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9.11.14

doce desejo

O Cine Freud de hoje vem vestido de confeitaria para mostrar que os desejos de uma criança crescida não são nada doces. Na verdade, não precisa nem sequer ser crescido para saber que desejos não são agradáveis ao paladar da mente. Lógico que não me refiro a desejo por doce, sobremesa, casa na praia, vodka com suco de laranja ou coisa do tipo. Faço menção ao desejo como ele aparece na psicanálise enquanto campo do saber e na clínica psicanalítica: desejo daquilo que causa horror, que deseja ser evitado, mantido afastado da consciência. As fias David Slade e Brian Nelson sabem disso, afinal articularam esse entendimento ao criar um filme sobre o qual muito já foi falado, mas não o bastante. A história da brilhante e deliciosa maçã que ao ser mordida deu abertura para a saída de uma larva ganhou novos horizontes, tais como se percebe no filme Hard Candy (2005), que fomos forçosamente obrigados a conhecer por menina má.com.

Não estou nem um pouco disposto a discutir sobre os perigos da era contemporânea e o quanto pode ser nocivo a crianças conversarem em chats – leia-se atualmente: redes sociais – e marcarem encontros. Há inúmeras enciclopédias eletrônicas sobre o assunto e não precisa ser expert na área para saber que gente má intencionada esta em toda a parte, inclusive, os que escrevem resenhas. A questão é: eles estavam conversando em uma sala de bate-papo qualquer e pelo que lemos, já havia um acentuado teor erótico na conversa. Logo marcaram de se encontrar. Tudo assim, absolutamente rápido. Você pode ter a impressão de que duas pessoas trocaram algumas palavras num site e marcaram de se ver, contudo, logo descobrimos que o contato entre eles se estendia por três semanas.

Vemos a seguir um close numa fatia de bolo sendo cortada. Mesmo os mais avessos à glicose sentirão vontade de comer algo com açúcar após essa cena. Ela, Hayley Stark | Ellen Page | extasiava ao sentir o doce sabor do chocolate como um lençol macio sobre a língua. 


Essa sensação de júbilo se tornou ainda maior com a chegada de seu “amigo virtual” em formato humano e 3D: o fotógrafo Jeff Kohlver | Patrick Wilson |, que como acontece habitualmente em filmes, as pessoas se reconhecem muito facilmente. Ah, e tem mais: nos mesmos, gente real “saída da internet” nunca é feia. Que seja, não é ocasião para se discutir sobre isso. Eles conversavam entre café latte descafeínado e mais doce e chocolates, e devo acentuar que Hayley não conseguia disfarçar que não estava nem um pouco decepcionada pela aparência dele. Ela levanta uma questão aparentemente boba neste momento, mas muito relevante: “o meu rosto mente?”. Pois bem, ela tinha 14 anos e a idade dele será revelada mais adiante. Jeff anuncia que ela parecia ser mais velha, o que dá a entender que os seus assuntos eram de “mocinha mais madura”.


Eram eles jovens com compatibilidade musical, com um discurso bastante fluído... Tudo isso para dizer que não se tratava daqueles encontros em que cada um não sabe onde pôr as mãos. Uma história de um mp3 da banda Goldfrapp serviu de ocasião, senão pretexto, para a emergência da possibilidade da guria ir para a casa dele. Claro que isso somente pode ser entendido por nós como cortinas abertas para o sexo, e mais evidente ainda é que era isso o que eles queriam. Nada do que eu possa explicar sobre uma frase de Hayley fará mais efeito do que mencioná-la literalmente: “você disse que seria loucura eu ir a sua casa e, bem... Quatro, quatro em cada cinco médicos acham que sou louca. Logo, eu preciso ir à sua casa para ser eu mesma, certo?” Com uma pessoa assim você nunca precisará pedir que ela diga para que veio. Só que claro que a revelação da teenager não foi levada a sério por ele – “não me leve a sério, me leve para sua cama”. Perdoem-me o jogo de expressões, mas preciso sintetizar tudo ao declarar que logo estava Hayley com sua blusa vermelha de frio com capuz, que lembra-nos a figura icônica de chapeuzinho vermelho, agora sim, dentro do lugar para ser vítima da voracidade de um lobo que não dera indício algum de sê-lo. O rosto dele mentia?


