que aquilo que eu poderia ofertar. Mas sei como tê-la de volta”. Ademais, é comum um homem querer a confirmação se um amante faz sexo melhor do que ele, por mais degradante que possa ser ouvir um “sim”. Ora, é frequente a escuta de que o homem, em circunstâncias tais, tende a colocar-se na relação como aquele supostamente capaz de tamponar qualquer falta. Uma sucinta declaração de Mark para Anna | Isabelle Adjanni | confirma isso: “não suporto vê-la assim. Será do jeito que você quiser. Estou aqui”.

A separação era uma ideia insustentável para ele. O decorrer do filme apresenta a destrutividade no gradual enlouquecimento do casal conforme Mark fazia de tudo para obter a identidade do amante. Seguindo os eventos quero ressaltar e tomar para análise alguns símbolos que foram surgindo (não na minha cabeça, mas que apareciam no filme).


Enquanto o marido, possivelmente, meditava sobre a situação conjugal sentado em uma cadeira de balanço, observamos um movimento que vai acelerando aos poucos. Não lembro o nome da lei da Física que explica isso. Sei, contudo, que parece haver um aumento gradativo de tensão. Estava demarcada uma separação entre o casal, que não era aceita por ele, e ela não conseguia desvincular plenamente o marido de sua vida, uma vez que ainda lhe oferecia justificativas verbais. O movimento da cadeira pode representar um símbolo de avanço e retrocesso sem sair do lugar. A inclinação da cadeira com o peso do corpo era tanta que parecia que ele ia cair, mas, ainda assim, se mantinha. Era como se ele estivesse prestes a desistir do confronto, seja liberando-a para o outro ou via homicídio, mas ainda assim, voltava a si e se dissuadia destas ideias.


É importante explicar que a confirmação da esposa de que havia outro não fora suficiente para frear os movimentos frenéticos de Mark. Ela não somente confirmou ter alguém, como forneceu o endereço do mesmo. Ele foi até o suposto rival, Heinrich | Henz Bennent |, e antes de acirrar um confronto entre eles, foi obrigado a ouvir: “a charada esta no infinitivo. Aceitar”. Acho curioso notar que mesmo com esta visualização do cenário, Mark não se contentou em suas investigações iniciais, como se o “isso” que ele queria saber ainda se mantivesse oculto. As discussões com Anna prosseguiam, em uma delas, inclusive, ela lhe revelou: “você não entende? Você me dá nojo! Sou uma vadia, um monstro! (...) Transo com todos e você não sabe!”. E logo confirmamos, mais uma vez, que o desconhecido nos atrai. Em busca de um saber ainda não todo relevado, Mark contratou um detetive. No escritório deste, sentado em uma cadeira, não mais de balanço, mas dessas que rodam, observa-se que ele fazia constantes movimentos circulares. No formato de um círculo, logicamente, e sem dar uma volta completa, sem fechá-la, portanto. É como perseguir uma coisa sem um ponto de chegada, o que traz a ideia de uma busca que não se finda. Uma “volta completa” seria a obtenção de um saber pleno do desejo do outro, bem como de suas intenções intrínsecas, arraigadas ao âmago do ser. Uma ilusão, evidentemente. Afinal, por mais próximo que se conviva com alguém, é inviável pensar que o nosso poder de sondagem será suficiente para desvela-lo a nu para nosso interesse.


Trata-se de um filme em que a obsessão do marido serve de ocasião para se mostrar a carne humana que detém segredos psicológicos e espirituais para além de nossa limitada compreensão. Outros símbolos estranhos aparecem. Enquanto Anna cozinhava, Mark, menos exasperado, revela seus sentimentos: “quando esta longe, vejo-a como um animal ou ser possuído. Mas quando a vejo tudo isso desaparece”. Nessa cena, vemos Anna cortar carne com uma faca elétrica para depois jogar os pedaços na máquina de moer. Isso significa algo? É o que ela estava fazendo com o marido? Seria a carne um pedaço do coração dele destruído pela indiferença dela? Sou mais tentado a pensar que a carne representava outra parte do corpo dele (o pênis, claro) sentida como flácida, picotada, fragmentada e transformada em partículas moídas uma vez que deixara de ser objeto de desejo dela, sendo renegado como um brinquedo que já deixou de ser interessante. Não é por menos que a ferida narcísica dele se revela em atos de cólera extrema.


