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22.3.18

dançando até a glória

Promessa feita e não cumprida. Uma vez, ao assistir “A noite dos desesperados” (They Shoot Horses, Don’t They?, 1969) a conclusão foi de que a obra não seria revista. No entanto, sabe-se que na produção de Freud se encontra a noção de que as repetições na vida cotidiana não se restringem às experiências de satisfação. Logo, para que esta resenha fosse escrita, rever este filme pareceu uma tarefa imprescindível. Em síntese, esta direção de Sydney Pollack diz respeito ao espetáculo do casal capaz de dançar por mais tempo em um teste de resistência. Os candidatos batalhavam por um prêmio em dinheiro e alguns deles também pela chance de ascensão na carreira artística. Para tanto, deveriam dançar por uma sucessão de dias ou meses, com intervalos de apenas dez minutos a cada duas horas. Se caíssem, estariam eliminados. É curioso notar como a própria regra do jogo é reveladora por si mesma: o verbo cair indica ir ao chão, desmoronar, perder o controle e também representa um possível estado de esgotamento, de limite. Era isso o que estava em questão. Privados de sono, atividade sexual e qualquer contato com a realidade externa, a incumbência imposta e aceita era tão apenas dançar e correr em maratonas organizadas. 


Todos estavam propensos a cair. A personagem Gloria (Jane Fonda) juntamente com seu par Robert (Michael Sarrazin) protagonizam a condição de inibição instintiva a qual estava o grupo submetido. Para o alcance de uma meta profissional, ela decidiu jogar. Ainda que com uma capacidade de apuração crítica do espetáculo, Gloria tem uma visão parcial do jogo até ser conduzida ao entendimento de interesses implícitos na organização daquele evento. Sua oferta era o seu corpo, bem como os limites deste, seu principal adversário. O nome da personagem chama a atenção. Afinal, que glória buscada era aquela que implicava uma negação de si própria e abandono a condições precárias de sobrevivência? Dentre os candidatos, havia aqueles com uma tendência maior em enlouquecer em menor tempo. Era um espetáculo estapafúrdio e o andamento do projeto em nada mais implicava senão na exposição de “guerreiros” cada vez mais esgotados, ávidos por vencer, porém com toda propensão à queda. Vale notar que despido de um filtro analítico, este é um filme de entretenimento. O ambiente até mesmo tem ares circenses. Há os que se divertirão com a miséria humana, tal como ocorre nos dias de hoje em reality shows.

Os candidatos que conseguissem não ser desestabilizados pelas circunstâncias iriam longe no jogo. É certo que They shoot horses, don’t they? fornece material para a análise da audiência gerada pelos atuais programas de reality shows ao mesmo tempo em que parece ser um filme profético ao anunciar uma fórmula que faria sucesso em décadas futuras. Contudo, pode-se destacar que sua linguagem é metafórica, pois diz respeito à busca pela sobrevivência humana associada a uma negação do próprio ego. Esta condição se relaciona a um contexto, o das relações de trabalho, dada a semelhança com a luta competitiva, a necessidade de sustento e a busca por reconhecimento profissional. 

A inibição da vida instintiva, conforme postulada por Freud, diz respeito à forma como os impulsos sexuais eram desviados de sua meta podendo ou não ser canalizados em fins não-sexuais socialmente aceitos. Esta leitura reflete a realidade de sua época ao mesmo tempo em que possui simetria às condições de trabalho hoje. Sabe-se que no mundo moderno não se trata exatamente da negação sexual plena, mas impera a mesma ordem de inibição, na qual o sujeito deve renunciar a seu próprio ego, reprimir seus inquéritos e não expressar suas reais opiniões para que não seja eliminado do jogo. O trabalho numa ótica do sonho capitalista esta associado diretamente a um lugar de reconhecimento e implica a necessidade de autonegação bem como a capacidade de suportar “calado”. Não por menos o termo “workaholic” se apresenta como atribuição de mérito àqueles que canalizam a energia libidinal em superar seus limites em horas trabalhadas. O desafio que assumiram diz respeito, como no filme, em manter-se de pé por um tempo recorde, a despeito das consequências físicas ou emocionais. Seguindo este entendimento, o corpo não apenas é produtor, mas é o espetáculo em si. As excessivas horas trabalhadas bem como a negação do corpo biológico em nome do “ideal sonhado” refletem que este corpo esta sob efeito de um discurso que o faz ficar de pé, tal como “no pain no gain” (sem dor, sem ganho em inglês). Esta submissão quando alienada indica que a negação de si e o “manter-se de pé” assumem vias de normalidade. Não por menos este padrão é requerido no meio corporativo, que seleciona pessoas dispostas a pegarem suas cruzes, negarem a si mesmas e continuarem dançando, sem cair.

É compreensível que a personagem Gloria não desistiria tão fácil do jogo, pois embora a perspectiva de glória estivesse colocada para todos, nela esta se encontrava encarnada mediante o nome próprio. Ainda assim, a complexidade da personagem não se restringe a uma nomeação e pode ser analisada a partir da força gerada frente ao desafio bem como pelo gradual desfalecimento de seu corpo prestes a ver a glória. Certamente esta obra de Pollack alude ao “no pain no gain” dado que é um filme que ao provocar reflexão pode gerar mal-estar ou incômodo.

Renato Oliveira

25.1.18

não seja quadrado

O Cine Freud retorna três meses depois já em clima carnavalesco e travestido de macaco. Esta fantasia foi propositalmente escolhida para homenagear a mais próxima espécie do ser humano e, ao mesmo tempo, questionar o que existe de animal no ser falante. A oportunidade é para se pensar a vida em sociedade hoje cada um no seu quadrado. Ora, “O mal-estar na civilização” é um artigo que abre janelas, dentre elas, uma que serve de guia à verdade de que a vida comunitária implica numa renúncia aos impulsos instintivos. Ou seja, pra virar gente e humano foi preciso abandonar as paixões do instinto para em seguida cair na linguagem, aprender não só a falar como também a se nomear enquanto sujeito – reconhecido pelo nome, pelo status, pela profissão – e assim estruturar-se como um ser coletivo. Deste modo, impera na vida social o que pode ser pensado como uma estética da conformidade. Ainda assim, não seja quadrado, pois é bem certo que as sociedades organizadas para funcionarem bem são produtoras de nada mais do que o caos. A tentativa em organizar culmina em um coletivo que produz e atualiza o mal-estar. Com estas palavras é sintetizado o contexto do filme The Square – A Arte da Discórdia (2017).


A direção de Ruben Östlund apresenta uma abordagem sobre a atual condição do homem que submeteu seus impulsos primitivos a uma organização social que o legitima, o dá lugar. O gerente de museu Christian (Claes Bang) enquanto implicado na inauguração de uma exposição intitulada “The Square” se deu conta de que foi assaltado, de modo que a carteira, o celular e suas abotoadoras foram-lhe levados. Seguindo o conselho de um parceiro de trabalho, ele identificou via GPS o prédio em que o celular se encontrava e distribuiu anonimamente uma carta de ameaça em cada apartamento, tocando o terror. A partir de então, uma série de situações estapafúrdias se originaram. Descrevê-las aqui seria uma tentativa inviável de reproduzir o caos provocado por pessoas incapazes de manterem-se em seus devidos quadrados. No entanto, é certo que o roteiro traz elementos valiosos para a análise, tal como o quadrado em si e a figura do macaco. A estes será dada ênfase.