Na casa dele, ela sentiu-se muito a vontade, e observava todas as acomodações. O sexo, a princípio era algo propriamente insinuado por meio não só dos olhares deles, mas do interesse declarado dela em querer saber sobre ele e acerca das modelos que se entregavam às suas lentes. Não sei se na cultura estado-unidense não é desagradável uma pessoa semiconhecida abrir a geladeira, mas o que é válido se deter é o diálogo que se estabeleceu entre eles enquanto ela fazia uma bebida com vodka: “cara saudável, heim!” – “quero viver o máximo que puder” – “viver não é muito bom” – “você não quer chegar à velhice?” – “pra quê? Quando tiver 80 anos vou me divertir com o que?” E essa discussão filosófica terminou com Jeff dizendo que quando ela tivesse 80 anos, ele teria 98 e não poderia ser útil a ela. Mas, no final ele atualiza esta conclusão, ao indagar: “E como eu posso ser útil a você?”. Logo a pergunta foi respondida.


Enquanto bebiam, após conhecer o quarto dele e seu estúdio fotográfico, Hayley pede que tire algumas fotografias dela. Durante os primeiros enquadres, ele desmaia e por alguns segundos a história parece ser confusa. O “clímax” do roteiro forma-se a partir dos eventos que sucederam a esta perda momentânea de consciência: Jeff foi amarrado por ela e tornou-se fisicamente cativo ao seu interesse de aniquilá-lo. Ela utilizou uma substância que nos é desconhecida para provocar aquele desmaio e poder capturá-lo. Sim, seu intuito era fazê-lo sofrer, mas posso afirmar que mediante um sofrimento pouco convencional. Na primeira etapa, ela pretendia desvendar sua alma e seus segredos, a situação teria uma característica muito mais verbal, para, numa segunda, executar um plano que atravessaria a dimensão do corpo. 


Hayley anuncia que Jeff estava à caça de uma adolescente de sua idade. Ela o acusava de ser um voyeur, um molestador e pedófilo. Aos poucos, ela menciona casos de meninas que supostamente foram vítimas deste “cordeiro amordaçado”. Para Hayley, a declaração de Jeff de que ele não se relacionava sexualmente com as modelos que fotografava era falsa e ademais, ela procurou elencar sucessivas acusações contra ele.

Observem que primeiramente é estabelecido um setting profano pautado nas palavras que eram expressas por eles, ou seja, o horror relativo a quem ele era e quem foi de verdade e o que ela estava por realizar tinha uma característica de oralidade. Lembrem-se da imagem inicial da torta degustada por Hayley. Há um momento em que ela diz: “aposto que você tem coisas tão saborosas”. Desde então esta marcada uma correspondência entre o que diz respeito à oralidade e a obtenção consequente de prazer sexual. A princípio, o prazer da conversação via chat, seguido da degustação daqueles doces, e, posteriormente, a suposta satisfação obtida com as bebidas para chegar a presente situação do prazer na fala, em desvelar a alma do acusado por meio das palavras que ela o persuadia a proferir. É certo que há um prazer sexual possível a se obter a partir daquilo que é passível de incorporação. Essa ideia foi popularmente traduzida em: “pecado não é o que entra, mas aquilo que sai”.


Esta mesma frase serviria para justificar o próximo delito de Jeff aludido por Hayley: a pornografia. Ela relata que olhou em todas as partes da casa e não encontrou um item sequer – “estava pensando que essas fotos na parede talvez fossem a sua pornografia. Mas aposto que você não se masturba com elas”. Assim, ela descobre um cofre e se defronta com a tarefa de adivinhar a senha a fim de confirmar sua hipótese de que ali se encontrava o verdadeiro material pornô com o qual Jeff obtinha prazer. O que será que havia de tão proibitivo e particular para estar dentro de um cofre escondido entre pedras na casa de um homem que vivia sozinho? Quero ressaltar que a pornografia também pertence ao mesmo eixo de obtenção de prazer sexual já mencionado, a oralidade. Trata-se da introjeção de uma imagem criada (seja a partir de imagens reais, fotos, ou cenas reais ou imaginadas) que serve como estimulação física para fins de prazer autoerótico.


A cena do cofre, bem como todo esse verbal setting nos leva a seguinte questão: Jeff era realmente o “lobo mau” revelado por Hayley, ou as acusações e retaliações eram tão somente projeções dela? Quais eram os seus segredos e o que, na verdade, o fazia gozar? O que são os nossos segredos? Nesse momento quero aludir à palavra inglesa “core”, usada para definição daquilo que se encontra no núcleo, é o miolo de alguma coisa, o seu âmago, como o cofre de Jeff enquanto metáfora de sua Verdade Oculta. Tem segredos que compartilhamos com uma ou outra pessoa, tão somente, inclusive, aqueles que são contados ao analista. Mas o que dizer de “segredos do core”, para além do coração, mais do núcleo do miolo do âmago do ser, que você mesmo não quer lembrar de que eles existem e são teus? É desses que me refiro, “segredo-horror” que precisa ser mantido enquanto secreto. Nesse contexto, como se encaixaria a expressão hardcore? Faz sentido pensá-la como um núcleo duro, literalmente, ou seja, aquilo que é tão nosso que não pode ser descrito nem sequer verbalizado de maneira alguma, o átomo, o indivisível, o que não é passível de ser dividido com ninguém. Sim, era o hardcore de Jeff que Hayley queria trazer a consciência. Isso é ou não uma tortura? E não tem analista que, sem tato da ocasião certa, procura fazer o mesmo?