Eles estão descontrolados. Não apenas um descontrole, mas também um desespero posto em cena. Descontrole e desespero. Cortem o “des”. Resta-nos “controle” e “espero”: ele esperava obter o controle da situação. Que Anna admitisse um amante não era o suficiente, ele queria um dito de verdade sobre o desejo dela. O desespero do marido era por não ter indícios de um controle, o que, por sua vez, o tirava de uma condição de poder para jogá-lo num círculo de perseguição à verdade plena sem nunca alcançá-la. Com um corte no pescoço de Anna feito com a faca elétrica, ele demanda que ela tão somente fale: “tudo será do jeito que quiser! Apenas fale. Não precisa dizer nada”. Ficaremos aqui até amanhã para entender o que ele realmente queria saber. “Falar, mas nada dizer”: talvez isso indique que ele não estava em condições de ouvi-la devido à angústia decorrente de suas indagações acerca do enigma que envolvia o desejo da esposa.


Foi preciso que Mark encontrasse o primeiro outro em questão, Heinrich, para por seu intermédio constatar que havia um eleito para além dos dois. Essa revelação aumentou o anseio de Mark e levou o investigador contratado a seguir Anna até um prédio, para em seguida fingir-se de síndico a fim de descobrir a identidade daquele a quem ela fora visitar. Ao entrar, ele abriu as persianas, isto é, lançou luz em ambientes escuros. Qualquer investigação nada mais é do que isso. A experiência inicial de Freud com a psicanálise também o foi. A demanda do marido era fazer Anna falar. Como não obteve êxito neste intento, sua intenção passou a ser a de iluminar um saber desconhecido supostamente real, ele queria fazer aparecer o outro que a fazia desejar. Aqui cabe uma pergunta: é verdadeiro o postulado de que há em nós um outro, não a nossa razão consciente, que nos faz desejar aquilo que a consciência repugna? Em síntese, aparecer é sempre, de algum modo, ter que lidar com o assombro.

Na busca pelo desconhecido, Anna apontou ao detetive onde estava o outro, indicando-lhe o banheiro sem janelas. Isso nos mostra que no lugar em que a revelação se detém não há janela. Assim, não dá para ver o que se passa estando do lado de fora. Só é possível ver o que esta dentro se você estiver inserido. Se usarmos essas noções como metáfora, podemos aludir à fala do sujeito como reveladora dele mesmo, do “isso”, de seus conteúdos inconscientes, desde os mais primitivos, daquilo que esta sob efeito de recalcamento e quer, assim, aparecer. O saber sobre o Inconsciente esta no sujeito, é uma linguagem que pode tornar-se manifesta. Ninguém pode revelá-lo senão o próprio dono, o único com acesso a este campo de palavras.


Logo, o que havia de tão assustador no local por ela indicado? É interessante notar que enquanto se tornava mais forte o anseio do marido em querer que a verdade desconhecida fosse toda dita, “isso” era falado no sintoma do filho. Com Freud aprendemos que alguns acometimentos físicos são manifestações do inconsciente, e com Lacan, que o sintoma da criança revela algo da ordem do sintoma dos pais. Sobre Bob | Michael Hogben |, o garotinho, nas palavras de sua professora: “ele sabe de tudo, sente tudo, é incrível. Depois do almoço temos uma hora de descanso. Bob dorme quase o tempo todo. Enquanto dorme, chora, grita. (...) Ele sofre. É sempre muito difícil acalmá-lo”. Há uma cena também em que ele acorda aos berros após um pesadelo. O que a criança anunciava, portanto, era um estado de desordem familiar que o atormentava. O sintoma dessa criança também retrata a existência de uma coisa perturbadora que após aparecer via sonho, é temporariamente afastada da consciência ao acordar "como se nada tivesse acontecido". Trata-se de um “horror” que ainda não foi nomeado aqui, mas o discurso da professora, enquanto lavava a faca elétrica usada por Anna, é revelador nesse sentido: “mulheres são perigosas. (...) Sou de um lugar onde o mal parece mais fácil de ser detectado, porque você pode notá-lo na pele. Ele se torna pessoas. Assim você sabe o perigo de ser atingido por ele”


A personificação do mal comentada por ela refere-se à noção de que pode ser de uma interioridade humana que se trate quando se fala acerca de uma maldade causadora de algum tipo de assolação. Falamos do lugar de conhecedores apenas parciais de uma mente, com a ciência de que não há um entendimento pleno de seu funcionamento. Iluminamos algumas de suas áreas, sabemos que é a linguagem que a fazer advir como Sujeito do Inconsciente e também recuamos ao se deparar com a verdade de que seus conteúdos não nos são agradáveis. Cortar-se com a faca elétrica ou com a garrafa de vinho, mostrar a carne exposta e crua: outro símbolo que retrata a apresentação do humano tal como o é, apenas uma carne com alguns conteúdos desconhecidos inacessíveis a razão. O diretor ousa querer mostrá-los e não há outro gênero senão o terror que seja mais apropriado para tanto.


