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11.4.17

Inconsciente com aroma de que?

Internet não transmite cheiro, aparelhos televisivos também não, mesmo os com sinal digital, e o cinema, tampouco. Por mais avançado tecnologicamente que esteja a humanidade, este recurso ainda não foi desenvolvido, embora seja curioso notar aqueles que compram perfume online. Caso o cliente, contudo já conheça a fragrância que será adquirida, então a decisão pela compra virtual torna-se mais concebível. Isso ajuda a perceber que cheiros se inscrevem no registro da memória e a despeito de que falar deles não seja mostrá-los, pode-se suscitar a existência de um aroma via palavras ou mesmo imagens. Ao que aqui interessa, cabe a indagação: qual cheiro o inconsciente possui? Freud não digitou nada a respeito, mas foi o responsável por estabelecer todo o aparato e funcionamento do que vem a ser este lugar de saber que se revela através de suas produções. Um sintoma ou chiste podem assim até estar associados a algum odor, já um ato falho, dificilmente. A questão, contudo vai além e desde então vale destacar que este inconsciente outrora revelado mediante o freudismo não cheira a Hugo Boss nem sequer a Carolina Herrera, no caso de cindir gêneros. No inconsciente não há sequer a existência de mais de um sexo senão aquele representado pelo pênis ereto, e dado o desconforto que é o embate com seus conteúdos, pode-se desde então supor que seu perfume é cheiro de outra coisa. 


Há mais de 10 anos atrás foi lançado “O cheiro do ralo” (2006). Esta obra dirigida por Heitor Dhalia retrata um comprador de itens usados em conflito com o mal-estar evocado pelos odores provenientes de um ralo, em um banheiro anexo ao escritório. É curioso perceber que o ambiente físico é um personagem ativo em toda a trama. Ora, o ralo não somente tem seu lugar no título como é um dos principais falantes do roteiro, embora não emita som algum. O que é dado a conhecer do ralo são seus efeitos de linguagem, seja em direção ao suposto personagem principal, Lourenço, o primeiro afetado, seja sua incidência em quem assiste ao filme. O que o ralo propriamente diz é que algo não vai bem, e este é um não-saber com o qual o comprador encontra-se implicado. O símbolo não poderia ser mais valioso ao saber analítico: é de um buraco que se trata, de um local que aponta o obscuro, por onde passam dejetos humanos, que constituem a massa mais podre socialmente firmada, as fezes, em síntese, é um lugar de merda. No caso do ralo ser mantido em seu fluxo normal, nada de ruim poderia acontecer, a passagem de merda diária ocorreria sem complicações. Contudo, por alguma razão, o ralo exalava um odor, desagradável, lógico, e perceptível a todo aquele que estivesse no ambiente. A solução encontrada por Lourenço foi a de tamponar o buraco com cimento, o que, por sua vez, ao invés de resolver o impasse, trouxe a merda à superfície, ou seja, alagou o ambiente, seus conteúdos então boiavam. Há também um momento da trama em que, na ausência do cheiro do ralo, Lourenço sente sua falta. É notório que alguns determinariam que o ralo seria o inconsciente. Não se trata na verdade do que um símbolo é, mas sim do que ele pode indicar, neste caso, de fato, o ralo enquanto representante do inconsciente. Torna-se compreensível que o personagem não conseguia se “desconectar” do ralo, que seu mau cheiro era praticamente uma fonte de inspiração e dissabor ao mesmo tempo, dado que sentimentos antagônicos co-existem no inconsciente. Assim, discuti-lo em associação com a merda não é de modo algum subjugá-lo, mas sim expor a realidade de que seus conteúdos cheiram a excrementos, não por menos o desejo inconsciente só pode existir sob estado de recalcamento. Neste raciocínio, o que se faz em uma análise é abrir o ralo e deixar a deixar a merda fluir.

Eis a questão: a personagem principal do filme é Lourenço ou o ralo? Sabe-se que o inconsciente é conhecido por seus efeitos e o cheiro proveniente do ralo também. O escoamento teve consequências diretas sob o comprador que, de senhor da razão, daquele que firmava a palavra final, tornou-se enfeitiçado pelo objeto da oferta. Enquanto num primeiro momento ele tão somente definia se os itens seriam aceitos para compra ou não, com o decorrer do roteiro, ele passa a ser confrontado com seu próprio desejo em relação a eles. Com a emergência do desejo, ocorreu também uma troca de posição, pois de senhor em sua própria casa, Lourenço passa à condição de desejante – “diga-me quanto queres e irei comprar”. Este estado de enfeitiçamento ilustra a posição do sujeito frente ao objeto do desejo, que o torna alheio à sua própria condição racional, de modo que ele passa a ser guiado pelo desejo do outro, de modo a perguntar-lhe “quanto queres?” e mais especificamente “o que queres?”. Ademais, o fétido cheiro do ralo equivale a uma cena de desenhos animados, na qual a personagem caminha em uma direção – cega, entregue, irracional – guiada unicamente pelo aroma, em busca de seu objeto-causa. Assim, tamponar o ralo passa a ser a conduta mais tola possível, bem como nociva, uma vez que do desejo inconsciente não se pode escapar. Ao mesmo tempo, permitir que o escoamento flua requer certa coragem, principalmente quando não se sabe de quem é a mão que pode fechar o registro.