Frente ao prédio do museu, um quadrado foi riscado no chão bem como no primeiro ambiente da exposição há um quadrado que nada mais serve senão para depósito. Ora, o que seria depositado senão o celular e a carteira, aquilo que não pode faltar, que faz o sujeito existir socialmente enquanto sujeito? O quadrado é, portanto um lugar de esvaziamento... Até mesmo porque ele se tornou o setting para a gravação de um vídeo de anúncio publicitário da exposição, no qual uma criança, uma menina branca representando não só a Suécia, mas o poder branco como tal foi colocada enquanto mendiga para ter seu corpo explodido. O quadrado, absolutamente é um lugar individual, a única diferença, conforme mostrada é se você escolhe ou não acreditar nas pessoas. É assim um local de despojamento e de escolha subjetiva.

Na cadeia evolutiva, o aprender a falar teve crucial importância na mutação humana. Destacam-se dois macacos no filme, um em sua forma mais primitiva enquanto animal de estimação em um apartamento, e outro que surge já em corpo de homem, o qual evidentemente não fala, é a pura expressão do instinto de caça, agressão e sobrevivência. Em forma artística este surge frente a um grupo organizado em um jantar de gala. Ele é o avesso dos demais presentes e protagonizou uma das cenas ápices desta obra na qual o homem é confrontado com a versão mais fiel dele mesmo se a linguagem e o poder de refrear impulsos lhe fossem retirados. Como dito, é a renúncia a uma vida entregue às pulsões que organiza o ser humano socialmente. No homem primitivo, por outro lado, além da não-articulação da fala há a expressão direta da agressividade bem como o abandono ao instinto. No entanto, vale refletir, esta oposição não é tão demarcada assim. Nota-se hoje que a linguagem civilizante do homem parece cada vez mais fraca, ela não dá conta de civilizá-lo por completo. Assim, o recuo ao instinto aflorado, colocado para fora, o que produz senão a desorganização do sujeito e a formação de barbáries? É certo que a linguagem não matou o instinto por completo, como alguns acreditam. Basta se pensar no quanto há de expressão do instinto na busca pela sobrevivência financeira. A expressão instintiva aqui abordada entretanto, não diz apenas de uma luta pela vida, mas é resultado de não haver norma social, enquadramento comunitário forte o suficiente para aniquilar o macaco de cada um. O mal-estar social desde o freudismo é efeito deste macaco ativo em cada ser falante, a externalização do que prevaleceu de mais primata em cada um. Tem-se aí o fracasso da linguagem em aniquilar o mais radicalmente primitivo. A ligação do homem com o macaco se reproduz diariamente por atos desprovidos de racionalidade, tais como a discriminação dos vulneráveis, a homofobia, a guerra. As situações bizarras desencadeadas no filme bem como “o macaco à solta” anunciam o limite da linguagem humana em organizar. O que se vê portanto, é a reprodução do caos. A este respeito, se jogar um anagrama com a palavra “caos”, tem-se tanto “caso”, “soca” quanto ”saco”. Nada muito inspirador, realmente, nem mesmo a melhor mensagem de positividade para 2018. Ainda assim, o filme vale ser visto e as coisas aqui escritas são mais sinceras do que muitas outras que te foram ditas e desejadas nas últimas semanas. Feliz ano novo a todos.

Renato Oliveira

11.4.17

Inconsciente com aroma de que?

Internet não transmite cheiro, aparelhos televisivos também não, mesmo os com sinal digital, e o cinema, tampouco. Por mais avançado tecnologicamente que esteja a humanidade, este recurso ainda não foi desenvolvido, embora seja curioso notar aqueles que compram perfume online. Caso o cliente, contudo já conheça a fragrância que será adquirida, então a decisão pela compra virtual torna-se mais concebível. Isso ajuda a perceber que cheiros se inscrevem no registro da memória e a despeito de que falar deles não seja mostrá-los, pode-se suscitar a existência de um aroma via palavras ou mesmo imagens. Ao que aqui interessa, cabe a indagação: qual cheiro o inconsciente possui? Freud não digitou nada a respeito, mas foi o responsável por estabelecer todo o aparato e funcionamento do que vem a ser este lugar de saber que se revela através de suas produções. Um sintoma ou chiste podem assim até estar associados a algum odor, já um ato falho, dificilmente. A questão, contudo vai além e desde então vale destacar que este inconsciente outrora revelado mediante o freudismo não cheira a Hugo Boss nem sequer a Carolina Herrera, no caso de cindir gêneros. No inconsciente não há sequer a existência de mais de um sexo senão aquele representado pelo pênis ereto, e dado o desconforto que é o embate com seus conteúdos, pode-se desde então supor que seu perfume é cheiro de outra coisa. 


Há mais de 10 anos atrás foi lançado “O cheiro do ralo” (2006). Esta obra dirigida por Heitor Dhalia retrata um comprador de itens usados em conflito com o mal-estar evocado pelos odores provenientes de um ralo, em um banheiro anexo ao escritório. É curioso perceber que o ambiente físico é um personagem ativo em toda a trama. Ora, o ralo não somente tem seu lugar no título como é um dos principais falantes do roteiro, embora não emita som algum. O que é dado a conhecer do ralo são seus efeitos de linguagem, seja em direção ao suposto personagem principal, Lourenço, o primeiro afetado, seja sua incidência em quem assiste ao filme. O que o ralo propriamente diz é que algo não vai bem, e este é um não-saber com o qual o comprador encontra-se implicado. O símbolo não poderia ser mais valioso ao saber analítico: é de um buraco que se trata, de um local que aponta o obscuro, por onde passam dejetos humanos, que constituem a massa mais podre socialmente firmada, as fezes, em síntese, é um lugar de merda. No caso do ralo ser mantido em seu fluxo normal, nada de ruim poderia acontecer, a passagem de merda diária ocorreria sem complicações. Contudo, por alguma razão, o ralo exalava um odor, desagradável, lógico, e perceptível a todo aquele que estivesse no ambiente. A solução encontrada por Lourenço foi a de tamponar o buraco com cimento, o que, por sua vez, ao invés de resolver o impasse, trouxe a merda à superfície, ou seja, alagou o ambiente, seus conteúdos então boiavam. Há também um momento da trama em que, na ausência do cheiro do ralo, Lourenço sente sua falta. É notório que alguns determinariam que o ralo seria o inconsciente. Não se trata na verdade do que um símbolo é, mas sim do que ele pode indicar, neste caso, de fato, o ralo enquanto representante do inconsciente. Torna-se compreensível que o personagem não conseguia se “desconectar” do ralo, que seu mau cheiro era praticamente uma fonte de inspiração e dissabor ao mesmo tempo, dado que sentimentos antagônicos co-existem no inconsciente. Assim, discuti-lo em associação com a merda não é de modo algum subjugá-lo, mas sim expor a realidade de que seus conteúdos cheiram a excrementos, não por menos o desejo inconsciente só pode existir sob estado de recalcamento. Neste raciocínio, o que se faz em uma análise é abrir o ralo e deixar a deixar a merda fluir.