Suponho que esse “outro” que Mark não podia ver e para o qual o desejo de Anna se voltava, pode ser concebido como o autor da perturbação que também a assolava. No momento em que se dirige a uma igreja após um estado de perturbação e fixa seus olhos na estátua de Jesus Cristo – símbolo de pureza, de mortificação do desejo na carne, de renúncia e santificação – parece que ela esta tentando ver a si própria nesta imagem. Como se assim fosse possível usá-la como um espelho para santificar-se após a descoberta do que havia de demoníaco e aterrorizador em si própria. Esses conteúdos internos também podem ser concebidos como 'sujos', uma vez que a moralidade do sujeito atribui esse caráter àquilo que foi afastado da consciência via recalque. Jesus Cristo aparece como o símbolo do ideal do eu impossível de ser alcançado senão com a morte, uma vez que em vida a relação do homem com o “desejo-sujeira” é inevitável. Sobre o impasse em seu relacionamento com o olhar do sagrado, ela anuncia: “o que perdi lá foi a irmã fé. O que me restou foi a irmã acaso. Eu teria que ter cuidado da minha fé, preservá-la”


Isso tudo o que foi dito até aqui, claro que não é “tudo” coisa alguma. É apenas uma parcialidade interpretativa de “um mal” oculto em uma história sob a pele de um suposto amante, do qual só a esposa era suposta saber alguma coisa, e que causava no casal um aterrorizante sentimento de assolação. Com vistas a não revelar um spoiler aos que não viram o filme, limitei-me à sentença de que o desconhecido era o amante e o amante era o isso. A valentia de ver tanto a carne crua até então escondida quanto à interioridade deste “outro” perseguido é similar à coragem do analisante quando se põe a falar daquilo que o faz sofrer. Ele sabe que sua pele será aos poucos rasgada e que o processo somente ocorrerá com o enfrentamento da dor consequente desse jogo de palavras. A esperança ao iluminar esses locais da mente é que o caminho a ser trilhado não será em círculos.

Beijos de luz,

Renato Oliveira

10.1.15

beethoven e a mulher

Qual a melodia tem a dor? E o horror, se conjuga com o que? Dor e horror não apenas são significantes que rimam como também podem ser dois fios de barbante a se entrelaçarem com um terceiro, o amor. Tudo isso seria muito lindo de se pensar se não fosse a sensação de desgosto com louvor que o filme de hoje me provocou. Nas primeiras resenhas escritas aqui, eu comentava mais dos meus sentimentos contratransferenciais para com os trabalhos escolhidos para interpretação. Com o tempo, contudo, não sei por que abandonei essa prática, talvez por querer alcançar a impessoalidade dos “acadêmicos de cadimia”, ou porque aspirava uma cadeira no jardim de Cannes ou um chá no Planalto. O fato, ainda assim, é que mesmo após os anos em Psicologia somados às experiências de estrada eu não tenho nada muito mais profundo do que iniciar-me dizendo que “somos todos doentes”.

Ah sim, sobre o filme de hoje, “A professora de piano” (2001), devo já declarar que é uma obra psicanalítica por natureza, ou melhor, vou mais além, é o suprassumo analítico, pois todos os principais temas de causa freudiana estão ali: desejo de morte, o masoquismo, a fusão e desfusão das pulsões, a relação entre mãe e filha entre outros. E como disse o cidadão Sisek, “filmes nos ensinam a desejar”, logo, não é por menos que fui assaltado por um anseio e necessidade de me voltar a todos os artigos de Freud um dia lidos e amados. Em especial: “O problema econômico do masoquismo” (1924) e “O fetichismo” (1927).

Assim, quero dizer que Michael Haneke desvelou-me nessa singular experiência a recordação de que o Inconsciente funciona. E não digo funcionar no sentido de "dar certo", na verdade, ele causa mesmo é um embaraço de fios, formando nós, refiro-me, portanto, a seu funcionamento, ao movimento contínuo de seus conteúdos que querem alcançar a consciência. Há pessoas que vão ao analista e pedem a ele que as auxilie nesse processo, há aquelas que, não obstante a isso, também assistem a determinados filmes e o resultado não é nada mais poético do que um “salve-se quem puder!”.