Até a próxima,

Renato Oliveira

2.10.13

paixão diabólica

Não existe nada suficientemente sagrado que não possa vir a ser profano. Para que a análise do filme de hoje seja compreendida é preciso que as pessoas não fiquem “sem corda”, que mesmo que elas se surpreendam com o fatídico pacto entre dois jovens ainda existam formas para falar sobre o que se sente. Como não sentir entusiasmo ao ser convidado para um elegante jantar? No entanto pela experiência é constatado que caso seja servido champagne, vale questionar a razão para tanto. Como fora dito “é Freud quem vê um sentido para todas as coisas”. Numa data remota comentei sobre um grupo de amigos que se esforçava para oferecer um jantar sem conseguir concluí-lo. Desta vez, contudo, todos os preparativos estavam prontos, inclusive, o principal prato: um jovem morto, recém-assassinado que ocuparia um lugar de destaque abaixo da superfície da mesa. Com ênfase, era um “jantar peculiar” organizado por uma pessoa possuinte de um humor mórbido e uma devoção sem igual para realizar grandes feitos. A homenagem em forma de declaração é a Hitchcock, mais uma vez, que mostrou uma apurada compreensão freudiana ao dirigir o festim diabólico | Rope – 1948 |.


Claro que não é de hoje que se comenta sobre temas próprios a psicanálise presentes nos filmes hitchcockianos. É possível que desde os anos na Inglaterra ele não perdia uma nova edição das obras de Freud que na época ainda não eram completas. Um biógrafo pode confirmar esta hipótese. Ou talvez não seja nada disso, pois pode ser que meramente se vê seres humanamente perturbados em seus filmes ou “mais saudáveis e naturais” do que seres bonzinhos. Para a ocasião basta reconhecer que uma caixa pode ter inúmeras funções, principalmente caso possua um bom espaçamento interno. Os amigos Brandon | Johl Dall |e Phillip | Farley Granger | resolveram cometer um “crime colegial” e elegeram o celebrado da vez: David Kentley | Dick Hogan |, que fora enforcado pela dupla supracitada e em seguida foi destinado ao desconforto de uma caixa de madeira. O termo “caixão” não se aplica ao contexto, absolutamente. O jovem assassinado seria celebrado como um ser faltante que poderia surgir em qualquer momento. Ora, estava planejado um jantar e a fatídica caixa seria a mesa. Talvez resida nesta criação o pressuposto de que ocasiões de morte não necessariamente precisam ser experienciadas com pranto ou em cenários fúnebres.


Os promotores do evento, contudo, não assimilavam aquele acontecimento de igual modo. Brandon sentia-se cheio de júbilo e anunciava sua expectativa para o jantar. Ele contemplava a si mesmo como aquele que não somente maquinava intentos no mundo das ideias, mas os transpunha para uma cena real. Ademais, ele estava a serviço de si mesmo, de seu intelecto ou de algo que em si lhe revelava o seu próprio desejo.

Enquanto para Brandon toda aquela circunstância era motivo de festa, Phillip estava diante de um real difícil de ser traduzido em palavras. Arrependimento não é um termo adequado para explicar o que se passava com ele. O foco de Phillip estava no crime realizado com sua participação – “acho que uma pessoa era tão boa ou tão ruim como qualquer outra. Você me assusta. Sempre me assustou. Desde o primeiro dia de aula. Talvez faça parte do seu charme. Não fico calmo como você, e resolvi brincar com você”. Para resumir a posição dele, seria dito, com base nas informações que se tem da história, que Phillip fora convidado para uma brincadeira e, sem ameaças, ele falou “sim”.