Eis a questão: a personagem principal do filme é Lourenço ou o ralo? Sabe-se que o inconsciente é conhecido por seus efeitos e o cheiro proveniente do ralo também. O escoamento teve consequências diretas sob o comprador que, de senhor da razão, daquele que firmava a palavra final, tornou-se enfeitiçado pelo objeto da oferta. Enquanto num primeiro momento ele tão somente definia se os itens seriam aceitos para compra ou não, com o decorrer do roteiro, ele passa a ser confrontado com seu próprio desejo em relação a eles. Com a emergência do desejo, ocorreu também uma troca de posição, pois de senhor em sua própria casa, Lourenço passa à condição de desejante – “diga-me quanto queres e irei comprar”. Este estado de enfeitiçamento ilustra a posição do sujeito frente ao objeto do desejo, que o torna alheio à sua própria condição racional, de modo que ele passa a ser guiado pelo desejo do outro, de modo a perguntar-lhe “quanto queres?” e mais especificamente “o que queres?”. Ademais, o fétido cheiro do ralo equivale a uma cena de desenhos animados, na qual a personagem caminha em uma direção – cega, entregue, irracional – guiada unicamente pelo aroma, em busca de seu objeto-causa. Assim, tamponar o ralo passa a ser a conduta mais tola possível, bem como nociva, uma vez que do desejo inconsciente não se pode escapar. Ao mesmo tempo, permitir que o escoamento flua requer certa coragem, principalmente quando não se sabe de quem é a mão que pode fechar o registro.

Até a próxima,

Renato Oliveira

3.2.17

Todd Solondz bom pra cachorro

A relação deste falante que aqui escreve com Todd Solondz é caso antigo. Tudo começou em “felicidade”, seu mais aclamado filme, e até os dias de hoje é certo que a felicidade nunca acaba. No roteiro de Wiener-dog (2016), seu mais recente filme, a personagem principal não fala, pois é um animal que transita entre pessoas que não se conhecem nem mesmo se ligam. Um cachorro passeia o filme todo entre cidadãos que não se conhecem, de modo que se torna uma espécie de testemunha-ocular das realidades destes sujeitos. Esta montada a sinopse do filme. Até ai, sem Freud à vista. Com efeito, este escrito não é uma declaração de amor pela obra de Todd, ainda que o ato seja elogioso, dado que ele criou um cachorro-passageiro para mostrar que as pessoas sofrem, vivem sozinhas e não vislumbram um propósito maior para suas existências. De um menino em tratamento de câncer, uma jovem cuja infância foi “puro bullying”, um excêntrico acadêmico a uma idosa reclusa – é a vida durante a guerra, a batalha de procurar um sentido vital e não encontrá-lo. É válido dar contorno aos termos. O que aqui se nomeia "sentido" pode ser entendido como ligação.





Freud anunciou a pulsão de vida como um movimento de encontro do sujeito com elos exteriores, não por menos, a paixão e a atividade sexual são capazes de trazer um sentimento de estar vivo. Wiener-dog, em oposição, retrata a pulsão de morte, o gradual retorno ao inanimado enquanto ainda se respira, logo, pessoas e ideais estão morrendo. Há seres que diariamente morrem de saúde, velhice e, absolutamente, de falta de desejo. Para além da morte no plano do sujeito, há também a destruição de ideais socialmente firmados, tais como: a família perfeita pautada no amor genuíno e inabalável de pais para com filhos e vice-versa; a descrença num plano existencial planejado por Deus e o ceticismo quanto a um futuro melhor. Tudo à caminho da decomposição. E o que resta? A finitude. No roteiro do filme, há pessoas confrontadas com o fato de que suas vidas são uma passagem. As personagens parecem desiludidas bem como se encontram “deslibidinalizadas” – a energia de ligação parece ausente entre elas. Pode-se assim visualizar uma oposição entre as pulsões de ligar, por um lado, e as de destruir e silenciar, por outro, de modo que as últimas é que predominam. Trata-se, portanto, de uma abordagem curiosa sobre a desunião dos corpos, pois nem sequer o vínculo entre pais e filhos é marcado por um nítido elo afetivo-emocional, em suma são pessoas sozinhas e sem rumo desde cedo. Cabe ainda a questão: há algo capaz de unificá-las? Pode-se dizer que um elemento liga estas personagens, mas não as unifica. O cachorro. Este é um objeto transitante, sem lar ou passado, que não se incorpora em uma família, não forma elo, apenas acompanha pessoas entregues a um cenário desolador. O animal diz da condição de seus temporários donos, pois ele recebe nomes de finitude, tais como “merda” e “câncer”. Todd, mais do que nunca, desvela que tudo esta destinado a morrer. A referência, contudo não é à morte física em si, mas ao desligamento dos corpos. Logo, é possível se pensar na pulsão de morte em termos de separação corpórea, como exemplo, tem-se a solidão enquanto realidade social. No filme aborda-se a transitoriedade das coisas, a perda de vínculos de amizade e a dificuldade em formá-los. Nota-se que estar só é uma condição em si, da infância à velhice. 

Mas, se tudo esta destinado a morrer, vale a pergunta: o que é duradouro hoje? Visualiza-se no roteiro a existência de algumas possíveis constâncias, isto é, condições mostradas que parecem não se alterar por um período de tempo. Antes do total silenciamento para o qual a história culmina, certas condições se mantêm na vida das personagens, destacam-se quatro: o tratamento de câncer da criança; a viagem na estrada; os problemas de comunicação do professor e a solidão da senhora idosa. Tais personagens existem em realidades paralelas, nada sabem, portanto, uma da outra. E mesmo quando acompanhadas, estão sozinhas. Uma energia libidinal capaz de uni-las, manifesta no amor e no contato sexual, é quase uma condição quimérica. É notório, portanto, que com esta exposição acima é improvável, mas não impossível, que seja-lhes suscitado o desejo em ver o filme. De algum modo a felicidade nunca acaba, já que cada filme posterior de Todd faz alusão a sua obra central. De “Felicidade” até “A vida durante a guerra” terá a abordagem de Todd se tornado mais pessimista? Ou realista? O destino será a finitude em si ou a certeza do destino de não haver mudança ou superação?

Vocês decidem,
Renato Oliveira

10.3.14

a vida durante a guerra

A sorte de hoje é que você não é a personagem principal deste filme. Agradeça ao Universo por isso. Afinal, o maestro da presente ópera é mestre em selecionar pessoas em lugares públicos para transformá-las nos agentes de seus pesadelos. Tudo acontece porque a sociedade existe e funciona exatamente do jeito que você esta pensando. E sim, ele continua afim de expor certas verdades: Todd Solondz!!!

Não há dúvida de que os trabalhos de Todd são “a cara do Cine Freud”, são filmes que nos permitem uma ácida revolução sem sair do lugar de modo que elaboremos alguma coisa sobre o homem hoje. Exato, homem como sinônimo de humanidade. Hoje você irá rir e chorar internamente e não há dúvida de que o principal infeliz da história não estará aqui para se defender. Com efeito, a narrativa é sobre um homem que não queria crescer – ou será que ele não podia? Nós iremos desvendar alguma coisa de muito singular a ser extraída do galope deste cavalo negro | Dark Horse (2011) |.


Os personagens criados pelo fulano anteriormente citado geralmente são seres excêntricos, com um senso de observação da realidade e cativos às suas próprias ilusões. Se comparado com os demais, eles estão sempre em outro ritmo. Abe | Jordan Gelber | era assim e numa festa de casamento ele observava desinteressadamente pessoas eufóricas que dançavam como se não existisse amanhã. Nesta ocasião ele flertava com Miranda | Selma Blair | e sem insistência alguma conseguiu obter o telefone da jovem moça. Claro que ele almejava sair com ela, e por essa razão a contatou no dia seguinte. Ademais, em sua casa, ele se esquivava de qualquer proximidade com seus pais e se refugiava em seu próprio mundo – o fatídico quarto, um espaço repleto de heróis em miniatura, brinquedos, figuras de aviões, carros e afins.