Sobre a personagem em questão, Erika Kohut | Isabelle Huppert | pode ser considerada por alguns uma deusa, uma louca e uma feiticeira, mas prefiro deter-me ao fato de que ela era uma pianista de prestígio, cujo reconhecimento a tornava objeto do interesse de pais que almejavam um futuro de “filho pianista” a um de sua prole. Vemos, inicialmente, fragmentos de algumas aulas seguidos por um retorno ao lar. Ela vivia com sua mãe sem nome | Annie Girardot |, de modo que lhe atribuiremos apenas o significante “mãe”, a qual nos é apresentada como aquela que demanda um saber pleno acerca do que a filha havia feito nas últimas três horas. O atraso era sentido como uma afronta, de maneira que Erika era convidada a dar provas de que não utilizara esse tempo inutilmente.

A aparência da situação nada mais é que um retrato de “preocupação de mãe” só que exacerbado e sentido com certo desgosto uma vez que estamos diante de filha já crescida. Atribuímos à maturidade o poder de se pensar por si próprio, e na literatura psicanalítica, mais detidamente, à capacidade de responsabilização por aquilo que se deseja. No entanto, na vida e nos filmes encontramos pessoas e situações contra as regras. Ora, tudo isso para fazer menção à briga entre Erika e sua mãe, o embate corporal como consequência de uma inviabilidade de se entender via fala. Sim, dessas em que se pega pelos cabelos, de maneira que ao término, entre prantos, sua mãe lhe diz: "fiquei com um buraco aqui e outro aqui". A reconciliação entre ambas foi seguida de declarações de amor e remete a experiências de querer “ficar de bem” daquela estimada amiga após uma discussão sem importância.

Além da considerável semelhança física, outros fatos ajudam-nos a formar a imagem de uma fusão entre mãe e filha: os olhares perscrutadores de ambas; a presença delas nos mesmos ambientes e a própria simetria corporal. Elas pareciam constituir unidade.


Essa ideia acima se dialoga com o momento em que se dirigiam a um concerto e ao tomar um elevador são seguidas por um jovem que tenta entrar, iniciativa esta sentida como uma penetração forçada, uma vez que elas não inviabilizam o fechamento das portas, como a dizer-lhe: “perdeu, campeão”. Só que ele sobe as escadas com agilidade, dando provas de ser capaz de chegar primeiro para apresentar-se a elas quando as portas do elevador se abrissem. Walter Klemmer | Benoît Magimel | se faz conhecido por se tratar de um aspirante ao sucesso na carreira de pianista, ávido por demonstrar sua admiração pelo trabalho de Erika. No evento, após a apresentação da veterana mestra, ele não se inibe ao mostrar-lhe todo o seu reconhecimento em palavras que, se não levadas ao vento, foram tão somente recebidas com um “obrigado”.


O jovem, entretanto, não se sentiu coagido em sua exibição posterior ao deslumbrante desempenho de Erika. Sua humildade fora expressa aos ouvintes seguida de uma articulação de dedos notável e inspiradora. Enquanto o ouvia, é como se nos fosse dada a oportunidade de ler o rosto da professora, que se encontrava “sonhando com aquilo que não tem, enchendo-se do pior e do melhor”. Penso que enquanto o som do piano ecoava, ela estava em contato com suas fantasias, de modo a conduzir Walter a elas, dando-lhe um lugar. Essa figura do masculino, renegada a ter um espaço no elevador, foi de outro modo, admitida na vida mental, e seria articulada ao desejo, a voracidade e ao inconfessável.


Walter militou por um lugar junto à veterana e foi aprovado por uma comissão selecionadora dos principais talentos. O reconhecimento de que ele portava um verdadeiro dom era praticamente unânime, se não fosse o discurso de Erika que o acusava de ser velho para a carreira profissional. Ainda assim, ele foi aceito “por maioria de votos” e passou a ter aulas regulares com ela. A sua rigidez corpórea, constância nas expressões faciais e indumentária em cores pasteis são elementos que ajudam-nos a criar a imagem de uma mulher sem apreço pelas questões amorosas, bem como traz uma alusão a imagem de frigidez. A correspondência ocular entre Erika e Walter, bem como a atmosfera gélida produzida pela falta de humor para com os elogios ofertados por ele são fatores nos levam a supor a existência de uma tensão no encontro entre ambos. Em consequência, pode-se pensar que o êxtase a se obter pela atividade sexual poderia aplacar esse distanciamento, quando, na realidade, é de outra coisa que se trata. 