Hayley queria o hardcore porque ela era o hardcandy, um doce revestido de muito açúcar e chocolate, porém intragável, duro, difícil de ser incorporado. Ela se fez de advogada de acusação para obter uma Verdade, ela queria provar que Jeff era pior do que ela, que suas partes más se tornariam inócuas próximas ao grande pecado dele.


Num segundo momento ela se aproxima do “pecado dele” enquanto instrumento ligado ao corpo. Sim, a frase ficou esquisita. Mas o fato é que nesta parte a tortura sai um pouco do plano verbal para atingir a dimensão corpórea. Vemos um saco de gelo cobrindo a área genital de Jeff enquanto ele permanecia amarrado sobre uma mesa. Vocês entenderam o que está prestes a acontecer – “você é um escândalo em potencial. Todos ficarão mais seguros se eu fizer uma pequena manutenção preventiva”. Roupa de médico, lâmina de barbear, espuma e tesoura: ela pretendia castrá-lo. Acreditava que assim meninas estariam seguras de serem assassinadas por ele. Hayley tenta provar que ele tem um pênis composto de tudo o que há de mal, capaz de causar estrago ao mundo, que seu pênis esta associado à sujeira, tortura, ao sadismo e as perversões no geral. Portanto, “agonias impensáveis” são representadas nas cenas já formuladas na mente de vocês. É necessário acrescentar que o pênis de Jeff é também um hardcandy, isto é, quando ereto, é um doce tentador, mas que não deve ser provado – “aposto que você tem coisas tão saborosas”. A ereção é concebida como um alerta de perigo para a sociedade. Trata-se, assim, de um doce “envenenezante” que precisa ser rejeitado, que não pode sob circunstância alguma ser incorporado.


Dessa maneira, Jeff foi levado a descobrir seu hardcore, o seu cofre foi encontrado e ele teria que se haver com suas partes boas e com as más, principalmente. Como puderam notar, o meu intuito não foi analisar a presença de uma possível psicopatia em Hayley, mas sim a cena montada. Sobre esta, farei uma última observação, mas não menos monstruosa: há uma finalidade no horror da castração ilustrado no filme. Logo no início se tem a impressão de que Jeff  será o lobo-mau que usufruirá do corpo de Hayley, a levará para casa e fará sexo com ela unicamente para seu próprio êxtase, ou seja, que será uma relação sexual sádica e torturante, em que a jovem se submeterá enquanto virgem. Esta cena imaginária alude a uma prática de pedofilia, claro, e, por sua vez, remete a proibição do incesto, (o desejo sexual pelos pais existente apenas em estado latente). Ora, toda essa cena inicial é recalcada na mente do expectador e temporariamente esquecida, de maneira que a inversão de posições (Jeff como objeto) é sentida na consciência enquanto se assiste ao filme com um prazer sádico e sensação de alívio porque é mais fácil admiti-la do que a imagem em estado de recalcamento. Assim, tenha, portanto, cautela ao dizer em público que você precisa de um doce, algum julgamento a partir disso será inevitável.

Abraços a todos,

Renato Oliveira

20.12.13

um toque de hilaridade

As pessoas dizem que o casamento é uma instituição sagrada. E o sentido de estarmos aqui para nada mais é senão questionar as opiniões públicas pautadas em noções comuns. Sim, a presente ocasião é oportuna para a abordagem de sentimentos, aqueles terrificantes, somente. Estamos em família no filme Cousins (1989), pois o diretor Joel Schumacher faz um retorno a esse núcleo central que parece uma cartola de surpresas agridoces sempre quando seus membros escolhem o caminho da “falação”. 


Sabem aquelas reuniões em que as pessoas, depois de tempos sem se verem, colocam os updates em dia e sempre geram polêmicas desnecessárias, questionamentos adversos de quem casou e não casou e a piada do “pavê ou pacumê?!” Sim, o contexto era basicamente este. Embora seja desanimador esse retrato prévio, certamente se produziu um filme muito significativo para abordar os sentimentos consequentes da decisão de se unir a alguém. Ora, nossos quatro estimáveis sujeitos de pesquisa de hoje elaboravam exatamente este afeto, e como saber o que é estar em união senão a partir do medo de perder o objeto?