Nosso camarada dirigiu-se também a uma loja de brinquedos, e com a mesma imponência com que tratava seus pais e pessoas da empresa, ele exigiu a troca de um “herói de plástico” que continha um “defeito”, isto é, um pequeno risco. Vale desde então considerar a existência do interesse de Abe por “brinquedos perfeitos” e pela conquista daquela jovem bonita e “não quebrada”, mas ao mesmo tempo tomada por uma apatia abrupta! Exato, no dia do encontro, ela parecia não se recordar de ter firmado algum compromisso com ele, e os assuntos da conversa não poderiam ser mais peculiares: adoção, consumo de cigarros... Câncer nos testículos (sim, em ambos). E sim, para Abe, acertar a lata de Coke Diet na lixeira valia dois pontos. 


Mas acontece que havia um cântico de esperança para ele. Em seu carro, ele ouvira uma música que dizia o seguinte: “hoje será o dia perfeito para viver a sua vida e fazer qualquer mudança. Você pode ser quem quiser. Dia de levantar e escolher seu próprio caminho. Agora é a hora de procurar o céu”. Inspiração máxima! Tanto que nesse mesmo dia ele pediu Miranda em casamento. Ela teria todo o tempo para pensar a respeito. Eloquência e intrepidez não faltavam ao jovem moço! Indiferença, também não: em sua volta a casa dos pais, sua atitude para com eles era de pleno descaso. Devo declarar que tempos depois, a resposta dela ao pedido foi: “quero querer você, é o que me basta”. E ao beijá-lo, concluiu: “isso não foi horrível, as coisas poderiam até ser piores”.

É certo que um fato estava posto em cena: Abe se relacionava com as pessoas empregando constantemente o mecanismo de divisão, para ele os objetos estavam cindidos em seres idealizados (Miranda) – para com a qual ele se comportava como uma “criança feliz e esperançosa” – e seres desprezados (seus pais, funcionários da empresa, e o mundo em geral), e para com esses sua atitude era de notória revolta. Ele rejeitava uma aproximação aos mesmos, enquanto frente a ela se mostrava muito mais falante, flexível e demandante. Na idealização havia a presença de amor, confiança e entusiasmo, enquanto para com os objetos da outra categoria supracitada, é a indiferença, a desconfiança e a hostilidade que imperavam. 


Para ele, o casal parental era concebido como uma união imperfeita. As ansiedades suscitadas pelo mesmo eram amenizadas na fantasia inconsciente de Abe também mediante a divisão. Ora, Jackie | Christopher Walken | era ao mesmo tempo pai e chefe, ambas as posições que se associam a um lugar de poder. É bastante provável que a indiferença de Abe para com ele ocultava um real temor desta autoridade bem como um inconsciente sentimento de inveja edípica primitiva. Em conversa com Phyllis | Mia Farrow |, sua mãe, nosso cavalheiro murmurava: “papai é tão babaca. Quero dizer, eu sempre sou tão legal com ele. Por exemplo, mostrando como ligar a TV e outras coisas”. Ele mencionou, inclusive, a hipótese de fugir de casa. Em relação à figura materna, contudo, o relacionamento tinha uma configuração distinta, pois, primeiramente, esta era posta em cena como “a outra peça do jogo edípico”, afinal, eles disputavam dinheiro no jogo de gamão e esta lhe devia 845 dólares. Como uma criança que não suporta ouvir “não” ou “espere mais um pouco” ele revogava que lhe fosse destinado um cheque como pagamento. Ademais, ela era um ser compassível, colocada e sentida como mediadora no embate entre pai e filho “já crescido”.


Este cenário complementa-se, por fim, com a figura do irmão Richard | Justin Bartha |. Não farei comentários referentes a aparência dele. Como talvez dissesse Freud: tirem conclusões da experiência de vocês em ter um irmão médico, brilhante e bem sucedido em todas as áreas da vida. Claro que Abe o odiava e que Richard [Dick] era o predileto dos pais, e – agora vem a parte drástica – dizia Phyllis que amara os dois filhos de igual modo, sem acepções. Vamos lá, não há como não elencar a possibilidade de que Dick representasse um objeto ideal de Abe expelido, que na realidade externa era odiado por materializar-se como um ser cuja perfeição era impossível de ser atingida. O ódio e a inveja inconsciente eram torturantes para serem assumidos na consciência de Abe, de modo que para se livrar destes sentimentos penosos, ele os projetava sobre a figura do irmão e o atacava verbalmente, “destronando-o”, como se o mesmo fosse esvaziado de qualidade e quaisquer possíveis dotes. Em sua fantasia, o pênis do irmão e do pai eram sentidos como objetos terrificantes, capazes de atrair o interesse materno e, para além disso, concebidos como superiores ao seu. Abe não podia introjetar tais objetos e uma consequência direta disso era sua hostilidade declarada para com todos de sua família e trabalho, em especial, os homens.


Agora quero saber de vocês: pareceu-lhes uma abordagem de um cavalheiro imaturo, um corpo em proporção de homem com mentalidade de menino? Qual idade mental vocês dariam a esse jovem com menos de 30 anos? Ora, percebe-se que Abe tinha um ego integrado, porém imaturo, com discursos e comportamentos muito pouco concisos. A sua divisão de objetos em bons e maus o fazia portar-se como um “ventríloquo feliz” diante de uns e um “rebelde sem causa” junto a outros. Ele não assumia as responsabilidades do trabalho e não via sentido em ser corrigido por quaisquer erros. Faltava-lhe princípio de realidade?

O mecanismo de divisão é por si só um recurso absolutamente primitivo do ego, bem como a projeção excessiva, ambos usados com frequência por Abe. Ele se referia a Justin | Zachary Booth |, seu primo, como um loser (perdedor, em inglês) e a Dick como alguém mais baixo e “super inseguro”. Em sua fala, estes objetos eram esvaziados de bondade e desprovidos de qualquer potencialidade. Ele não conseguia se haver com sua própria destrutividade dirigida contra o casal parental e outros objetos. Logo, para evitar a ansiedade consequente deste fato – bem como seu sentimento de inadequação social (expresso desde a cena inicial no casamento) – Abe atribuía suas próprias características terrificantes a seres reais, sentidos como portadores de toda sua maldade e fraqueza. Ademais, o mundo era um lugar aterrorizador, a este respeito, cabe observar sua descrição do mesmo: “somos todos nós pessoas horríveis. A humanidade é uma fossa da porra. As pessoas se olham no espelho todo santo dia e mentem para elas mesmas dizendo que são bons, que se importam e que amam. Elas só se importam consigo mesmas. As pessoas tratam você como merda todo santo dia, e então agem como se as outras pessoas fossem merda”.


Este discurso acima fomenta um mundo de possibilidades de interpretações. Quero ressaltar apenas uma: o uso de projeção excessiva. Como já mencionado, isso o fazia alterar o sujeito do discurso, ele empregava o pronome “eles” para deformar o sentido de uma frase que lhe dizia respeito. Abe tratava as pessoas como se as mesmas fossem dejetos humanos tendo em vista que essas continham as piores partes de seu self projetadas. Sua ansiedade era constante, pois não sabia como se livrar deste “estado de coisas”. A capacidade de analisar concretamente sua vida e seu comportamento estava dissociada de si mesmo, pois Abe projetou-a em Marie | Donna Murphy |, a qual também exercia uma função superegoica, colocando-o frente à realidade dos fatos – “Cresça! Ninguém precisa de você”.


