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22.3.18

dançando até a glória

Promessa feita e não cumprida. Uma vez, ao assistir “A noite dos desesperados” (They Shoot Horses, Don’t They?, 1969) a conclusão foi de que a obra não seria revista. No entanto, sabe-se que na produção de Freud se encontra a noção de que as repetições na vida cotidiana não se restringem às experiências de satisfação. Logo, para que esta resenha fosse escrita, rever este filme pareceu uma tarefa imprescindível. Em síntese, esta direção de Sydney Pollack diz respeito ao espetáculo do casal capaz de dançar por mais tempo em um teste de resistência. Os candidatos batalhavam por um prêmio em dinheiro e alguns deles também pela chance de ascensão na carreira artística. Para tanto, deveriam dançar por uma sucessão de dias ou meses, com intervalos de apenas dez minutos a cada duas horas. Se caíssem, estariam eliminados. É curioso notar como a própria regra do jogo é reveladora por si mesma: o verbo cair indica ir ao chão, desmoronar, perder o controle e também representa um possível estado de esgotamento, de limite. Era isso o que estava em questão. Privados de sono, atividade sexual e qualquer contato com a realidade externa, a incumbência imposta e aceita era tão apenas dançar e correr em maratonas organizadas. 


Todos estavam propensos a cair. A personagem Gloria (Jane Fonda) juntamente com seu par Robert (Michael Sarrazin) protagonizam a condição de inibição instintiva a qual estava o grupo submetido. Para o alcance de uma meta profissional, ela decidiu jogar. Ainda que com uma capacidade de apuração crítica do espetáculo, Gloria tem uma visão parcial do jogo até ser conduzida ao entendimento de interesses implícitos na organização daquele evento. Sua oferta era o seu corpo, bem como os limites deste, seu principal adversário. O nome da personagem chama a atenção. Afinal, que glória buscada era aquela que implicava uma negação de si própria e abandono a condições precárias de sobrevivência? Dentre os candidatos, havia aqueles com uma tendência maior em enlouquecer em menor tempo. Era um espetáculo estapafúrdio e o andamento do projeto em nada mais implicava senão na exposição de “guerreiros” cada vez mais esgotados, ávidos por vencer, porém com toda propensão à queda. Vale notar que despido de um filtro analítico, este é um filme de entretenimento. O ambiente até mesmo tem ares circenses. Há os que se divertirão com a miséria humana, tal como ocorre nos dias de hoje em reality shows.

Os candidatos que conseguissem não ser desestabilizados pelas circunstâncias iriam longe no jogo. É certo que They shoot horses, don’t they? fornece material para a análise da audiência gerada pelos atuais programas de reality shows ao mesmo tempo em que parece ser um filme profético ao anunciar uma fórmula que faria sucesso em décadas futuras. Contudo, pode-se destacar que sua linguagem é metafórica, pois diz respeito à busca pela sobrevivência humana associada a uma negação do próprio ego. Esta condição se relaciona a um contexto, o das relações de trabalho, dada a semelhança com a luta competitiva, a necessidade de sustento e a busca por reconhecimento profissional. 

A inibição da vida instintiva, conforme postulada por Freud, diz respeito à forma como os impulsos sexuais eram desviados de sua meta podendo ou não ser canalizados em fins não-sexuais socialmente aceitos. Esta leitura reflete a realidade de sua época ao mesmo tempo em que possui simetria às condições de trabalho hoje. Sabe-se que no mundo moderno não se trata exatamente da negação sexual plena, mas impera a mesma ordem de inibição, na qual o sujeito deve renunciar a seu próprio ego, reprimir seus inquéritos e não expressar suas reais opiniões para que não seja eliminado do jogo. O trabalho numa ótica do sonho capitalista esta associado diretamente a um lugar de reconhecimento e implica a necessidade de autonegação bem como a capacidade de suportar “calado”. Não por menos o termo “workaholic” se apresenta como atribuição de mérito àqueles que canalizam a energia libidinal em superar seus limites em horas trabalhadas. O desafio que assumiram diz respeito, como no filme, em manter-se de pé por um tempo recorde, a despeito das consequências físicas ou emocionais. Seguindo este entendimento, o corpo não apenas é produtor, mas é o espetáculo em si. As excessivas horas trabalhadas bem como a negação do corpo biológico em nome do “ideal sonhado” refletem que este corpo esta sob efeito de um discurso que o faz ficar de pé, tal como “no pain no gain” (sem dor, sem ganho em inglês). Esta submissão quando alienada indica que a negação de si e o “manter-se de pé” assumem vias de normalidade. Não por menos este padrão é requerido no meio corporativo, que seleciona pessoas dispostas a pegarem suas cruzes, negarem a si mesmas e continuarem dançando, sem cair.

É compreensível que a personagem Gloria não desistiria tão fácil do jogo, pois embora a perspectiva de glória estivesse colocada para todos, nela esta se encontrava encarnada mediante o nome próprio. Ainda assim, a complexidade da personagem não se restringe a uma nomeação e pode ser analisada a partir da força gerada frente ao desafio bem como pelo gradual desfalecimento de seu corpo prestes a ver a glória. Certamente esta obra de Pollack alude ao “no pain no gain” dado que é um filme que ao provocar reflexão pode gerar mal-estar ou incômodo.

Renato Oliveira

14.11.16

kieslowski e a trilogia do bege

Krzysztof Kieslowski: um homem de poucas vogais, como é notório, contudo o que para alguns talvez não seja tão evidente assim é que ele foi um realizador cinematográfico que deixou um dos maiores legados para a humanidade. Para empregar um termo da psicanálise – e tornar esse escrito mais particularizado – seus filmes são obras fundantes. A respeito da “Trilogia do Bege” você não leu errado, dado que o senhor K. é atualmente conhecido por seus trabalhos finais intitulados “A trilogia das cores”. Ora, é certo que tais filmes derradeiros têm seu mérito, porém o cinema do polaco não se restringe aos mesmos. Desde o final dos anos 60, ainda enquanto estudante de cinema, ele já mostrava uma sensibilidade ímpar ao retratar a condição humana. Numa aproximação com a psicanálise, vale destacar seu objeto de filmagem numa declaração estilo Kieslowski por ele mesmo: 

“o campo das superstições, adivinhações, pressentimentos, intuição, sonhos, 
todos compõem a vida interior de um ser humano, e essa é a condição
mais difícil de se filmar. Tenho tentado chegar lá desde o início”. 