Os casais Larry | Ted Danson | e Tish | Sean Young | bem como Tom | William Petersen | e Maria | Isabella Rossellini | compareceram ao casamento de um tio idoso e hilário. O programa, como de costume, foi uma cerimônia religiosa seguida de festa. As pessoas estavam eufóricas, tanto que ao observar a cena você se pergunta (suponho) acerca da razão de um casamento evocar tanta adrenalina em um público! Será que estavam, na realidade, felizes pelo casal, ou por poderem usufruir da ocasião para satisfazerem seus próprios interesses egoicos, especialmente os de natureza oral? Pensem que o casamento enquanto celebração é, na maior parte das vezes, dividido em cerimônia e festa, a primeira associada ao religioso e, portanto, a diferentes figuras do sagrado, e o segundo pode ser diretamente relativo ao profano.


Ora, a este respeito, justifico-me: primeiro abençoa-se o ato matrimonial e se decreta que “somente a morte poderá separá-los”. Geralmente não se fala sobre ciúme, traição e perda da libido neste momento. Agora, durante a festa são suscitadas tanto as paixões quanto os prazeres propriamente carnais, inclusive, a voracidade. Existe coisa mais avassaladora do que a emergência destes dois elementos? São datas em que se fala muito e come-se em demasia e já não parece mais oportuno às pessoas ouvir um discurso de mais de cinco minutos.


Larry tentou falar em público e teve dificuldade em obter a atenção dos presentes. Ele queria falar de afetos, quando na verdade na festa havia espaço para o tesão e a fome, tão somente. Pois bem, reuniram-se, portanto, parentes, conhecidos e semiconhecidos, pessoas insuportáveis: 100, 50 e 75 por cento, respectivamente. E no meio da festa, após trocas de olhares, Tom e Tish afastaram-se dos demais, “sumiram” da visão dos convidados. Depois deste panorama nada otimista sobre as relações familiares em casamentos, é evidente que você já entendeu a sucessão dos fatos. Eles se conheceram neste dia, transaram, e em seguida retornaram às suas posições familiares. Porém devo acrescentar que mais inesperado que isso foi o encontro dos que não foram: Larry e Maria, que começaram a compartilhar doses do que eram eles mesmos enquanto aguardavam os cônjuges. 


“Você confia em mim?” + presentes nos dias seguintes = perfeita fórmula do “traidor”. Essa palavra tem mesmo uma denotação pesada, mas o fato é que com Tom podemos apreender o protótipo do comportamento de um homem que trai. Conversas frequentes e atípicas sobre fidelidade e entregar presentes inesperados a esposa são quase que uma assinatura do laudo do crime. Sem contar, que todos sabemos, via as evidências, de que homens tem menos talento para disfarçar delitos do que mulheres. Mas você não precisa concordar com as estatísticas. Sim, Tom traiu a esposa e o conceito de fidelidade emerge no filme a partir do oposto, a noção do que é não ser fiel. Esta concepção é reafirmada na cena em que ele vai atrás de outras mulheres com quem se relacionava sexualmente a fim de demarcar um fim de relação, porque sim, ele intentava continuar sendo infiel, mas apenas com Tish enquanto objeto.

Esta declaração expressa nos atos de Tom tem uma estereotipia antiga, óbvia e neurótica. Pode-se presumir desde então a existência de culpa inconsciente em Tom, de modo que ao dar presentes e aproximar-se dos filhos ele buscava reparar um dano consciente feito a um objeto, no caso, a esposa. Mesmo não tendo a confirmação se Maria sabia do fato, a solução inicialmente encontrada foi essa. Um adendo: Tish, de outro modo, era muito mais sutil, e sua conduta revelava possivelmente maior oxigenação encefálica. Ela perguntou a Larry: “você mataria um dragão por mim?” Ele respondeu: “um dragão bebê”. Talvez ela quisesse saber as extensões desse suposto amor e as dimensões do território atual em que encontrava seu casamento. 


Vamos agora para o outro casal. Qual era a dúvida de Maria? A fidelidade de seu esposo. Claro que ela suspeitou, e essa incógnita a fez procurar Larry para lançar luz nessas alamedas da mente. A emotividade feminina e masculina diante de uma questão delicada é brilhantemente expressa na cena em que ela, numa feira, não conseguia formular a pergunta, pois isso era seguido de ansiedade e angústia. Ela precisou dar algum indício da questão que desejava saber para que Larry a verbalizasse: “Se acho que o seu marido e minha mulher dormiram juntos? Eu não sei. Só eles sabem”. Ela menciona que ele parecia não estar preocupado e ele argumenta ao dizer que “sexo não é grande coisa”. Após a afirmação de Maria de que algo aconteceu, Larry se expressa nos seguintes dizeres: “Eu acredito na liberdade de escolha de cada um. Tish precisa crescer para ser sua própria pessoa. O que os outros fazem é problema deles. Você está livre para escolher. Isso é ótimo! Mal nos conhecemos e já estamos nos desentendendo”.