Há uma cena do filme em que Abe defronta-se com Phyllis e Dick em seu carro, os quais expressavam dizeres mórbidos a respeito dele. A mãe e o irmão eram, portanto, sentidos como perseguidores externos que o acusavam de ser a pessoa que ele era na realidade. Sua ansiedade paranoide o fez tentar se livrar de ambos os objetos. Quero agora enfatizar que no discurso dos perseguidores estava implícita a mesma noção que o sistema social neoliberal nos afirma todos os dias: para ser bom e ter prestígio e aceitação das demais pessoas você tem que vencer, colecionar prêmios e troféus, ser inteligente, bonito e fazer por você mesmo. Você esta sozinho. E se nada der certo, você é o único culpado. O nome de tudo isso em uma só palavra: MERITOCRACIA.


Eu finalizo este intrépido ensaio com essa reflexão. Penso que era aí que Todd queria chegar >>> para ser bom aos olhos de todos, o indivíduo tem que, desde muito cedo, corresponder ao que se é esperado dele. Vale considerar que o mesmo objeto nutridor é aquele que fantasia coisas a respeito do bebê que talvez estejam para além do alcance dele quando for mais velho. Abe é apontado como um nada. Desmorona-se a noção de perspectiva a um homem que deseja casar. Todd enfatiza a construção e ruína da esperança de melhoria ao homem moderno, de reverter insucessos em conquistas. Abe estava realmente fora de forma e fora da forma. Ele era julgado pelo formato de seu corpo e colocado, portanto, à margem daqueles tidos como sexualmente atrativos. Ao mesmo tempo encontrava-se fora da forma de seu tempo (comportamentos regredidos e usos de defesas primitivas) e fora do molde que socialmente era esperado dele. A música dizia: “você pode ser quem você quiser. Hoje é o aqui e o agora. Então viva sua vida, você pode modificá-la”... E qual é o lugar da psicanálise na “esperança de mudança”? Ela garante isso? Quando auxiliamos na condução de um paciente ao conhecimento de suas fantasias e desejos, consideramos que é esperado de nós que ele se modifique com esta experiência?

Você até pode querer ser quem quiser, mas não pense que será fácil, a despeito de por quem se decida ser. E você, por fim, sente que pode ser quem almeja ser? Se uma pessoa não se adaptar suficientemente bem, as demais irão rir dela e colocá-la num filme. E com um pouco de azar, a história dela, ainda por cima, cairá nas mãos de um psicólogo que gosta de escrever tragédias e comédias e piorar o destino de cavalheiros com amorfia.

Felicidades,

Renato Oliveira

9.8.13

tempo de maravilhas

Se você está cansado do mundo na mesma formatação de todos os dias, devo dizer-lhe que alternativas não faltam. Em cada época da vida é comum que tenhamos uma tendência a questionar os lugares em que os móveis estão colocados e a maneira como as pessoas se comportam em relação aos mesmos. Se não estivesse declarada a finalidade de escrever uma análise, poderíamos utilizar todo esse espaço para elencar os nossos dissabores, fomentar alguma discussão a esse respeito, mas acontece que “existe esperança aos que sonham, apesar de tudo”. É evidente que alguma coisa não compreendida ficará da resenha de hoje, inclusive a fatídica diferença entre impassável e impossível. Será que esta primeira palavra realmente existe? Há tempos também existem aqueles que questionam se o inconsciente existe... E onde localizá-lo?

Com a Interpretação dos Sonhos, Freud inaugurou a descoberta para um mundo que se difere daquilo que é conhecido por vida de vigília, a qual, em meados de 1898 na Áustria provavelmente não era exacerbada como nas grandes cidades de hoje, mas tinha lá os seus infortúnios também. É da dimensão onírica que nos aproximaremos hoje, afinal Alice se pôs a sonhar e nós a acompanharemos em sua terra de fascínios e contratempos | Alice in Wonderland – 1951 |.  


Enquanto ouvia uma história narrada por sua governanta, a jovem Alice se entretinha com um gato e uma coroa de flores nada fúnebre sentada ao galho de uma árvore. Ela revela que não era possível se envolver com uma história sem fotografias, e acrescenta: “se eu tivesse meu próprio mundo, tudo seria tolice. Nada seria o que é, porque tudo seria o que não é. O contrário, o que é, não seria. E o que não seria, seria”. Esta fala representa uma alusão ao que seria este mundo com imagens.

Muito provavelmente todos ouviram em algum momento da vida a história sobre a entrada de Alice em uma Terra de Maravilhas, e caso isso não tenha acontecido com você, não diga que não teve infância, porque você também pode ter acesso a um universo onírico. Por hora, sabemos que ela se colocou a sonhar e tornou-se uma aventureira ao percorrer caminhos ainda não explorados, nos quais emergiam seres excêntricos, desconhecidos e, sobretudo, faltantes, um dia criados por ela.


No momento em que Alice encostou um dedo em uma branda correnteza de águas surgiu um coelho com colete, óculos, gravata, guarda-chuva e um relógio. Ele anunciava desesperadamente que estava atrasado e corria mais que alunos desesperados pelo fechamento dos portões em dia de prova. A jovem arqueóloga o segue a procura de um entendimento para tamanha ansiedade, até que ela observa que o coelho entrou por um galho. Ela o segue e caminha por este apertado espaço para em seguida cair numa atmosfera nunca antes sonhada. A queda de Alice, por si só, é mais que um desafio à lei da gravidade, é o retrato de uma fantasia em que é preciso pensar como os que sonham para poder assimilá-la. O seu vestido se tornou o seu próprio paraquedas e logo ela estava entre objetos hilários conforme vagarosamente se aproximava do solo. Ela nota o seu reflexo invertido no espelho e em seguida observa que o coelho andava de cabeça para baixo. Mais alguns passos apressados e um novo desafio estava posto: Alice era maior que a porta de acesso ao caminho pelo qual o distinto coelho seguira. Enquanto conversava com a maçaneta da porta, ambos recém-conhecidos falantes tentavam formular uma solução.


De repente surge uma pequena garrafa acima de uma mesa com a etiqueta “drink me” (beba-me, em inglês). Como observado em contos infantis, ela suspeita se o líquido contido no frasco não era veneno. Ela decide arriscar e em instantes o seu corpo diminui de tal modo que ela poderia atravessar a porta. Entretanto, faltou-lhe a chave, e já não mais seria possível alcançar a mesa para poder pegá-la. Assim, aquela pequena maçaneta – o único outro deste diálogo – faz com que apareça um pequeno baú com elementos comestíveis. Bastou ingerir um pequeno pedaço para que ela se tornasse grande e absolutamente desproporcional ao tamanho da passagem. Esta não confluência de propósitos parecia ser um entrave inicial para que Alice pudesse atribuir sentido ao desespero do coelho e desvendar o enigma daquilo que estava para além da porta. Afinal, mesmo não sabendo como chegar ela supunha que havia um universo a ser explorado, mas a priori se diminuir era o requisito necessário.