Nota-se que sua intenção era produzir um cinema autoral pautado numa abordagem sobre o humano e suas relações. É comum à Freud e Kieslowski a concepção de que há sujeito, um ser que pode existir mesmo quando reduzido pelas mãos do outro à mera força de trabalho. É por isso que na trilogia “do bege” que aqui será abordada – composta por três filmes dele do período de filmagem na Polônia – se destacará, acima de tudo, sua visão de homem. Há um elo de análise interessante entre os filmes “Pessoal” (1976), “Cinemaníaco” (1979) e “Calma” (1980). Em cada obra, destaca-se o lugar do indivíduo no ambiente corporativo e nas relações de trabalho. 


Em  “Pessoal” tem-se um jovem protagonista que, impossibilitado em dar continuidade aos estudos, obtém um emprego num ateliê de confecção. Ele testemunha a diferença hierárquica entre a equipe de produção e os atores/gerência, ao mesmo tempo em que se fascina pelo teatro. As oficinas de costura e cenografia enquanto "lugares do fazer" são mostradas como destituídas de sua importância pela gerência. “Cinemaníaco”, por outro lado, apresenta uma suposta ascensão do artista, que ao comprar uma câmera modelo “super 8” para realizar filmagens da filha, é convidado pelo administrador da empresa para filmar situações de interesse corporativo. Aos poucos, o protagonista abdica de seus interesses pessoais para atender a demanda ofertada. O roteiro do filme desvela a diminuição do sujeito em razão dos interesses de um grupo, ou seja, a “perda do eu” resultante da entrega de si próprio enquanto total mão de obra utilizável. Já a narrativa de “Calma” aborda um homem recolocado profissionalmente após três anos em uma prisão. Ele busca reconstruir sua vida e inicialmente não identifica a cisão corporativa entre o trabalho prescrito e o executado. As relações de trabalho são mostradas enquanto produtoras de uma identidade pessoal, de maneira que cabe a pergunta: como o sujeito continuará a existir se reduzido apenas a uma força de trabalho? Vale a alusão ao mal-estar civilizatório conhecido a todo aquele que já andou com Freud. A tese do autor de que a vivência social implica numa renúncia às pulsões pode aqui ser pensada não só numa alienação do trabalhador, mas principalmente em sua ausência de voz. Um fator complementa o outro: alienado por não poder falar – não haver sujeito porque o ambiente esta formatado para que os envolvidos renunciem seus impulsos, em especial, quaisquer críticas e agressividade. 

Kieslowski anuncia a existência da falta ao mostrar processos esvaziantes de sujeito, mas sua abordagem não é pessimista. Assim como Freud postula mecanismos de defesa pessoal, o polaco filma a defesa enquanto reação do indivíduo e de um grupo. Em “Pessoal”, o principal personagem reúne-se a um grupo de discussão acerca dos problemas locais; “Cinemaníaco” expõe a recusa e reflexão do próprio protagonista frente à atividade que de amadora tornou-se profissional. Ele se põe a pensar quanto a importância de sua família e ao significado das filmagens caseiras quando atender aos interesses da empresa tornou-se sua prioridade máxima. Em “Calma” se testemunha um grupo de oposição quando os funcionários, cientes da posição que lhes era atribuída, denunciam a injustiça local. A dificuldade de um funcionário para fazer-se sujeito e ter sua opinião ouvida torna-se menor quando ele se insere em um grupo reunido por objetivos comuns. A redução do sujeito à força de trabalho conforme os interesses de uma gerência foram tema de reflexão e análise de Kieslowski, que em sua abordagem revela um mais além ao mostrar um movimento contestatório. Há uma essência propriamente humana que em seus filmes é mostrada a partir da atitude do sujeito em questionar sua posição quanto ao desejo no outro. Logo, esse sujeito-freudo-reagente permanece, ele encontra forças e significado para existir além do prescrito e da monotonia do bege.

Renato Oliveira

15.7.15

filmar e punir

Acho fascinante a experiência de rever filmes vistos a long time ago e ter a sensação de nunca tê-los visto. ~~Coisas do subconsciente~~ alguém poderia dizer. É ao som de hardcore que se inicia Ken Park (2002) e se por acaso parece que será uma comédia teenager-pastelão, essa impressão subitamente se esvai quando um jovem, junto aos skatistas retira uma filmadora da mochila e uma arma. Em seguida se mata – "o nome dele era Ken Park".


Filmes alternativos: uma iniciativa nobre e profícua para mostrar aquilo que a censura não deixa. Longe de ser um conhecedor do gênero, sei, contudo que grandes são os desafios daqueles que desejam realizar obras cinematográficas sem para tanto terem considerável apoio financeiro e marketing. “Cavar lugar” é o tipo de missão que alguns assumem a responsabilidade de aceitá-la. A minha opinião é de que os cidadãos Larry Clark e Edward Lachman fizeram um significativo buraco e hastearam uma bandeira ao realizar esse filme. É certo que a metáfora não é das melhores, mas é uma forma de expor minha acepção de que o resultado ficou fantástico e digno de apreciação! Vida longa, portanto aos amigos que ousaram enfrentar a censura ao realizar filmes, cada um à sua época. 

Sobre o filme a ser comentado, fico a imaginar como foi a determinados círculos sociais recebê-lo há 13 anos. Não há necessidade de fazer mistério acerca de seu conteúdo: é um filme com cenas de nudez e sexo, tão apenas. Ao pensar na dicotomia entre revelar e ocultar, é certo que, em vocabulário simples, uma das principais descobertas de causa analítica é a de que o homem, por razões de seu conforto mental, esconde coisas de si próprio. Assim, o roteiro é pautado, primordialmente, na exibição de sentimentos ocultos no âmbito doméstico trazidos a tona.


Após a cena de suicídio, são apresentados os quatro protagonistas em questão, todos adolescentes e imersos em circunstâncias familiares perturbadoras. Acerca de detalhes do cotidiano desses falantes, me detenho a relatar apenas o estritamente necessário ao que pretendo comentar em seguida. 1. Shawn | James Bullard | >> submetia o irmão mais novo à prova de amor numa quase exibição de bondage – “diga que sou seu mestre e você me ama”. Fazia sexo com a jovem e sensual sogra. 2. Claude | Stephen Jasso | >> vivia com uma mãe grávida e um pai hábil no supino (levantamento de peso). 3. Peaches | Tiffany Limos | >> órfã de mãe, morava com um pai religioso para o qual a falecida ainda estava muito vivamente presente na vida deles. 4. Tate | James Ransone | >> vivia com avós e não denotava ter afeição por eles. No jogo de palavras, formou “whiplash” (som do chicote).