Enquanto ela elabora sua dúvida mediante uma posição cautelosa, porém ativa de investigação, ele apoia-se muito mais na riqueza do diálogo e no tom inconclusivo de seu próprio saber. Esse contexto fomenta uma questão que não pode ser deixada de lado: a fidelidade está ou não associada com a noção de posse de objeto? Imagine se em casamentos, o sacerdote dissesse: “toma, isso é seu e isso é dela. Um é do outro. Façam o que acharem melhor disso, mas não se destruam!”. 


Não encontramos na literatura psicanalítica clássica discussões aprofundadas sobre fidelidade no matrimônio, mas se aborda, com grande maestria, sobre amor, culpa e ciúme. As atitudes reparatórias de Tom pautavam-se em um embate de forças do superego com o ego, gerando culpa inconsciente ou pré-consciente. Muitas vezes é temível entrar em contato com a ansiedade decorrente da constatação de que um objeto foi destruído porque se usou contra ele tendências destrutivas ou sádicas. Olha, essa palavra não poderia ser colocada em local melhor, porque o cenário que foi formado e sobre o qual farei meus comentários baseia-se exatamente nisso: um jogo sádico de casais – Larry e Maria – que juntaram suas incertezas para brincar com a imaginação de seus amantes.

Tudo começou após a morte do tio recém-casado, a qual alude ao tema central do filme, a saber, a presença da morte da confiança após uma suposta traição. A brincadeira não consistia em “jogar com a mesma moeda”, mas sim em fazer uso de um recurso primitivo, porém causador de efeitos: o ciúme. Inicialmente, enquanto passeavam, viram chapéus a venda e Maria interessou-se por eles. Observe o intento dos dois: – “Aquele chapéu ficaria lindo em você!” – “Tom odeia que eu use chapéus” – “Então vou comprá-lo para você!” – “Não! (...) Mas a cara que o Tom faria... O que a sua esposa odeia que você use?” – “Cuecas samba canção, ela não acha sensual”. Sim, eles compraram ambos objetos e souberam como usá-los para atrair a atenção dos cônjuges.


Devo esclarecer que eles não se comportavam de maneira infantil, pelo contrário: com diálogos, empatia e amizade, eles foram capazes de suscitar em Tom e Tish uma incógnita acerca do que os fazia se darem tão bem. Aos demais, estava presente a dúvida se sexo fazia ou não parte da relação entre eles. Portanto, em um primeiro momento, o jogo de casais pautou-se na seguinte pergunta: “o que eles sabem sobre nós?”.

Nas horas em que Maria e Larry passavam juntos havia ocasião para que cada um se colocasse nesse convívio de acordo com suas próprias motivações internas. Eram períodos de declarações afetivas e poesia. Devo esclarecer que eles faziam uso moderado de acting out, ou seja, emitiam comportamentos de atuação para evocar alguma reação no outro. Os cônjuges e outros familiares ficavam intrigados com essa situação produzida. O ciúme de Tish e Tom era consequente da cumplicidade e do respeito presente no convívio de Larry e Maria enquanto elos afetivos. Não é bonito? Mas tem uma coisa mais. Não era apenas ciúme o que eles sentiam da dupla Larry e Maria, mas também inveja. Sim, inveja no ciúme. Qual a diferença?


Em linhas gerais, o ciúme ocorre em uma relação tríplice, está associado à noção de posse de um objeto. Assim, um terceiro objeto surge e é sentido como mau, como capaz de tomar para si o ser eleito e amado. Há também a elaboração de fantasias em torno desse objeto hostil. O ciúme tem início na vida mental quando os objetos são reconhecidos como seres totais – “cada um é um”, essa é a noção. A inveja, de outro modo, é muito mais primitiva, pois é sentida por objetos parciais. Observem que na fúria de Tom havia uma inveja em estado latente do pênis de Larry – não somente o órgão em si – mas aquilo que ele era suposto ter enquanto objeto de excelência e gratificador que despertou a atenção e o interesse de Maria. De modo similar, o poder de sedução feminina era o principal atributo identificado em Maria por Tish e tornou-se gerador de inveja.

É preciso ressaltar que Larry e Maria também experimentavam ansiedades enquanto jogavam. Afinal, a suposição de traição que lhes serviu como ocasião para o jogo era sentida com angústia, ainda que moderada. Eles riam da própria condição e faziam uso do lúdico, e essa possivelmente era uma ação defensiva do ego ao sentimento pré-consciente de ter sido traído. Em uma traição (não apenas as conjugais) descobre-se que o objeto estimado não é uma fonte inesgotável de amor, bondade e gratificações. Ele pode também ser mau, destrutivo e agressor. 