Atravessar a porta não era impossível e nem mesmo impassável, e nota-se que a redução de tamanho implica uma diminuição do sujeito. Ora, a jovem Alice estava diante da entrada em um universo inconsciente, prestes a se encontrar com os seus objetos internos. A princípio, ela nada queria saber de sua casa, ou, em termos freudianos, de sua vida de vigília, mas sim de se relacionar com estes objetos. Diminuir implicava em aplacar uma resistência de acesso a estes conteúdos, em tamponar o sujeito da consciência. Foi assim que a aventureira conseguiu acesso enquanto velejava dentro de um pequeno vidro. Logo, ela observou pequenos animais que dançavam alinhadamente. Alice se pôs a dançar esta mesma música para posteriormente encontrar em meio à vegetação o coelho que apressadamente seguia o seu caminho. Ela era tratada por aqueles objetos como uma desconhecida e notável arqueóloga, os quais se entretinham com o desejo de saber da jovem, mas que dificultavam o percurso da mesma para o encontro do coelho. Ademais, todos pareciam malucos, a seu modo, cada.


Conforme ela parecia estar próxima a obter uma resposta para este percurso, outros entraves eram suscitados, de maneira que a viagem tornava-se ainda mais intrigante e desprovida de um propósito racional. Naquele lugar, Alice não tinha o seu próprio caminho, ela se conduzia a partir de fatos inesperados que surgiam diante dela. O coelho, conforme comentado, era o condutor do trajeto, mas cujo aparecimento ocorria de maneira súbita e temporária. Neste “lugar encantado” ela encontrou um gato de listras roxas, que curiosamente também tinha o dom de desaparecer. Estes dois objetos serão analisados a seguir.


Pelas evidências apresentadas imagino que vocês compreenderam a charada. Espero que sim, porque o conto escrito por Lewis Carroll ainda parece-me como uma caixa fantasmática em que sempre há possibilidades não pensadas. Contudo, com base no caminho que levou Alice àquela Terra de Maravilhas e pelas características de dois personagens (o coelho e o gato), supõe-se que ela estava perdida em seu caminho porque não era senhor em sua própria casa. A frase parece não ter sentido. Explico-me: o coelho pode ser tido como o guia condutor de todo o percurso feito. Ele era o objeto bom a ser introjetado, como se de algum modo ele detivesse um saber sobre a própria Alice. É como se ele fosse também o último, o impossível. Alice o perseguia sem conseguir alcançá-lo, ou seja, o coelho representava o desejo inconsciente, aquele que para existir enquanto tal deve permanecer na condição de inatingível e irrealizável. Mas ainda há ensejo para uma questão: o que na vida se persegue e nunca se alcança? A pergunta, se formulada ao inverso, teria uma resposta precisa: a morte é o que não se persegue, mas um dia será alcançada. Todavia, a causa do desejo pode ser esse algo que se persegue na vida, o sujeito anseia saber o que lhe faz desejar, ele quer desvendar e ser “senhor em sua própria casa”, dono de sua própria razão, ainda que a escolha seja manter o desejo na condição de desejo, ou seja, como falta, como não realizado. A esta compreensão acrescenta-se a queixa acerca do atraso que pode ser pensado como “estar fora do tempo”. O desejo não conhece tempo, época ou ocasião. Não é por menos que é comum nos relacionarmos constantemente com desejos infantis e absolutamente bizarros ou despropositais à época. Chega um momento em que pela confusão evocada pelo coelho-desejo, Alice não mais quer saber dele e interessa-lhe somente encontrar o caminho de casa. Em outras palavras, ela passa a querer retornar a uma condição de estabilidade e segurança. 


O gato que aparecia a Alice e ostentava um sorriso sarcástico tem a função de instigá-la a continuar no desafio rumo ao coelho. Ele se apresenta como o tempo oportuno para que a busca continuasse e para tanto a enlaça no discurso apontando o desejo como alvo, como finalidade e anuncia o caminho que ela deve seguir para encontrar a rainha. O gato desvenda a ocasião para que a busca pelo desejo continue, a ao fazê-lo coloca o desejo como atualizado em relação a ela. O desejo continua a existir e o gato faz questão de mostrar a realidade deste fato.


Os eventos eram inesperados e Alice não poderia contê-los porque naquele lugar ela não mais era um sujeito racional, ela se movia por uma lei outra que não a lei do discurso consciente e da razão compartilhada entre pessoas. Aos poucos o passatempo tornou-se desesperador porque ela constatou que não mais exercia controle sobre coisa alguma. Nem sequer a comunicação exercia um efeito organizador, pois a significação compartilhada entre os objetos era improvável por não se supor outro sujeito apto a compreender o que a ele foi dito. No mundo de Alice todas aquelas criaturas nada mais eram do que excêntricos seres falantes e uma vez imersa nesta realidade não havia outro caminho senão procurar uma saída e em uma oportunidade futura reconsiderar se aquilo que se mostra impassável também não deva ser entendido como impossível. Da próxima vez, pergunte ao tempo: qual o tempo que ele tem?

Renato Oliveira

7.6.13

la moustache

O bigode está em toda a parte: em roupas, acessórios, anúncios publicitários, e não somente no rosto de alguns homens, mas na cabeça das pessoas. É moda? Hoje teremos a oportunidade de constatar que o bigode não é energia elétrica, mas pode vir a faltar. A correlação pode parecer bastante ilógica e absolutamente sem graça alguma, mas a bem da verdade estamos diante de um território sem grandes postes sinalizadores. Pergunto-me o que passava pela mente das fias Jérôme Beaujour e Emmanuel Carrère quanto elaboraram esta intrépida história. Ah, estes franceses! Provavelmente não sabiam que em terras brasileiras saberíamos ver o filme tanto do lado certo quanto do avesso e por consequência incluí-lo entre um louvável trabalho contemporâneo de fundamento analítico. É interessante ressaltar que um sujeito se tornará irreconhecível e de algum modo teremos que chegar a uma decisão se o condenado era ele ou todos os demais. Você não tem nada a perder se continuar esta leitura, mas ele poderia perder e ganhar muito caso raspasse o bigode. Logo, devem ter notado que nesta análise tudo gira em torno deste fatídico ornamento, e o título original do filme necessariamente é homônimo: o bigode | La moustache – 2005 |.


O momento de fazer a barba é quase sagrado, pode trazer dores de cabeça e outras complicações adversas caso não se faça com a devida atenção, e acrescento que não se deve tomar decisões importantes em tais ocasiões. Marc | Vincent Lindon | desconsiderava estes meus pressupostos vãos e por este motivo ele se olhava enquanto maquinava uma ideia talvez absurda: devo ou não retirar o bigode? Claro que todos conhecem a expressão “não mexa no que está quieto” e foi em menosprezo a mesma que todo o terror teve o seu início. Pois bem, ele resolve consultar a opinião de sua esposa Agnés | Emmanuelle Devos | antes de decidir. Ele faz o outro falar e ainda que não pareça, pela resposta é possível perceber que fora dada a necessária importância à pergunta feita: “não faço ideia, não te conheço sem ele”. O que ela anuncia saber é que o bigode o fazia conhecido como esposo... E por que não como homem? Desde já se deve ressaltar a significação atribuída a este ornamento. Há uma correlação entre o bigode e a masculinidade e, primordialmente, a virilidade de um homem. Associa-se também o bigode ao apetite sexual. 