Ainda com este intuito de síntese, quero responder a pergunta quanto ao que ocorrerá no decorrer da história sem que, para tanto, o final do filme seja revelado. A resposta chega a ser blasé: a vida deles será mostrada em articulação com suas particulares relações com o sexo, o corpo e a agressividade. Podem-se destacar alguns elementos que se repetem, úteis para se elencar similaridades entre os principais envolvidos.

Shawn, Tate e Peaches submetiam alguém a soft bondage (dominação leve), os meninos utilizavam o irmão mais novo e um cachorro, e ela, amarrou às grades de sua cama um “colega de igreja”. O tom de ameaça que Tate falava com o animal era similar ao empregado pelo pai de Claude, que também se envolvera em prática agressiva, só que demasiadamente hostil, ao insistir para que o filho levantasse um pesado halter e ao agredi-lo após quebrar seu skate.


Nota-se que Peaches, assim como Claude, estavam colocados em um ideal de eu pelos pais. No primeiro caso, o viúvo a exortava quanto ao cumprimento do dever religioso, de modo que a filha era associada à “imagem virginal” da mãe. Claude era não correspondente ao lugar de idealização, seu pai o desmerecia, o rebaixava a condição de ser fraco, desde o momento em que o acusava de não ter músculos. Essas acepções se reforçam, em conversa com a esposa, ao referir-se a ele como “a menina da mãe”. Não é somente o retrato de um pai tirânico, é primordialmente a apresentação de uma hostilização gratuita, sem causa. A intensidade desse sentimento é similar a “cegueira religiosa” do pai de Peaches.

São muitos nomes mencionados ao mesmo tempo, contudo, creio que com estes poucos exemplos é possível àqueles que não viram o filme assimilar que a atmosfera produzida não é doce. Trata-se de jovens diariamente convocados a dar provas de força, a corresponder a ideais estabelecidos e a lidar com uma censura socialmente imposta. Os diretores tiveram uma iniciativa parecida com a de Freud, no início de seu trabalho: falar sobre relações perturbadoras em seu caráter de normalidade. Ora, as situações retratadas podem parecer, numa percepção superficial, como a descrição do “mundo caótico” de adolescentes, do desafio de “crescer com dores” e adaptar-se ao mundo ET AL. No entanto, não compartilho dessa opinião. Os protagonistas não são meramente vítimas, e sim falantes em uma sociedade marcada pela censura e pelos ideais compartilhados.


O clássico comentário de Freud – “somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro” – é uma ótima ilustração. Ele anuncia que se espera do sujeito força para enfrentar o teste de realidade, noção difícil de conceituar, mas que se refere ao poder de suportabilidade social. Vejam os termos isoladamente: ferro, força, poder e suportabilidade. Todos aludem à noção fálica. Claro que há pênis no filme, mas não é de órgão sexual nem mesmo de sexo que se trata, mas da censura dos sujeitos um sobre os outros. Aqui o ato de censurar não esta relacionado à imposição de limites em medidas educativas, mas sim a iniciativa em tolher a liberdade do indivíduo, à suposição de que as pessoas não são capazes de escolherem por elas mesmas e sobretudo ao sadismo de impor-se como o mais forte. Quem assume este papel? Não são os nomes que serão citados, mas sim os lugares em que esse tipo de controle é exercido: famílias, empresas, escolas e mídia.

A experiência inicial de Freud com a psicanálise revelou a censura como um elemento das relações sociais, uma noção que ele tão brilhantemente articulou com a moral sexual civilizada. Claro que é inviável tecer correlações pormenorizadas da sociedade daquela época com a nossa realidade tupiniquim, contudo, a principal comparação que ouso comentar é referente ao desprendimento dele e a produção do filme: ambos retratam a posição do sujeito frente ao proibido. 

A teoria das pulsões, desde quando se falava em pulsões de autoconservação, foi um conceito enriquecido pelo que se pode apreender do sujeito em sua relação com os fenômenos de amor, agressão e sexualidade. Em linguagem comum, “pra que a coisa fique bem, é bom que as pulsões andem juntas”, ou seja, fundidas. Uma espécie de encontro da tendência à destruição com as vivências no campo do amor, da construção, do elo social. O filme, todavia é um verdadeiro retrato da desfusão das pulsões.


A relação sexual de Shawn com a sogra seguida pela briga de Claude e seu pai ilustra essa acepção acima. Tem-se um jovem em playground no corpo do outro em investimentos de prazer, na primeira cena, e uma intencionalidade em destruir, na segunda. A problemática de quando uma pulsão se manifesta sozinha se dá pela tendência ao aniquilamento do objeto.

A crueldade da tratativa do pai de Claude, difícil de ser detalhada, desperta, ainda assim, uma indagação: com base em que? Qual a razão da hostilidade? É necessário haver motivo ou determinadas relações familiares são propriamente hostis por sua configuração? Tenho uma hipótese: a hostilidade pode ocultar um desejo de incorporação. É uma atualização daquele princípio adolescente-escolar em que dois jovens que se detestam, podem vir a se casar. A conduta hostil é uma defesa para não admitir um sentimento tido como repulsivo. O objeto é atacado numa espécie de tentativa de provar a si próprio o quanto ele é detestável. Sem querer fazer “psicanálise de portão”, saiba que se um dado número de pessoas te detesta, considere que você possa ser objeto do desejo de grande parte delas. A dica é: não responda desse lugar e não siga conselhos.


As atividades sexuais e as drogas, mostrados com naturalidade, exatamente como deve ser, nesse contexto aludem à noção de que os infortúnios da vida cotidiana precisam ser compensados. E como Freud mencionou, a compensação deve ocorrer com medidas paliativas que possam equivaler à frustração experimentada. Os recursos para a suportabilidade são descobertas resultantes da busca por prazeres que amenizem as vivências ruins. Isso não significa, de forma alguma, que o sexo seja paliativo, mas ajuda-nos a pensar na alienação de práticas compulsivas. 

Ken Park pode até ser um filme para adolescentes, mas não somente. A certeza é de que não é um filme de adolescentes, uma vez que sua essência não é retratar um universo jovem, mas sim fomentar uma discussão em torno da censura. A exibição de cenas de órgãos genitais geralmente proibidas pela indústria cinematográfica é tema de discussão justamente ao se fazer o que não pode.