Com um encontro espontaneamente forjado em um restaurante, deu-se início a segunda etapa do jogo de casais – “testes de reação alheia”. Larry e Maria extraiam, com humor, uma determinada satisfação sádica ao perceberem que Tom e Tish acreditavam terem sido pagos com a mesma moeda. 

Culpa, ciúme e amor, para enfatizar. Era suposto haver sentimentos penosos de culpa em Tom e Tish, e foi com o intento de brincar com o jogo do ciúme que seus cônjuges criaram um cenário para a emergência de questões reais acerca do amor. É realmente difícil falar de amor como uma “substância pura”, mas como não se lembrar das palavras de Freud de que uma pessoa se sente muito segura quando sabe que é amada? Com a brincadeira de nossos protagonistas, essa segurança não somente foi abalada, mas retirada de cena, dando lugar ao ciúme e ao temor de retaliação. Ainda assim, será que existia amor nessas relações? A infidelidade é o resultado de um amor passado que não se articula mais no presente? 

Um dia uma pessoa estava na plataforma de uma estação de trem. Ela viu do outro lado o seu ser amado. Em instantes ele também a viu. Seu impulso foi correr para encontrá-lo. Apressou-se, desceu e subiu escadas, atravessou o fluxo de pessoas, até que chegou do outro lado e se deparou com o nada. Não havia ninguém ali. O ser amado havia feito o mesmo percurso que ela, e, encontrava-se, agora, na plataforma oposta a que ela estava, aguardando-a. Nesse momento ela se sentiu realmente amada.

Renato Oliveira

15.8.12

Sozinha ou acompanhada por dois?

Há inúmeras razões para justificar um casamento com comunhão de bens. E para virar um determinado filme ao avesso será preciso ter em vista esta simples proposição como eixo central. Para tanto se deve desde já considerar que as razões não serão tidas como as principais causas. A polêmica em si encontra-se em torno de noções sobre casamento, comunhão e bens. Deve-se desde então adiantar que os equívocos serão produzidos durante as tentativas de esclarecê-los. Com estes pressupostos em mente pode-se pensar que o diretor Neil Labute partiu da ideia de que uma aliança entre dois homens poderia ser concebida como solução temporariamente satisfatória a um drama. Quando dois homens decidem compartilhar um mesmo bem é certo que hilaridades e tragédias serão provocadas, podendo tornar-se explícitas por meio de verbalizações pontuais expressas no roteiro do filme Na companhia de homens | In the company of men - 1997 |.


Quando o refletir sobre as próprias frustrações torna-se ensejo para invenção um novo modo de resposta às impossibilidades. Em conversa sobre seus dissabores sentimentais, os companheiros Howard | Matt Maloy | e Chad | Aaron Eckhart | questionavam suas próprias ocupações e o lugar que assumiam na empresa e na vida 10 anos após o término da graduação. No discurso destes dois homens o feminino é apresentado como excluso de suas devidas prioridades. O término de um relacionamento servira de ocasião para produção de uma atitude de auto-sugestão – “devemos ser firmes” – conclusão esta tida como chave de todo universo. E para lidar com a falta Chad propôs uma espécie de revanche: eles elencariam uma mulher como alvo de seus investimentos afetivos, e quando esta se mostrasse suficientemente envolvida, eles “escapariam”. Neste projeto a verdade viria a posteriori e o objetivo central poderia ser resumido na sentença “vamos machucar alguém”. Sendo assim, a aliança entre estes dois homens admitia a comunhão de um único bem e a sustentação deste casamento somente seria possível em termos de uma identificação de gênero.


A filosofia que resume esta tarefa pode ser sintetizada nas palavras de Chad – “acho que seria reconfortante e terapêutico acabar com as mulheres que queremos” – destinando ao feminino um lugar-objeto. Assim, a eleita para estar na companhia de homens fora Christine | Stacy Edwards |, uma secretária surda recentemente contratada. Deve-se observar que ao mesmo tempo em que denunciavam a imperfeição naquela jovem, eles mostravam interesse em conhecer este terreno obscuro, marcado, em um primeiro momento, pela ausência de som. O mutismo neste contexto estivera relacionado com algo não simbolizado pelos executivos, de modo que eles a fizeram falar. No decorrer das semanas, Chad colocava-se nesta relação como um modelo, de modo que a Howard estava destinada a tarefa em reproduzir as intenções de seu companheiro. Ambos sustentavam a posição de querer-saber e querer-investigar.