Nem frigidez, nem “vamos fazer do jeito normal”, mas sim o retrato de uma não complementaridade entre os sexos. Voltamos aqui a uma das “coisas freudianas” abordadas por Lacan para nos referirmos à noção de que o masculino não vem para suplantar a ausência de sexo na mulher. Ou seja, a demanda de Erika não era por um amor, uma casa, um pênis, um filho e um todo. Não se percebe a existência de uma mulher tomada pela ilusão de poder ser completa e suficientemente toda. É uma indiferença quanto ao outro sexo como suplente da falta que esta presente desde o início. Ela se declarava para Walter com as palavras: "eu não tenho sentimentos, melhor se convencer disso". Só que essa indiferença não anula um interesse, ainda que isso pareça contraditório. Penso que a relação com o sexo se mostra, primeiramente, numa curiosidade por observá-lo, por imaginar o que acontece no encontro de um casal.

Não é por menos que a pornografia lhe era útil. Assim, basta observar a forma como Erika assistia a cenas de sexo para notar que não parecia se tratar de uma experiência de incorporação, ou seja, ela não extraía prazer físico, nem mesmo se estimulava diante das cenas. Tudo se passava e, a princípio, se resumia, na contemplação do masculino, seja por meio dos vídeos pornôs, seja pela sensação olfativa decorrente de lenços usados para absorver esperma, os quais foram deixados por homens que estiveram naquela cabine. É como se em relação ao conceito de prazer sexual extraído do corpo, a predileção da professora fosse o distanciamento e ceticismo próprios de um pesquisador científico impossibilitado de envolvimento com sua amostra. Erika em relação a Walter bem como sua mãe junto a um senhor que a abordava no concerto retratam a existência de um desdém para com as iniciativas de aproximação masculinas. O contato com homens era-lhes admissível apenas com uma distância estabelecida. Vale mencionar que a impessoalidade com que o aluno foi tratado por Erika remete a rejeição que a consciência faz ao desejo inconsciente. Este, por sua vez, subverte a condição racional do homem, traz certo abalo, leva-o a "não querer saber disso". A neurose é um constante "não querer-saber", um movimento de desistência, de desligamento, de desencorajamento. No filme, isso é notável, como um desinteresse ao exercício da sexualidade genital.

Só que na perspectiva analítica que aqui tratamos, rejeição não significa abandono. A sexualidade da personagem não era inexistente, de modo que notamos um duplo movimento, em que Walter enquanto objeto é tratado com descaso e ao mesmo tempo é perseguido, em outras palavras: “não se aproxime, mas eu quero te ver”. Ela segue o aluno e mostra-se afoita por saber dele. Se por um lado, não nos parece haver desejo sexual genital, após conhecê-lo Erika revela interesse pelo desejo de incorporação. Ver é uma forma de incorporar, uma vez que as imagens podem ser introjetadas e ganhar “lugar” na vida psíquica. Ademais, essa predisposição a tomar parte do masculino para si foi reforçada pelo interesse de Walter em mostrar-se como oferta disponível, acessível ao “interesse de pesquisa” de Erika. Quando ele a segue até o banheiro e a agarra, temos a impressão de que se seguirá uma relação sexual nos padrões conhecidos, ainda que em setting não convencional: estimulação, penetração, clímax e orgasmo são palavras que formam, em sequência, a ideia que nos surge. Erika, contudo, o recebe e o rejeita ao mesmo tempo para logo delimitar a regra de que seria dada continuidade àquela atividade somente se Walter se mantivesse apto para ofertar-lhe o pênis às suas mãos e lábios apenas, nada além disso. Ela almejava o pleno controle da situação. Nessa circunstância, anuncia que ele devia manter seu pênis ereto para que pudesse contemplá-lo e num determinado momento, se recusa-se a prosseguir com a estimulação, a fim de que ele não ejaculasse. Em outros termos, para mantê-lo em falta.