A propósito, Claude comenta sobre uma sociedade em que os envolvidos transam até 16 vezes ao dia – “é tipo uma sociedade perfeita, nunca ninguém briga, se dão todos bem”. Por fim, ele questiona se esta seria ou não uma sociedade utópica. Ainda sobre os fenômenos da sexualidade, não penso que o problema esteja na existência da lei, mas sim o enjaulamento do sujeito baseado em regras que estão além do "não pode", pois contemplam o estabelecimento de modelos e formas aceitáveis. Ademais, é assustador a rigidez disso, a alienação na forma como normas de comportamento e padrões de beleza são aceitos. Em síntese, toda uma educação moral civilizatória cujo enquadre do sexo deixa pessoas de fora, delimita posições e reforça uma transgeracionalidade sexual opressora. Vive-se ainda tempos de "doenças de sexo", cuja origem é um sepultamento, uma rigidez moral que bloqueia o diálogo e o conhecimento do corpo. 

Acredito que o inverso da censura, no contexto hostil em que ela foi abordada, seja a liberdade do sujeito com responsabilização. É nessa direção que o filme culmina, quando ousa mostrar-nos possíveis cidadãos livres, cuja ilustração somente pode ser possível se iniciada com uma liberdade em relação ao conhecimento do próprio corpo. Foi, portanto sobre certas “coisas ocultas” trazidas à luz em filme que se abordou aqui, às quais, uma vez consciente, aumentam o valor de veracidade da experiência de encontro.

Com afeto,
Renato Oliveira

10.3.14

a vida durante a guerra

A sorte de hoje é que você não é a personagem principal deste filme. Agradeça ao Universo por isso. Afinal, o maestro da presente ópera é mestre em selecionar pessoas em lugares públicos para transformá-las nos agentes de seus pesadelos. Tudo acontece porque a sociedade existe e funciona exatamente do jeito que você esta pensando. E sim, ele continua afim de expor certas verdades: Todd Solondz!!!

Não há dúvida de que os trabalhos de Todd são “a cara do Cine Freud”, são filmes que nos permitem uma ácida revolução sem sair do lugar de modo que elaboremos alguma coisa sobre o homem hoje. Exato, homem como sinônimo de humanidade. Hoje você irá rir e chorar internamente e não há dúvida de que o principal infeliz da história não estará aqui para se defender. Com efeito, a narrativa é sobre um homem que não queria crescer – ou será que ele não podia? Nós iremos desvendar alguma coisa de muito singular a ser extraída do galope deste cavalo negro | Dark Horse (2011) |.


Os personagens criados pelo fulano anteriormente citado geralmente são seres excêntricos, com um senso de observação da realidade e cativos às suas próprias ilusões. Se comparado com os demais, eles estão sempre em outro ritmo. Abe | Jordan Gelber | era assim e numa festa de casamento ele observava desinteressadamente pessoas eufóricas que dançavam como se não existisse amanhã. Nesta ocasião ele flertava com Miranda | Selma Blair | e sem insistência alguma conseguiu obter o telefone da jovem moça. Claro que ele almejava sair com ela, e por essa razão a contatou no dia seguinte. Ademais, em sua casa, ele se esquivava de qualquer proximidade com seus pais e se refugiava em seu próprio mundo – o fatídico quarto, um espaço repleto de heróis em miniatura, brinquedos, figuras de aviões, carros e afins.


Nosso camarada dirigiu-se também a uma loja de brinquedos, e com a mesma imponência com que tratava seus pais e pessoas da empresa, ele exigiu a troca de um “herói de plástico” que continha um “defeito”, isto é, um pequeno risco. Vale desde então considerar a existência do interesse de Abe por “brinquedos perfeitos” e pela conquista daquela jovem bonita e “não quebrada”, mas ao mesmo tempo tomada por uma apatia abrupta! Exato, no dia do encontro, ela parecia não se recordar de ter firmado algum compromisso com ele, e os assuntos da conversa não poderiam ser mais peculiares: adoção, consumo de cigarros... Câncer nos testículos (sim, em ambos). E sim, para Abe, acertar a lata de Coke Diet na lixeira valia dois pontos. 


Mas acontece que havia um cântico de esperança para ele. Em seu carro, ele ouvira uma música que dizia o seguinte: “hoje será o dia perfeito para viver a sua vida e fazer qualquer mudança. Você pode ser quem quiser. Dia de levantar e escolher seu próprio caminho. Agora é a hora de procurar o céu”. Inspiração máxima! Tanto que nesse mesmo dia ele pediu Miranda em casamento. Ela teria todo o tempo para pensar a respeito. Eloquência e intrepidez não faltavam ao jovem moço! Indiferença, também não: em sua volta a casa dos pais, sua atitude para com eles era de pleno descaso. Devo declarar que tempos depois, a resposta dela ao pedido foi: “quero querer você, é o que me basta”. E ao beijá-lo, concluiu: “isso não foi horrível, as coisas poderiam até ser piores”.

É certo que um fato estava posto em cena: Abe se relacionava com as pessoas empregando constantemente o mecanismo de divisão, para ele os objetos estavam cindidos em seres idealizados (Miranda) – para com a qual ele se comportava como uma “criança feliz e esperançosa” – e seres desprezados (seus pais, funcionários da empresa, e o mundo em geral), e para com esses sua atitude era de notória revolta. Ele rejeitava uma aproximação aos mesmos, enquanto frente a ela se mostrava muito mais falante, flexível e demandante. Na idealização havia a presença de amor, confiança e entusiasmo, enquanto para com os objetos da outra categoria supracitada, é a indiferença, a desconfiança e a hostilidade que imperavam. 


Para ele, o casal parental era concebido como uma união imperfeita. As ansiedades suscitadas pelo mesmo eram amenizadas na fantasia inconsciente de Abe também mediante a divisão. Ora, Jackie | Christopher Walken | era ao mesmo tempo pai e chefe, ambas as posições que se associam a um lugar de poder. É bastante provável que a indiferença de Abe para com ele ocultava um real temor desta autoridade bem como um inconsciente sentimento de inveja edípica primitiva. Em conversa com Phyllis | Mia Farrow |, sua mãe, nosso cavalheiro murmurava: “papai é tão babaca. Quero dizer, eu sempre sou tão legal com ele. Por exemplo, mostrando como ligar a TV e outras coisas”. Ele mencionou, inclusive, a hipótese de fugir de casa. Em relação à figura materna, contudo, o relacionamento tinha uma configuração distinta, pois, primeiramente, esta era posta em cena como “a outra peça do jogo edípico”, afinal, eles disputavam dinheiro no jogo de gamão e esta lhe devia 845 dólares. Como uma criança que não suporta ouvir “não” ou “espere mais um pouco” ele revogava que lhe fosse destinado um cheque como pagamento. Ademais, ela era um ser compassível, colocada e sentida como mediadora no embate entre pai e filho “já crescido”.