Como é dedutível, Marc, sem grandes questionamentos, utiliza uma tesoura para cortar os fios maiores e em seguida com um aparelho de barbear comum – desses com duas lâminas talvez – ele raspa os cabelos faciais que formavam o extinto bigode. Após a conclusão do ato ele limpa o local e joga fora os fios sem saber que estava desvencilhando-se de provas. Quem seria o primeiro a elogiá-lo? É inevitável não realizar uma correlação entre o interesse abrupto de Marc em querer ser notado como um homem de “cara limpa” com o desejo de mulheres em ouvir comentários e elogios quando mudam o penteado ou corte de cabelo. É curioso observar como os cabelos do corpo se entrelaçam com simbólico, anyway. Ele brinca de esconder e se mostrar para Agnès que o olhava sem entender o que se passava. Como muitíssimo bem diriam os espanhóis: “no pasa nada”. Exatamente: nada se passava! Agnès não demonstrara reação alguma, seja de espanto, surpresa ou qualquer outra. Ela não tinha problemas perceptivos, e caso os tivesse alguns amigos conhecidos também o teriam, pois eles foram jantar na casa de um casal de amigos e os mesmos não apresentaram reação alguma a este fato. 


É lógico que Marc aguardava alguma reação, ainda que fosse um comentário mínimo sobre a ausência de seu bigode. Não ocorrera. Uma oposição estava colocada: ser notado versus passar despercebido. Esta segunda condição se relacionava com a ausência de um lugar, com o vazio, de maneira que uma das consequências iniciais foi a não elaboração de Marc, ele não conseguia produzir um entendimento coerente ao fato de que pessoas comuns, sem qualquer prejuízo na retina, não podiam identificar uma notória diferença em seu rosto, que para ele seria como um elefante no meio da sala. Outro efeito observado foi o mau humor. Já não havia mais atmosfera para conversas e entretenimento, e enquanto retornavam para casa, Marc – como se não pudesse mais suportar este real – declara à Agnès: “não diga que não percebeu. Não é difícil dizer. Só não deveria ter que dizê-lo. Meu bigode. Sente falta de alguma coisa?”. Ele pressiona os dedos da esposa sobre a região do buço como numa tentativa frenética de mostrá-la que algo esteve ali, mas que não está mais. “Raspei meu bigode”, ela não entende, se irrita e fim da história. Só que não. 


Agnès não o compreende, e ele quer ser entendido. Já não se tratava mais de obter um elogio pela nova aparência, mas sim conseguir compreender o motivo que fizera as pessoas não notarem a ausência de bigode. A princípio, Marc formula que se tratava de algo combinado entre a esposa e o casal, como nestas pegadinhas feitas em lugares urbanos (péssimo exemplo). Naquela mesma noite, a fim de apaziguar a circunstância ele diz a esposa: “eu raspei, mas posso deixar crescer de novo”. Em resposta, como se fora dito uma tamanha barbaridade, ela afirma: “você sabe que nunca teve um bigode!”. Como assim ele nunca teve? Talvez alguns já estejam pensando: “que palhaçada de briga de casal é esta? Tudo por conta de um bigode?”. Ao término da discussão, ele localiza um álbum de fotos de quando estiveram em Bali, na Indonésia. Pois bem, ali estavam os registros de que ele tivera um bigode. Com o intuito de não prosseguir com as discussões, Marc opta por guardar esta prova. 


Na manhã seguinte vê-se a imagem de um grande olho, muito similar ao de Marion, em Psicose, conforme comentei em uma ocasião. Este close faz alusão àquilo que está dado a ver. O bigode é um elemento de grande destaque em um rosto, no entanto, tudo o que se mostra também pode ser notado por sua ausência. Em outras palavras, se algo de destaque se evidencia, ele também pode ser facilmente identificado na condição de falta. Trata-se neste presente caso do entendimento de que se a pessoa tem algo, este “algo” a faz alguma coisa. Marc fora, portanto, um “bigodudo” e já não era mais. Perdoem-me a cacofonia, não fui eu que criei a expressão. Assim, ele deixara de ser e não formulara a princípio a possibilidade de que havia um status inferior nesta condição nova em que se encontrava. Ele queria apenas um reconhecimento que pode até mesmo ser entendido como uma legitimação do outro de que ele não delirava. 


Imaginem todos que no ambiente de trabalho o cenário foi o mesmo. Não houve pessoa alguma que notou este “algo” que esteve lá e ali não mais se encontrava. Em síntese: as pessoas próximas percebiam tudo, mas não reconheciam que Marc deixou de ter um ornamento, elas não identificavam o bigode ausente e ABSOLUTAMENTE não estavam interessadas nisso. Assim, é evidente que indignação e fúria são apenas dois itens iniciais da lista de afetos adversos que nosso principal personagem sentia.


Por que pessoa alguma era capaz de sentir falta do bigode? Por que ele precisava tanto de uma confirmação? Seria para dar provas a si mesmo de que não estava louco, que não delirava? Não somente. Por mais bizarro que pareça-nos, o bigode representava o falo, o significante da falta, aquilo que se é suposto ter. Ainda que não acessível à consciência de Marc, o bigode consistia em uma representação para o seu sexo. Enquanto estava presente ele afirmava e se afirmava como homem, ou seja, ele se reconhecia como sujeito identificado em uma posição de virilidade. O olhar do outro tivera esta função de validar um lugar para o sujeito em relação ao sexo. A problemática se extrai destes mesmos pressupostos. O bigode, assim como o pênis, não são garantias de que se é viril e quão menos de que se tem o falo – aquilo que é suposto ser o que completa o desejo do outro. O bigode de Marc não fazia falta ao olhar de outras pessoas, pois a estas ter ou não tê-lo não era pré-condição para a afirmação de um sexo. O único a se organizar pelo próprio bigode – ou seja, pela crença de ser fálico – era o próprio tolo do significante: o usuário. Marc quis fazer prova de sua virilidade e descobriu, pois foi levado a crer, nunca ter tido algo que fosse a garantia de ser um homem viril. 


Pode-se considerar que o roteiro do filme consiste em uma sutil metáfora para ilustrar a compreensão de que o pênis não se restringe àquilo que é existente nos homens e falta em mulheres. Para além do imaginário, entende-se que nas relações afetivas está em jogo o que se supõe encontrar no outro. Por esta razão, os elementos bigode e pênis deixam de ser exclusivamente uma garantia de virilidade para se tornarem nada mais do que objetos que podem vir a ser perdidos. No filme também é retratado que o interesse de Agnès estava para além de Marc enquanto homem. Raspar o bigode foi um equívoco? Como se trata de uma sátira às ilusões imaginárias masculinas, entende-se que o bigode orientava Marc em uma posição de virilidade, ou seja, o bigode era-lhe como uma extensão de seu pênis e de seu sexo, ao cortá-lo ele se deparou com o silêncio do outro, sentindo-se desorganizado, pois estava sem sexo e como costumam dizer, “sem chão”, isto é, sem referência. 


Marc se tornou um eunuco aos olhos de sua mulher. Há uma cena aparentemente ingênua em que ela assiste a um jogo de futebol e se irrita demais com o catastrófico desempenho dos jogadores. Ela anuncia: “ai esta, acabou. Um desastre. Estou desapontada. Muito desapontada. Homens que odeiam futebol são tão chatos”. Ora, este discurso consistia na declaração de uma condição de falência, ela revelava como se sentia em relação ao seu marido castrado. A situação estava perdida? Após tentativas de provar sua “virilidade” Marc volta a fumar e chega a vasculhar o lixo para encontrar os fios de cabelo de seu antigo bigode. Ele encontra alguns e apresenta-os a esposa supondo que ela o entenderia. Ele quer provar que já o teve, quer que ela o legitime e volte a desejá-lo. O cigarro como um suposto apaziguador de uma intensa frustração faz alusão a uma histórica e maldosa correlação em que se diz que o mesmo é um substituto do pênis. 