Sobre a escolha de uma mulher surda pode-se inferir que eles supunham que ela seria incapaz de ouvir o verdadeiro discurso implícito em seus intentos, de modo que a não funcionalidade deste sentido a faria mais “objetificável” ao projeto. No entanto, pelo título deste trabalho indicam-se possíveis contradições a serem pensadas se tomarmos para análise o mirabolante plano de Chad e Howard. Afinal, conforme estabelecido, Christine se encontraria na companhia de homens. Observem que a palavra companhia detém em si a possibilidade de significados distintos: seja a ação de acompanhar, de conviver com alguém, ou, de outro modo, como sinônimo de sociedade comercial em um sentido corporativo. A companhia, portanto, admite contradições, tratando-se assim de uma espécie de trapaça do próprio significante por não possuir um significado único. 


Chad e Howard podem propositalmente serem descritos como executivos porque assumiram a demanda de executar uma atividade alienada em sua própria finalidade. O discurso manifesto de ambos que declarava a intenção de objetificar o outro não anula um discurso latente em querer dirigir-se a um outro para ser escutado em suas próprias inquietações. Se pensarmos em termos de uma contra-dição será possível assimilar que eles se orientaram por uma via oposta a seu próprio desejo, elencando aquela que não poderia ouvi-los em seu real pedido. Logo, uma mulher supostamente enfeitiçada não seria uma boa ouvinte para dois seres frustrados, contudo, ela não se manteria muda ao real endereçamento daqueles executivos.


Se o próprio significante companhia pode ser produtor de diferentes significações na cadeia discursiva, o que dizer de outros significantes produzidos na relação dos “companheiros” com Christine? O principal engano, portanto, é o do neurótico no significante, ao acreditar que o significado é fixo, colado e comum a todos. Por esta via pode-se ter a miragem de que os intentos de Chad e Howard atravessariam os princípios da linguagem. Assim, seria necessário que o último significante fosse colocado em ato para que retroativamente se extraísse um significado. Não há dúvidas, portanto, que casamentos são investimentos arriscados, mesmo quando os envolvidos compartilham de um único bem. 

Risos e chá,
Renato Oliveira

30.10.11

Impulsividade ou maestria?

Eu confesso a vocês que culpa e inocência são palavras chaves para a análise de hoje. São adjetivos paradoxais, sabemos disto, e ao mesmo tempo inspiraram muitíssimos filmes de gênero noir, nos anos 40 e 50. Ao falar em cinema noir é inevitável não se remeter à histórias sobre crime, acusações e chantagens. A princípio, gostaria de esclarecer que ele é inocente: este é o pressuposto principal que dará enredo a todo o conflito que o super Hitchcock – o grande Mestre – nos apresenta em “A tortura do silêncio” | I Confess – 1953 |. Conheceremos um injustiçado e nos envolveremos com a história deste homem que nada sabia sobre o seu suposto crime e sua propensão para amar. O silêncio será torturante e uma moderável agonia estará presente por todo o tempo. É nesta atmosfera relativamente fúnebre que adentraremos para conhecer um homem que saiu para roubar e, no entanto, realizou um assassinato. 


As primeiras cenas do filme acompanham o caminhar do mr. Otto Keller | O. E. Hasse | um funcionário de uma igreja que nesta ocasião, vestido como um padre dirigia-se à residência do Mr. Villette | Ovila Légaré |. A seguir vemos o corpo deste homem estirado ao chão para depois acompanharmos os passos do mr. Keller pelas ruas escuras em direção ao santuário: após assassinar aquele homem, ele foi à procura do padre com o intento de confessar o crime. A descrição do assassinato foi ouvida pelo padre Michael Logan | Montgomery Clift | que, em concordância com os preceitos religiosos, prometeu-lhe não revelar este segredo às autoridades daquela cidade. Parece-nos evidente que a escolha de uma “fantasia de padre” não foi ao acaso e já podemos maleficamente supor que os padres locais tornariam-se os principais suspeitos pela autoria do crime. Foi exatamente o que aconteceu. Mas a acusação principal recaiu aos poucos sobre o Pe. Logan – o detentor da verdade sobre o caso – mas que não poderia, sob circunstância alguma, revelá-la. 


Os padres tornaram-se suspeitos de assassinato após o depoimento de duas meninas que alegaram ter visto um padre próximo à residência do mr. Villette em torno do horário em que o crime ocorreu. No entanto, os indícios que apontavam Pe. Logan como um possível culpado foram sendo listados aos poucos, os quais não surgiram do nada e não se restringiam a meras suposições da equipe de investigação. A suspeita de envolvimento no caso teve seu início após Logan ter sido visto junto a Ruth Grandfort | Anne Braxter | em frente à casa da vítima, na manhã seguinte. Aqueles investigadores a princípio não sabiam que Logan e Ruth compartilharam, em momentos passados, de um laço sentimental. Talvez, em circunstâncias favoráveis, eles haveriam se casado, e assim sendo, Logan não teria se dedicado à vocação religiosa e nem seria, neste exato contexto, alvo de acusação criminal. 