Este cenário complementa-se, por fim, com a figura do irmão Richard | Justin Bartha |. Não farei comentários referentes a aparência dele. Como talvez dissesse Freud: tirem conclusões da experiência de vocês em ter um irmão médico, brilhante e bem sucedido em todas as áreas da vida. Claro que Abe o odiava e que Richard [Dick] era o predileto dos pais, e – agora vem a parte drástica – dizia Phyllis que amara os dois filhos de igual modo, sem acepções. Vamos lá, não há como não elencar a possibilidade de que Dick representasse um objeto ideal de Abe expelido, que na realidade externa era odiado por materializar-se como um ser cuja perfeição era impossível de ser atingida. O ódio e a inveja inconsciente eram torturantes para serem assumidos na consciência de Abe, de modo que para se livrar destes sentimentos penosos, ele os projetava sobre a figura do irmão e o atacava verbalmente, “destronando-o”, como se o mesmo fosse esvaziado de qualidade e quaisquer possíveis dotes. Em sua fantasia, o pênis do irmão e do pai eram sentidos como objetos terrificantes, capazes de atrair o interesse materno e, para além disso, concebidos como superiores ao seu. Abe não podia introjetar tais objetos e uma consequência direta disso era sua hostilidade declarada para com todos de sua família e trabalho, em especial, os homens.


Agora quero saber de vocês: pareceu-lhes uma abordagem de um cavalheiro imaturo, um corpo em proporção de homem com mentalidade de menino? Qual idade mental vocês dariam a esse jovem com menos de 30 anos? Ora, percebe-se que Abe tinha um ego integrado, porém imaturo, com discursos e comportamentos muito pouco concisos. A sua divisão de objetos em bons e maus o fazia portar-se como um “ventríloquo feliz” diante de uns e um “rebelde sem causa” junto a outros. Ele não assumia as responsabilidades do trabalho e não via sentido em ser corrigido por quaisquer erros. Faltava-lhe princípio de realidade?

O mecanismo de divisão é por si só um recurso absolutamente primitivo do ego, bem como a projeção excessiva, ambos usados com frequência por Abe. Ele se referia a Justin | Zachary Booth |, seu primo, como um loser (perdedor, em inglês) e a Dick como alguém mais baixo e “super inseguro”. Em sua fala, estes objetos eram esvaziados de bondade e desprovidos de qualquer potencialidade. Ele não conseguia se haver com sua própria destrutividade dirigida contra o casal parental e outros objetos. Logo, para evitar a ansiedade consequente deste fato – bem como seu sentimento de inadequação social (expresso desde a cena inicial no casamento) – Abe atribuía suas próprias características terrificantes a seres reais, sentidos como portadores de toda sua maldade e fraqueza. Ademais, o mundo era um lugar aterrorizador, a este respeito, cabe observar sua descrição do mesmo: “somos todos nós pessoas horríveis. A humanidade é uma fossa da porra. As pessoas se olham no espelho todo santo dia e mentem para elas mesmas dizendo que são bons, que se importam e que amam. Elas só se importam consigo mesmas. As pessoas tratam você como merda todo santo dia, e então agem como se as outras pessoas fossem merda”.


Este discurso acima fomenta um mundo de possibilidades de interpretações. Quero ressaltar apenas uma: o uso de projeção excessiva. Como já mencionado, isso o fazia alterar o sujeito do discurso, ele empregava o pronome “eles” para deformar o sentido de uma frase que lhe dizia respeito. Abe tratava as pessoas como se as mesmas fossem dejetos humanos tendo em vista que essas continham as piores partes de seu self projetadas. Sua ansiedade era constante, pois não sabia como se livrar deste “estado de coisas”. A capacidade de analisar concretamente sua vida e seu comportamento estava dissociada de si mesmo, pois Abe projetou-a em Marie | Donna Murphy |, a qual também exercia uma função superegoica, colocando-o frente à realidade dos fatos – “Cresça! Ninguém precisa de você”.


Há uma cena do filme em que Abe defronta-se com Phyllis e Dick em seu carro, os quais expressavam dizeres mórbidos a respeito dele. A mãe e o irmão eram, portanto, sentidos como perseguidores externos que o acusavam de ser a pessoa que ele era na realidade. Sua ansiedade paranoide o fez tentar se livrar de ambos os objetos. Quero agora enfatizar que no discurso dos perseguidores estava implícita a mesma noção que o sistema social neoliberal nos afirma todos os dias: para ser bom e ter prestígio e aceitação das demais pessoas você tem que vencer, colecionar prêmios e troféus, ser inteligente, bonito e fazer por você mesmo. Você esta sozinho. E se nada der certo, você é o único culpado. O nome de tudo isso em uma só palavra: MERITOCRACIA.


Eu finalizo este intrépido ensaio com essa reflexão. Penso que era aí que Todd queria chegar >>> para ser bom aos olhos de todos, o indivíduo tem que, desde muito cedo, corresponder ao que se é esperado dele. Vale considerar que o mesmo objeto nutridor é aquele que fantasia coisas a respeito do bebê que talvez estejam para além do alcance dele quando for mais velho. Abe é apontado como um nada. Desmorona-se a noção de perspectiva a um homem que deseja casar. Todd enfatiza a construção e ruína da esperança de melhoria ao homem moderno, de reverter insucessos em conquistas. Abe estava realmente fora de forma e fora da forma. Ele era julgado pelo formato de seu corpo e colocado, portanto, à margem daqueles tidos como sexualmente atrativos. Ao mesmo tempo encontrava-se fora da forma de seu tempo (comportamentos regredidos e usos de defesas primitivas) e fora do molde que socialmente era esperado dele. A música dizia: “você pode ser quem você quiser. Hoje é o aqui e o agora. Então viva sua vida, você pode modificá-la”... E qual é o lugar da psicanálise na “esperança de mudança”? Ela garante isso? Quando auxiliamos na condução de um paciente ao conhecimento de suas fantasias e desejos, consideramos que é esperado de nós que ele se modifique com esta experiência?