Por fim, temos diante de nós um sujeito que acreditava ser possuinte daquilo que é capaz de ser a resposta e completude ao desejo do outro. Foi preciso perder para descobrir nunca tê-lo tido. Sua crença e os seus cabelos faciais foram para o ralo e sim, empregaremos a expressão literalmente. “Você realmente acredita que tinha um bigode?” Tudo o que existe pode ser perdido. O bigode foi o elemento central para se ilustrar a ocasião em um relacionamento afetivo em que se faz a mais significativa descoberta: “temo que os suspiros terminem com gosto de feijão”.

Felicidades!

Renato Oliveira

25.11.11

Incompleto charme burguês

O Cine Freud de hoje virá fantasiado de mesa de jantar a fim de testar a sua paciência. Devo adiantar-lhe que a ingestão de cafeína talvez seja indicada para que alguns permaneçam acordados e não confundam sonho com a realidade de vigília. Neste festerê parece que tudo poderá ser válido para que o propósito final seja atingido. Haverão os legítimos convidados, aqueles que aparecerão de surpresa, e cidadãos que, de fato, não combinarão com a proposta do evento. As regras e imposições já estão previamente ditadas e foram estabelecidas com muito rigor por aqueles que acreditam ser altamente dignos de mérito. Há todo um charme que envolve as simpáticas convenções de um grupo de amigos, nas quais, terroristas e homens do povo não são bem vindos. À quem destina-se, então? O cinema de Luis Buñuel nos trás muitíssimas indagações, não seremos indiferentes à tais. Para a presente ocasião acompanharemos um jantar e poderemos ser contagiados ou não pelo “O discreto charme da burguesia” | Le charme discret de la bourgeoisie – 1972 |.


Os charmosos convidados para o jantar são: Dom Rafael | Fernando Rey |, Simone Thévenot | Delphine Seyrig |, M. Thevenot | Paul Frankeur | e Florence | Bulle Ogier |. De início parece-nos que houve uma pequena divergência, pois o grupo de amigos compareceu um dia antes da data estabelecida. Tendo em vista que a ocasião era propícia para um jantar eles lembraram-se de um modesto restaurante. A anfitriã Alice Sénéchal | Stephane Audran | a princípio, recuou diante da proposta – “não estou bem vestida” – mas, por insistência, acompanhou-os. Após chegarem ao restaurante, quanta decepção! Além de não terem sido cautelosamente bem recepcionados, os preços eram absurdamente baixos – “um restaurante barato e vazio é de se duvidar”, conforme foi dito. Os estranhamentos permaneceram. Ao observar que os funcionários mostravam-se tensos, foi descoberto que o proprietário havia falecido e sua morte era velada em um ambiente ao lado. Pávidos diante de tamanha barbárie optaram por realizar o evento em uma data próxima. 


E sendo assim, após alguns dias retornaram os quatro amigos à residência de Simone e Henri Sénéchal | Jean-Pierre Cassel |. Eles chegaram em uma complicada ocasião, pois os anfitriões estavam trancados no dormitório e devidamente ocupados. Para desvencilhar-se do impecilho chamado visita eles resolveram apartar-se ao jardim com a finalidade de dar continuidade as práticas amorosas interrompidas. Subitamente, o grupo encontrou um modo de dar sentido àquele des-encontro: ao ouvirem a empregada dizer que os patrões fugiram para o jardim, eles sentiram-se apavorados, cogitando a possibilidade da polícia tê-los encontrado – “por qual outro motivo fugiriam assim?”. A reação foi unânime: todos saíram desesperadamente daquela casa. Pois bem, a ênfase em questão não será descobrir quem eram estas pessoas, mas sim considerar que todas tinham um mesmo intento: concluir um jantar – esta simples e célebre constatação revéla-nos a essência do charme burguês proposto por Buñuel.


Ainda assim, seguem alguns apontamentos peculiares àqueles sujeitos: chama-nos a atenção o Complexo de Euclides que Florence admitia ter vivido em sua trágica infância. Sabe-se também que Dom Rafael, encantado pelas mulheres, se encontrava às escondidas com Simone, a mulher de seu amigo M. Thévenot. Pode parecer inadequado considerá-lo traficante, mas não ficamos alheios às negociações underground de Dom Rafael com M. Thévenot e Henri, assim como à curiosa cena em que ele espanta uma vendedora de bichos de pelúcia mecânicos com uma espingarda, classificando-a como parte do grupo terrorista.


O terrorismo, entretanto, será desvelado a partir de agora. Vejam, o que impediu o primeiro jantar? O velório de um homem. Qual causa inviabilizou a transa entre os anfitriões? A chegada dos amigos. Por que o segundo jantar não ocorreu? Pois os donos da casa partiram. Seguindo este raciocínio: uma terceira tentativa de jantar é impedida pela chegada de soldados do exército. Houve uma quarta tentativa? Sim, entretanto, interditada pelo aparecimento súbito de um coronel anunciando ordem de despejo aos soldados. As carícias entre Dom Rafael e Florence foram inviabilizadas pela inoportuna chegada do marido. Simone, Florence e Aline solicitavam chá em um estabelecimento, não mais havia. Café? Acabara. Água, também findara. Insistiram. À meus cálculos, foram sete tentativas de concluir o quase mitológico jantar. Todas frustradas. A incompletude é a característica principal que define as convenções sociais deste grupo burguês. Eles saiam do lugar mas não alcançavam destino algum, não andavam em círculos mas encontravam-se constantemente com a impossibilidade de estabelecer um fim. 


Nesta obra Buñuel indicá-nos a existência de uma lei, um limite para o alcance da satisfação absoluta até mesmo entre aqueles socialmente instituídos em uma posição de absoluto controle. Aquilo que não se completava – representado pelo jantar – originara uma metonímia a fim de que em algum momento o esperado prazer da plena satisfação pudesse ser obtido. O diretor nos dá elementos válidos para pensarmos na repetição estrutural do neurótico que, situado em uma posição de não ter tudo e não ser todo assume ao que poderíamos nomear por linha de frente de batalha. Não deu certo? Pode-se arriscar uma segunda vez e multiplicá-la por um número consideravelmente alto. A insistência daquele grupo em realizar o que desejavam remete-nos, portanto, ao conceito de Pulsão de Morte, pois diz respeito àquilo que será buscado, insistido mas que não será apropriado em sua totalidade. Pois, a totalidade não existe. O neurótico é marcado por uma falta inicial originária do desejo que o leva a buscar objetos substitutivos ao gozo primário. Os objetos tendem a ser encontrados, mas a falta e a não-completude permanecerão. Em outros termos: o sonho de ser um sujeito completo e completado pelo outro é destituído em Freud e representado por Buñuel.


Sendo assim, pode-se sonhar? Para o diretor, devo revelar que não há saída, porque até mesmo em sonhos a completude não será obtida e o jantar não será concluído. O estado onírico seria outro impecilho nesta militância. O grupo de amigos demandava o desejo de alcançar um prazer absoluto, pleno e para tanto utilizavam-se de uma ocasião em que prazeres orais poderiam ser consumados, mas que no entanto, não eram. A falta prevalecia. E algo de semelhante ordem ocorre com o neurótico em sua busca pelo todo, o qual encontra-se com a angústia decorrente da existência de um hiato. A burguesia, pensada enquanto uma posição de controle e detenção fálica é portanto destituída deste lugar de todo-saber, e pelo o que foi visto, o charme burguês é uma consequência da celebração do nada.

Até mais ver, queridos.

Renato Oliveira