Qual tipo de homem toparia um jogo assim? “A sua atitude é completamente perversa” ele lhe disse. A ordem dela "quero que fique assim" (ereto) pode ser interpretada como uma condição para que o objeto fosse visto e incorporado. Ela buscava se ancorar em alguma coisa ao mesmo tempo em que rejeitava ser penetrada e entregar-lhe, assim, parte do domínio da situação. A atitude perversa era uma conduta dupla, que consistia em deixar o outro "na vontade" para manutenção da falta e ao mesmo tempo oferecer-se como provocadora de prazer, para seus interesses egoicos de introjeção. Ela faz advir o pênis ereto, para em seguida desmerecê-lo. Este é um protótipo da relação do neurótico com o desejo, em que se aproxima do objeto para em seguida negá-lo com sentimentos de rejeição e desprezo.

Essa ambiguidade é reforçada por uma carta direcionada a Walter em que ela oficializa as regras do jogo, demandando-lhe que a coloque como objeto, que a agrida, que a impeça de reagir ao ato, submetendo-a a uma condição de serva. Caberia a ele fazer-se ou não resposta a esse pedido. Não há como não se referir a noção de uma repulsa a primazia genital de que Freud falava, de modo que, a penetração é rejeitada enquanto prática para obtenção de prazer. A noção de sexo quando introjetada como algo imoral pode reforçar, ou apenas ser complementar à fantasia da mãe pura, que consentiu à atividade sexual uma única vez para fins de gravidez.

Ademais, Freud deixou-nos o legado em torno do masoquismo a partir do esclarecimento de funções da dor na vida mental. Assim, as fantasias de humilhação podem ser uma via para se aplacar um sentimento de culpa pelo exercício da sexualidade. A dor física era sentida por Erika como experiência de alívio. É como se ela se culpabilizasse por seus desejos eróticos e o ato masoquista fosse a solução para este problema; como se vivesse como “a filha ideal” para amenizar sua culpa para com a mãe pelos desejos sexuais fantasiados. Ao mesmo tempo, queria se ver livre desta mãe onisciente, castigá-la, portanto, infligir dor a essa outra parte dela mesma, e Walter seria utilizado para este propósito. Seria uma tentativa de Erika para livrar-se de si mesma e escapar a sua condenação? Quem a acusaria? Quem se levanta contra o neurótico para acusá-lo em atos de dominação e fazê-lo, portanto, cativo a um “não se sabe o que”? 


Haneke concede-nos a oportunidade de pensar quanto a que tipo de exercício sexual se instaura a noção de horror, e o porquê disso. O prazer na dor e a dor no prazer são jogos de palavras que não se esgotam por eles mesmos. Extrair um sentido a partir deles é uma tarefa que convoca o nosso masoquismo a entrar a jogo, de modo a suportarmos a aflição de se entender um caso, enquanto um fatídico não-saber continua a ser produzido. E o piano é o de menos.

Renato Oliveira

18.8.14

sonho de padaria tv

“Embarque nesse carrossel” não é a frase mais científica para começar esse relato de cunho interpretativo. Não haverá carrossel algum, mas sim um cavalo que, devo adiantar desde então, será um elemento-chave. É com este símbolo/objeto que tentarei amarrar as considerações que serão feitas.

Durante esses quase cinco quatro anos escrevendo análises de filmes a partir de conceitos da psicanálise, é evidente que apreendi alguma coisa para chamar de “muito valor”. Pense que quando você faz algo que realmente é importante para ti, é possível se dar ao direito de criar uma caixa imaginária para guardar aprendizados e outras coisas que não podem vir a ser desmanchadas com o tempo. Sobre o valor estimativo de uma caixa, escrevi há muito tempo atrás.

No meu caso – ou melhor, na minha caixa – encontra-se entre outras coisas, a certeza de que as interpretações prontas podem até funcionar bem, mas não são para mim porque não se aproximam do “coração do filme”. Ademais, nela também esta guardada a concepção de que A Verdade do filme não esta com pessoa alguma, mas ela pode ser patrimônio de cada um que ousar concebê-la enquanto tentativa de elaboração. Afinal, formamos interpretações para nós mesmos ou para algum grupo que supomos que atribuirá sentido às palavras. Na realidade, também interpretamos para conhecer os objetos internos dos roteiristas e diretores... Logo, não há como não admitir que conhecemos, ainda que muito parcialmente, o inconsciente deles, pois material para tanto se encontra disponível em seus trabalhos, só que deslocados e condensados, como os sonhos de Freud. 


Eu tinha Michel Gondry em mente enquanto escrevia estes pressupostos acima. Logo, tudo o que puder ser pensado de psicanalítico por hoje será em articulação com a Ciência dos Sonhos, inventada por ele – La science des rêves (2006).