Você até pode querer ser quem quiser, mas não pense que será fácil, a despeito de por quem se decida ser. E você, por fim, sente que pode ser quem almeja ser? Se uma pessoa não se adaptar suficientemente bem, as demais irão rir dela e colocá-la num filme. E com um pouco de azar, a história dela, ainda por cima, cairá nas mãos de um psicólogo que gosta de escrever tragédias e comédias e piorar o destino de cavalheiros com amorfia.

Felicidades,

Renato Oliveira

25.11.11

Incompleto charme burguês

O Cine Freud de hoje virá fantasiado de mesa de jantar a fim de testar a sua paciência. Devo adiantar-lhe que a ingestão de cafeína talvez seja indicada para que alguns permaneçam acordados e não confundam sonho com a realidade de vigília. Neste festerê parece que tudo poderá ser válido para que o propósito final seja atingido. Haverão os legítimos convidados, aqueles que aparecerão de surpresa, e cidadãos que, de fato, não combinarão com a proposta do evento. As regras e imposições já estão previamente ditadas e foram estabelecidas com muito rigor por aqueles que acreditam ser altamente dignos de mérito. Há todo um charme que envolve as simpáticas convenções de um grupo de amigos, nas quais, terroristas e homens do povo não são bem vindos. À quem destina-se, então? O cinema de Luis Buñuel nos trás muitíssimas indagações, não seremos indiferentes à tais. Para a presente ocasião acompanharemos um jantar e poderemos ser contagiados ou não pelo “O discreto charme da burguesia” | Le charme discret de la bourgeoisie – 1972 |.


Os charmosos convidados para o jantar são: Dom Rafael | Fernando Rey |, Simone Thévenot | Delphine Seyrig |, M. Thevenot | Paul Frankeur | e Florence | Bulle Ogier |. De início parece-nos que houve uma pequena divergência, pois o grupo de amigos compareceu um dia antes da data estabelecida. Tendo em vista que a ocasião era propícia para um jantar eles lembraram-se de um modesto restaurante. A anfitriã Alice Sénéchal | Stephane Audran | a princípio, recuou diante da proposta – “não estou bem vestida” – mas, por insistência, acompanhou-os. Após chegarem ao restaurante, quanta decepção! Além de não terem sido cautelosamente bem recepcionados, os preços eram absurdamente baixos – “um restaurante barato e vazio é de se duvidar”, conforme foi dito. Os estranhamentos permaneceram. Ao observar que os funcionários mostravam-se tensos, foi descoberto que o proprietário havia falecido e sua morte era velada em um ambiente ao lado. Pávidos diante de tamanha barbárie optaram por realizar o evento em uma data próxima. 


E sendo assim, após alguns dias retornaram os quatro amigos à residência de Simone e Henri Sénéchal | Jean-Pierre Cassel |. Eles chegaram em uma complicada ocasião, pois os anfitriões estavam trancados no dormitório e devidamente ocupados. Para desvencilhar-se do impecilho chamado visita eles resolveram apartar-se ao jardim com a finalidade de dar continuidade as práticas amorosas interrompidas. Subitamente, o grupo encontrou um modo de dar sentido àquele des-encontro: ao ouvirem a empregada dizer que os patrões fugiram para o jardim, eles sentiram-se apavorados, cogitando a possibilidade da polícia tê-los encontrado – “por qual outro motivo fugiriam assim?”. A reação foi unânime: todos saíram desesperadamente daquela casa. Pois bem, a ênfase em questão não será descobrir quem eram estas pessoas, mas sim considerar que todas tinham um mesmo intento: concluir um jantar – esta simples e célebre constatação revéla-nos a essência do charme burguês proposto por Buñuel.


Ainda assim, seguem alguns apontamentos peculiares àqueles sujeitos: chama-nos a atenção o Complexo de Euclides que Florence admitia ter vivido em sua trágica infância. Sabe-se também que Dom Rafael, encantado pelas mulheres, se encontrava às escondidas com Simone, a mulher de seu amigo M. Thévenot. Pode parecer inadequado considerá-lo traficante, mas não ficamos alheios às negociações underground de Dom Rafael com M. Thévenot e Henri, assim como à curiosa cena em que ele espanta uma vendedora de bichos de pelúcia mecânicos com uma espingarda, classificando-a como parte do grupo terrorista.


O terrorismo, entretanto, será desvelado a partir de agora. Vejam, o que impediu o primeiro jantar? O velório de um homem. Qual causa inviabilizou a transa entre os anfitriões? A chegada dos amigos. Por que o segundo jantar não ocorreu? Pois os donos da casa partiram. Seguindo este raciocínio: uma terceira tentativa de jantar é impedida pela chegada de soldados do exército. Houve uma quarta tentativa? Sim, entretanto, interditada pelo aparecimento súbito de um coronel anunciando ordem de despejo aos soldados. As carícias entre Dom Rafael e Florence foram inviabilizadas pela inoportuna chegada do marido. Simone, Florence e Aline solicitavam chá em um estabelecimento, não mais havia. Café? Acabara. Água, também findara. Insistiram. À meus cálculos, foram sete tentativas de concluir o quase mitológico jantar. Todas frustradas. A incompletude é a característica principal que define as convenções sociais deste grupo burguês. Eles saiam do lugar mas não alcançavam destino algum, não andavam em círculos mas encontravam-se constantemente com a impossibilidade de estabelecer um fim. 


Nesta obra Buñuel indicá-nos a existência de uma lei, um limite para o alcance da satisfação absoluta até mesmo entre aqueles socialmente instituídos em uma posição de absoluto controle. Aquilo que não se completava – representado pelo jantar – originara uma metonímia a fim de que em algum momento o esperado prazer da plena satisfação pudesse ser obtido. O diretor nos dá elementos válidos para pensarmos na repetição estrutural do neurótico que, situado em uma posição de não ter tudo e não ser todo assume ao que poderíamos nomear por linha de frente de batalha. Não deu certo? Pode-se arriscar uma segunda vez e multiplicá-la por um número consideravelmente alto. A insistência daquele grupo em realizar o que desejavam remete-nos, portanto, ao conceito de Pulsão de Morte, pois diz respeito àquilo que será buscado, insistido mas que não será apropriado em sua totalidade. Pois, a totalidade não existe. O neurótico é marcado por uma falta inicial originária do desejo que o leva a buscar objetos substitutivos ao gozo primário. Os objetos tendem a ser encontrados, mas a falta e a não-completude permanecerão. Em outros termos: o sonho de ser um sujeito completo e completado pelo outro é destituído em Freud e representado por Buñuel.