Os pequenos momentos em que Logan e Ruth se encontraram foram atentamente observados por detetives e instigaram ainda mais as investigações quanto ao possível envolvimento do padre na morte de mr. Villette. As evidências se tornaram ainda maiores quando Ruth apresentou seus argumentos em defesa do Pe. Logan, alegando que no horário do crime eles encontravam-se juntos. Na tentativa em salvá-lo, ela criou uma rede de hipóteses e interrogações na mente daqueles detetives. O que você disser poderá ser usado contra ti – um certo clichê, mas que retrata muitíssimo bem o que aconteceu. Ruth não foi compreendida do modo como esperava, ao comunicar-se ela revelou fatos que foram usados contra suas próprias convicções. Os efeitos do discurso de Ruth acompanhado das suspeitas daquelas autoridades elegeram o Pe. Logan como o principal e possível autor do assassinato e o conduziram a um tribunal que analisaria a procedência dos fatos. 


Parece-nos praticamente evidente que Logan não precisava passar por isto. Afinal, ele sabia muito bem que o verdadeiro responsável pelo crime era o mr. Otto Keller – o qual mostrava-se indiferente a todas estas ocorrências. Ele não se considerava culpado, pois afirmava que não pretendia matar, mas somente roubar uma certa quantia para dar uma vida mais digna a sua esposa. É curioso como as concepções de cunho moralista estão presentes neste roteiro. Logan poderia anunciar o agente do crime, no entanto, não faria. O encontro com o discurso do criminoso revelou um saber da ordem da impossibilidade em ser reproduzido. Logan ouviu e, de acordo com a instituição da Lei, não poderia anunciar, pois um pacto simbólico estava previamente selado entre ele, enquanto autoridade e sacerdote, e aquele membro da comunidade. Esta aliança, em muitas circunstâncias, pode ser pautada na confiança de que há um Outro depositário de um saber absoluto, tido como verdade confessável, mas merecedora de punição. O silêncio de Logan diante do outro refletia sua submissão à ordem religiosa e sua castidade. No entanto, haveria um limite, uma suportabilidade? Até que extremo ele seria capaz de tolerar a agonia do silêncio para não burlar uma ordem estabelecida? Diante deste escândalo, Deus o perdoaria?


É possível considerar que o Pe. Logan encontrava-se a serviço de dois senhores: do supereu (agente moralista introjetado) e da realidade externa. Para conciliar a demanda destes dois “mestres” ele admitia o silêncio colocando-se em uma condição de não-saber. A proibição era bastante perspícua: “você não pode revelar, durante o tempo em que for padre”. A lealdade de Pe. Logan mostrava-se soberana a seu próprio querer, enquanto sujeito. Ele seria torturado pelo seu próprio silêncio e pelo desejo em burlar a lei a qual tornou-se cativo. Embora todo este conflito seja decorrente de um escândalo social, não é necessário que crimes ocorram para que o sujeito seja dividido na agonizante tarefa em ter que atender a diversos senhores. Freud (1923) institui oficialmente a existência de um aparelho psíquico no qual o ego, enquanto instância central da personalidade deve conciliar exigências de diferentes agentes: id, supereu e a realidade externa. Os desejos primitivos e de ordem inconsciente anseiam satisfação, mas que, no convívio civilizatório, terão que ser modulados conforme a instituição da própria Lei, que é externa ao sujeito – autoridades sociais, líderes religiosos – e também interna – Supereu, agente tirânico, obsceno e opressor. O autor observa que quanto mais um homem controla sua agressividade para com o exterior, mais agressivo ele torna-se em seu ideal de ego. O sentimento de culpa pode ser decorrente da incapacidade do ego em atender as exigências pulsionais do id sem infligir as normas do Supereu e da realidade externa.


Sabemos que o sujeito é cativo à discursos sociais que apresentam-se, muitas vezes, como um saber absoluto e irrevogável, que incide apresentando modelos idealizados e normas de conduta a serem seguidas. Diante deste outro, cabe ao sujeito à contínua e árdua tarefa de operacionalizar o seu desejo em relação ao mundo. A verdade confessável de mr. Keller teve desdobramentos que, a princípio, pareciam inimagináveis. Observamos que Logan, enquanto autoridade eclesiástica foi desafiado pela suposição de seu dom, sua vocação, sendo torturado por seu silêncio e por uma demanda de amor que o fazia maquinar seus próprios impulsos. 

Até a próxima, queridos!
Passar bem.

Renato Oliveira