No início de tudo, ele ousa-nos responder como os sonhos são fabricados. Stéphane | Gael Garcia Bernal |, no seu educativo programa de TV, nos dá a fórmula da composição onírica: pensamentos, reminiscências do dia (restos diurnos), lembranças do passado, canções, coisas que foram vistas, amizades e amor. Tudo isso, quando misturado, formará as imagens que aparecerão em nossa mente, as quais, quando lembradas, tornam-se geralmente risíveis ou terrificantes – “nos sonhos, as emoções fascinam”. Na verdade, ele era um cidadão absolutamente fascinado com a oportunidade de criar coisas, em descobrir o mundo criativamente, em imiscuir-se nas recordações e projetar um futuro acima da capacidade de compreensão das demais pessoas.


Certamente já fomos testemunhas de que os nossos sonhos (conteúdos oníricos) são produtos de uma mente cujo funcionamento não se pauta numa temporalidade comum. Não é por menos, que certas recordações da infância voltam como se você ainda não tivesse chego à casa dos 40, amores rompidos aparecem como objetos para uma primeira ou nova frustração e coisas do tipo. Ora, esta mesma característica retroativa esta presente no início da história, pois Stéphane decidiu voltar à casa de sua mãe e encontrar-se com o quarto em que viveu quando ainda criança e durante os anos da adolescência. No entanto, como um homem “já crescido”, seus dias seriam vividos não apenas nesta agridoce atmosfera mnêmica, mas também em um ambiente corporativo. Ele é admitido numa empresa para confecção de calendários. A princípio, pensou que criaria modelos originais, deslumbrantes e muito possivelmente relacionados com seus fantasmas internos, mas não, as fotografias já estavam impressas, e seu dever seria colar etiquetas conforme o gosto do cliente na fase de acabamento dos pedidos. 


Ele foi contratado para ser montador, quando almejava, na verdade, a função de criador. Sendo assim, apresentou propostas inusitadas a um dos superiores, mas como é possível deduzir, não se tratava de um contexto para a criação, para a arte e expressão do lúdico. O ambiente de trabalho é retratado desde então como o “cinza essencial” em que o sujeito se insere para que sua mão de obra (ou força de resistência) sejam gratificadas com o salário. Agora, se ao colaborador é possível ser sujeito na vivência corporativa enquanto portador de uma singularidade é uma questão que não será discutida hoje. Ainda assim, Gondry nos dá elementos para pensar na alienação que envolve o homem que nada cria, mas tudo obedece para que sua vaga não seja perdida.


Que fique claro desde então que para Stéphane era inviável uma vida sem criação. Ora, ele era um contador de histórias, que tinha um programa de TV imaginativo sobre seus próprios sonhos. E aqui, imaginativo não significa irreal. No roteiro, acompanhamos a “vida de sonhos” desse singular falante, bem como sua vida cotidiana como um morador do apartamento da frente. Da frente do quê ou de quem? Na ocasião em que dois homens tentavam transportar um piano, Stéphane presta-lhes auxílio e ao machucar sua mão esquerda, logo vai parar no apartamento de Stéphanie | Charlotte Gainsbourg |, sua nova “vizinha da frente”, que junto à amiga Zoé | Emma de Caunes | lhe oferecem socorros. 

Neste momento, vale um adendo. Antes mesmo da “catástrofe do piano”, um elo se estabeleceu entre eles quando, descautelosamente, Zoé fura a parede do apartamento da amiga, de modo que a broca da furadeira atinge o quarto do nosso querido falante. Guardem as denotações de cunho propriamente sexual para um outro dia, pois por hora, essa ideia inicial de furo, e principalmente, de passagem, já indica que haveria uma transição entre os mundos internos de Stéphane e Stéphanie.


Vou parar aqui. Quero enfatizar que não se faz preciso descrever os eventos que lhe sucederam nesta vivência no louco mundo de trabalho, e o encontro com seu quarto – com objetos internos antigos ali expressos em setting – perfurado com o apartamento da frente. Algo acima me parece sobressair muito mais aos olhos: os nomes. Stéphane e Stéphanie: precisa escrever que se trata de uma relação romântica colorida por afetos e papeis? Não apenas isso. É relevante comentar que eles não viveram uma paixão atroz, marcada por perfurações no corpo e dilatações afetivas. A princípio, tudo o que havia era uma timidez e uma acentuada “falta de jeito” de Stéphane em aproximar-se dela, em revelar o que ele sentia. Sabe-se lá quais eram seus reais sentimentos, mas em conversa com um ~~companheiro de firma~~ ele revela existir algo de mágico em relação a cidadã. Bastaram algumas poucas visitas ao mundo interno dela (seu apartamento), ainda em arrumação, para que ele a identificasse como uma criadora, alguém cujos eventos da vida representavam formas de arte. Tais como: as sensações mais sutis na pele, a montagem de um mezanino, até mesmo a criação de um cenário com um barco e uma ilha dentro, cerceado por nuvens de algodão e águas de papel celofane transparente e azul.