Sendo assim, pode-se sonhar? Para o diretor, devo revelar que não há saída, porque até mesmo em sonhos a completude não será obtida e o jantar não será concluído. O estado onírico seria outro impecilho nesta militância. O grupo de amigos demandava o desejo de alcançar um prazer absoluto, pleno e para tanto utilizavam-se de uma ocasião em que prazeres orais poderiam ser consumados, mas que no entanto, não eram. A falta prevalecia. E algo de semelhante ordem ocorre com o neurótico em sua busca pelo todo, o qual encontra-se com a angústia decorrente da existência de um hiato. A burguesia, pensada enquanto uma posição de controle e detenção fálica é portanto destituída deste lugar de todo-saber, e pelo o que foi visto, o charme burguês é uma consequência da celebração do nada.

Até mais ver, queridos.

Renato Oliveira

9.3.11

Uma cruz a beira de um sonho

Há ocasiões em que cinema e farmácia podem ser agrupados com um sentido semelhante. Sabem aquelas drágeas e comprimidos grandes, terríveis de ser engolidos? Para alguns, estas cápsulas provocam tremendo horror, mas em condições de extrema necessidade não há como evitá-las. O filme que irei analisar possui um grande valor reflexivo, porém, assim como algumas drágeas, é difícil de ser ingerido. Deste modo, é válido advertir que toda e qualquer tentativa de ingeri-lo pode ser acompanhada de um moderado mal estar. Garanto-lhes que será suportável, pois a incômoda ingestão certamente será recompensada por um valioso aprendizado.


O diretor Fred Zinnemann aborda a respeito de um remédio que é utilizado na tentativa de aliviar o sofrimento humano. É sobre religião, desejo e felicidade que conta-nos o filme The Nun’s Story | Uma cruz a beira do abismo – 1959 |. A história de uma freira inicia-se com o rompimento de alianças. Gabrielle van der Mal | Audrey Hepburn | despedia-se de sua família afim de ingressar em uma nova jornada, os seus próximos anos seriam vividos em um convento, o qual a prepararia para exercer uma missão na Terra, que por sua vez, seria acompanhada pelo desejo em ajudar pessoas feridas física e espiritualmente. Ela seria conhecida como a filha do famoso Dr. Van Der Mal | Dean Jagger |. Contudo, para que este propósito de tornar-se freira se concretizasse seria necessário não somente disciplina, mas o rompimento com todas as lembranças vividas. Gabrielle estava disposta e decidida a percorrer o seu objetivo. Acompanhada por seu pai, ela dirigiu-se ao convento e após o fechar das portas, a sua vida não mais seria a mesma.


Neste novo local, Gabrielle morreu simbólicamente. Ela deixou de existir após receber sua identificação pelo número 1072 que a fez ser reconhecida por Sister Luke. O roteiro nos mostra os seus primeiros passos conjuntamente as demais jovens recebidas naquele ano. Dentre infinitas características que precisariam ser encontradas em uma freira, o silenciamento pode ser destacado como um dos propósitos principais. Sendo assim, para falar sobre a ilusão do ideal religioso será apresentado parte do cotidiano de Sister Luke em seus primeiros meses naquele convento.


Algumas madres superiores eram responsáveis pela coordenação e transmissão dos princípios religiosos às noviças. Dentre as formalidades que eram expostas em sala de aula, haviam dois princípios fundamentais: Interior silence e Pried self will. Era exigido das noviças, neste primeiro princípio, que se mantivessem caladas na maior parte do tempo, pois era preciso saber ouvir e silenciar-se internamente para uma melhor comunicação com o Sagrado. O tornar-se freira só poderia ocorrer mediante uma constante e inabalável luta para a auto-perfeição e uma vida de sacrifício que implicava batalhar contra a natureza pecaminosa. O segundo princípio diz respeito à destruição do amor próprio, do rompimento com todo e qualquer vestígio de orgulho. Era necessário trabalhar o desapego de objetos, pessoas e recordações. Na prática, esta segunda modalidade era conduzida por meio de testes para destruir o amor próprio, em outras palavras, penitências. Alguns exemplos locais: confissões públicas, beijar os pés das autoridades e implorar pelo pão. A princípio, as jovens deveriam se submeter a estes mandamentos afim de atenderem a Lei da autoridade local, e posteriormente, esta Lei deveria ser apreendida internamente, afim de que mesmo na ausência do olhar das superiores, tais preceitos fossem respeitados sem questionamentos.


Nos primeiros meses em que Sister Luke foi condicionada a estes procedimentos, ela se deparou com uma grande dificuldade em atender a tais demandas. Constantemente, ela reconhecia suas faltas e segundo a ordem estabelecida, estas deveriam ser anotadas em um caderno. As faltas as quais me refiro abarcavam desde descuidos menores, como correr ou manter os olhos abertos durante a reza, à faltas mais graves, como ter pensamentos descaridosos (sic.) para com as irmãs. Após o cumprimento dos períodos iniciais, Sister Luke começou a se destacar nos estudos em medicina, durante os quais teve que suportar não somente a inveja de outras jovens, mas a dificuldade em lidar com o próprio orgulho, decorrente do seu alto potencial desenvolvido nos anos de estudos com seu pai.


Sendo assim, o seu conhecimento em medicina fez com que as autoridades aprovassem sua ida ao Congo afim de trabalhar como enfermeira em aldeias. Este trabalho fazia parte do desejo inicial de Gabrielle e que enquanto Sister Luke seria concretizado. Neste novo setting, ela trabalhou conjuntamente ao Dr. Fortunati | Peter Finch | o qual admirava o seu potencial, porém igualmente reconhecia que havia um sujeito questionador em Sister Luke. Houve uma experiência de linguagem no encontro entre eles, pois o Dr. Fortunati reconheceu que ela encontrava-se em um processo de adoecimento físico e mental decorrente da exaustão que aquele trabalho lhe provocava. Conforme Sister Luke dedicava-se a curar e tratar os feridos na região, o seu self era gradualmente aniquilado, o propósito em atingir o ideal esperado fazia com que ela adoecesse e se fragilizasse diante do temor em não suportar a condição de castidade e devoção.


Pois bem, a história de uma freira é a demanda de uma história de amor. A religião pode ser compreendida como norteadora dos propósitos de vida, sendo sustentada mediante o reconhecimento de que há um outro que detém uma verdade, portador de um bem. Freud apresenta que a relação do indivíduo com Deus é uma extensão de seu relacionamento com o pai e que características específicas podem ser observadas em ambas relações, entre tais, humildade e temor. Sister Luke prostrava-se humildemente diante de um Outro que era tido como Lei, como Sábio, como portador de uma Verdade incontestável, e este lugar de Outro prevalece na civilização atual, podendo ser ocupado por diferentes figuras do sagrado. No propósito religioso há sempre uma fala incontestável que se sustenta mediante a coesão do grupo. Se unidos por um mesmo ideal, tais sujeitos tornam-se temporariamente fortes para silenciar os seus desejos censuráveis na busca pelo encontro de um amor paterno.


A religião assemelha-se àquelas drágeas iniciais que comentei porque trata-se de um remédio e que, por sua vez, não faz um bom efeito à todos. Para algumas pessoas, é uma medida paliativa e sua ingestão é realmente terrificante, enquanto para Sister Luke foi um meio de relacionar-se com a possibilidade de viver um sonho. A tentativa de anular seu próprio self, conforme orientada, fez com que ela vivesse uma experiência inusitada, possibilitando-a significar de um outro modo a demanda de amor que movia seus atos.

Renato Oliveira

8.1.11

Socialmente deliráveis

Bem vindo à modernidade: a tendência dos reallitys shows agora também nos diz respeito. Mas por ora não se trata dos programas em si, eles são demasiadamente entediantes, mas os seus efeitos sobre as pessoas, não são. É sobre estes efeitos que pretendo abordar. Hoje iremos entrar em um pesadelo para falar de sonhos. De que se trata? De um pesadelo cotidiano, que envolve pessoas e suas ilusões e cujo nome é Requiem para um sonho | Requiem for a dream – 2000 |.


O diretor Darren Aronofsky reuniu elementos interessantíssimos para apresentar um sujeito cativo a modos de alienação. O nosso foco se encontra em Sara Goldfarb | Ellen Burstyn | uma mulher com um sonho, um filho e uma tv. Ela passou a se envolver de outro modo com um programa chamado Tappy Tibbons Show quando, inesperadamente, foi informada que poderia ser a próxima participante. Foi necessário o discurso de um outro para que ela pudesse rever a sua condição. Ela passou a olhar para si de outro modo e constatou que nem tudo estava bem. Sara relacionava-se com o sonho de participar deste reallity a partir de um ideal: para o esplêndido dia, ela almejava estar em um longo vestido vermelho e com os cabelos ruivos, assim como esteve no dia da formatura de seu filho Harry | Jared Leto |. O vestido não mais lhe servia, portanto, perder peso seria o próximo objetivo em sua relação com aquele sonho. Uma simples dieta demandaria muito tempo e seria inviável diante de uma proposta mais atraente: pílulas para redução de peso. Percebam que um breve discurso teve um impacto tão significativo na vida desta mulher que ela passou a se relacionar com as pessoas, os objetos e o mundo a partir do efeito deste discurso que abriu todo um universo imaginário, no qual, era o seu desejo que deveria reinar.


Enquanto Sara organizava-se para obter uma realização futura, o seu filho Harry conjuntamente à Marion | Jennifer Connelly | e Tyrone | Marlon Wayans | possuíam outra dinâmica: importava-lhes um gozo imediato, e no uso de heroína era-lhes possível obter esta satisfação. O efeito desta substância aparecia de modo tão notório que estes três sujeitos se tornaram capazes de elaborar todas as estratégias imagináveis afim de não sentirem-se privados. As constantes buscas de heroína os colocava numa condição de passividade diante deste objeto, pois passaram a ser controlados pelos efeitos que as substâncias lhes provocavam.


Há uma diferenciação entre a dinâmica do sonho de Sara para com a dinâmica de Harry, Marion e Tyrone: Sara mobilizava-se a partir de um discurso esperançoso que lhe dizia “você pode conseguir e chegar lá”, ela era movida por esta fala. Enquanto os outros três moviam-se pelo temor de uma fala que lhes afirmasse a impossibilidade em obter o que lhes era valioso. Em ambos os casos, havia um discurso que os fazia delirar, que os retiravam de uma condição de responsabilidade pelos seus corpos e suas vidas, colocando-os numa condição submissa e alienada. Eles simplesmente se deixavam levar, não porque assim o queriam, mas porque a fala de um outro era mais forte. 


Havia um sonho em questão e as drogas eram utilizadas como meios para obtenção de um gozo futuro. Há uma linguagem comum no roteiro deste trabalho que nos fala sobre a doença que afeta o sujeito neste momento da história. A doença que me refiro não consiste na compulsão em si, mas na alienação decorrente da busca. Na busca pela droga, havia algo além que aqueles sujeitos ansiavam. Era um meio de dar conta do vazio e incompletude de suas próprias vidas. Percebam que a perda do controle não se deu de modo particularizado, mas sempre em relação ao discurso de um outro que apontava ou não a possibilidade de que o espetáculo e o sonho acontecessem. 


Os elementos presentes em Requiem for a dream são válidos para que possamos analisar a doença que afeta o sujeito hoje. Observamos no cotidiano destes quatro sujeitos um caráter de repetição: os mesmos prazeres, os mesmos rituais e meios para atingir um ideal. Esta repetição foi decorrente de um discurso que ao apontar a possibilidade de um gozo, os faziam delirar. As dimensões entre a realidade e o sonho já não eram mais perceptíveis para aqueles sujeitos. E o que vemos hoje, está distante disso? Socialmente nos tornamos conhecedores e até mesmo submissos a discursos que nos fazem delirar: política, sistema religioso, paixões, propagandas, etc. Não se trata aqui de entendê-los como maléficos, mas sim de assimilar a alienação a partir de uma fala que trás em si uma promessa, sendo capaz de fixar o indivíduo numa condição de não mais se ver enquanto ativo sobre o seu desejo, mas sim como completamente dependente dele, e até enquanto derrotado na impossibilidade de alcançá-lo. Não se trata de uma civilização para nos fazer feliz e nem mesmo de uma sociedade que em sua organização é alienante, o que diferencia é o modo do sujeito se relacionar com os discursos sociais. Os efeitos não serão os mesmos se a postura do indivíduo for minimamente crítica para se responsabilizar pelo desejo que o move, ainda que não o realize. Então, gostaram do sonho? Ou trata-se mesmo de um pesadelo? A sua sequência continua ai, na rotina de todos os dias.

Renato Oliveira