Há uma cena que representa o apreço que Stéphane nutria para com a jovem amada. Ele “perfura” o apartamento dela entrando pela janela, com a intenção declarada de fazer-lhe uma surpresa. Assim, ele recria um pônei (ou cavalo, somente, como preferirem) de tecido, incutindo-lhe baterias que lhe dariam movimentos. Esta atitude foi seguida de uma inscrição: o pônei passou-se a chamar “dourado” e tornou-se símbolo da fusão amorosa entre ambos.

Pois bem. Contudo, não me contento com o fato deles terem nomes tão próximos representar apenas a formação de um casal. Na realidade eram praticamente xarás. Isso sugere algo a mais. Na verdade, me faz pensar que a relação entre Stéphane e Stéphanie era a reprodução de um evento muito mais primitivo vivido nos primórdios da experiência do bebê com as fontes de gratificação. Não é de hoje que sabemos acerca do valor de relevância para a saúde mental de que o mundo seja apercebido pelo bebê como uma realidade boa, e isso somente é possível com a introjeção inicial de objetos gratificadores. Para tanto, é necessária a adaptação materna às necessidades físicas e emocionais do bebê, oferecendo-lhe um seio que lhe possibilitará investir seus próprios impulsos de amor e ódio, e que se manterá intacto mesmo quando atacado pelo lactente. Do ponto de vista de nós que estamos “de fora”, o seio é oferecido, apresentado como oferta louvável, mas a psicanálise muito bem iluminou o nosso entendimento a ponto de dar a compreensão de que este objeto de amor, o seio, é criado na mente infantil. As raízes do viver criativo estão nestas experiências iniciais em que o bebê acredita inventar o objeto de sua necessidade. Ele vivencia, portanto, um sentimento de onipotência ao constatar que o seio ali estava porque o seu poder criador o colocou como fonte de todo o suprimento e bondade.

E o que tudo isso tem a ver com Stéphane? Não seria Stéphanie a criação deste objeto completamente bom e gratificador? O amor é retratado com base na ilusão de onipotência de nosso cidadão falante, que elaborou uma figura para investimento afetivo, a qual, ao ser introjetada, tornou-se uma parte de seu ego, um eu ideal. Uma das principais consequências disso era sua crença em poder controlá-la. Em suas palavras, notamos a complexidade desta interação: “chama-se CPS. Casualidade Paralela Sincronizado. Sabe o porque? Acho que nossos cérebros criaram um vínculo, incrivelmente complexo. É incrivelmente raro. É como se fôssemos um quebra-cabeças”. Mas, que paradoxo é esse: Stéphanie já existia ou foi criada? As duas coisas, pois não se trata de uma oposição para ser resolvida, assim como o seio antecede a fantasia de onipotência do bebê, e continua a existir como uma criação do ego.


Stéphane não era somente um inventor de calendários, óculos 3D ou histórias, ele inventou uma mulher enquanto protótipo de uma boa experiência de satisfação anterior, aquela que o ajudaria a suportar a monocromia de cinza do mundo. Ele não experienciava um sentimento de irrealidade junto a ela, porque, enquanto eu ideal, ela era uma extensão de seu ego. E para além disso, eles estavam unidos por meio de Dourado, o cavalo, que ao ganhar movimento sugere que eles poderiam percorrer distâncias maiores a partir deste vínculo afetivamente produzido.

Assim, fico a pensar que o inconsciente de Gondry é dado a ver mediante os elementos presentes na Ciência dos Sonhos elaborada por ele. A presença do onírico em situações da vida cotidiana forma um retrato diferenciado de uma forma de paixão. Frente à drástica realidade do mundo, é possível que seja pertinente a recordação de que em algum momento da vida se criou um objeto da necessidade – seja uma história, um amor ou um cavalo de pano. Se esta criação teve a finalidade de auxílio para se vivenciar uma passagem, é certo que o poder investido para criá-lo deve ser redescoberto.

Feliz por estar de volta.

Renato Oliveira