Eles discutiam a relação na presença do falecido jovem que escondido naquela caixa não deixava de ser testemunha da desrazão produzida no encontro entre os dois amigos. Brandon não conseguia convencê-lo de que a realização do crime os colocava em um status superior àquele dos que somente maquinam o mal, entretanto, com eloquência, prosseguia: “o poder de matar é tão gratificante quanto o de criar. Um assassinato impecável. Matamos pelo prazer do perigo de matar. Estamos vivos. Verdadeira e maravilhosamente vivos. Nem champagne se compara conosco ou com a ocasião”. Por alguma razão parece que somos instigados mais a querer saber dos motivos que levaram Phillip ao acordo do que entender a causa do assassinato, afinal, não somos detetives civis, e uma vez acontecido... Há pistas significativas a serem consideradas. O “jovem culpado” também faz o outro falar. Ele quer saber como o amigo se sentiu durante a realização do ato. A finalidade do grifo será entendida mais adiante. Brandon retrata que não era fácil explicar-lhe, mas que não se lembra de nada até que o corpo de David amoleceu, de maneira que ele sentiu “uma exultação tremenda”.


Ora, a linguagem do crime anuncia, na realidade, a realização de outro ato entre dois homens abominável aos preceitos civis e morais daquela civilização. Phillip não fora enganado ou levado a ser um simples cúmplice, mas ele se submeteu a tudo por amor e devoção ao amigo. Com a realização deste “crime colegial” ele pode estabelecer uma aliança com Brandon, este outro desejado. Qual era o seu verdadeiro remorso? Provavelmente em sua consciência ele se sentia culpado pelo homicídio de David, mas é possível considerar que o conflito de Phillip estava localizado no “choque” e na oposição entre um desejo homossexual e as leis internalizadas e a moral sexual civilizatória que condenava este tipo de afeto. Com o crime fora constituído um “nós” no discurso entre os amigos e esta certeza de que o desejo se transformou em ato causava-lhe ainda mais angústia. Phillip queria saber sobre o prazer do outro, ou seja, ele fazia um inquérito a fim de averiguar se valera a pena a submissão ao ato, revelando, portanto, que assim fizera para satisfazer o desejo do outro amado. Em síntese, entende-se que Phillip tinha características de um sujeito apaixonado que burla suas leis internas por devoção ao encanto suscitado pelo outro. Ademais, o crime foi uma relação sexual, pois retrata uma circunstância em que dois sujeitos cederam ao desejo. Eles brindam a David, afinal foi ele que na condição de oculto faria com que aquele jantar se realizasse.   


Conforme acertavam os últimos preparativos, Brandon anunciara a Mrs. Wilson | Edith Evanson |, a funcionária responsável pelos serviços domésticos, que a mesa seria destinada a leitura e os alimentos e bebidas seriam expostos acima da caixa que estava na sala. É evidente que a ela esta subversão toda pareceu uma decisão desprovida de qualquer sentido, principalmente, pelo uso de candelabros sobre a mesa, que sugeriam, segundo Brandon, “um altar cerimonial onde pode amontoar comida para o sacrifício”. Realizar uma ceia sobre uma grande caixa retrata exatamente a fusão entre o comer, considerado um ato sagrado, com a celebração do profano representada na prova do crime oculta aos olhos, mas ao mesmo tempo presente no interior da caixa.


Aos poucos começaram a chegar os convidados: Kenneth | Douglas Dick |, sua ex-namorada e a “atual” de David, Janet | Joan Chandler | e os pais de David, Mr. Kentley | Cedric Wardwicke | e Mrs. Atwater | Constance Collier |. Não é necessário decorar os nomes. O participante mais importante ainda não chegara. Na realidade todos participariam da festa e notariam os “comportamentos cabreiros” de Phillip que seriam justificados por Brandon: “ele está um pouco antissocial hoje”. Durante a festa também foi revelado pelo amigo que Phillip passaria um tempo na casa da mãe de Brandon. Talvez ele se sentisse ansioso. A bem da verdade é evidente que Phillip estava “sem corda”, ele se sentia desconfortável por supor um saber nas pessoas presentes. Ir à casa da mãe de Brandon seria uma solução possível, pois o ato de estar confinado em uma casa distante remete ao conforto de um armário em sua denotação popular. A ele seria permitido sossegar-se caso encontrasse um lugar seguro para o ocultamento de seu crime motivado pelo desejo por Brandon.  


A festa não começa antes da chegada da pessoa mais importante. Claro que o real promotor do evento já estava lá, mas oculto. Assim o mais importante seria aquele que desconfiaria da existência do faltante, e não, não seria o analista. Para a surpresa dos amigos, Rupert | James Stewart | compareceu. Caso não seja uma fantasmagoria da minha cabeça, ele fora professor dos amigos e da vítima e possuía um humor privativo apropriado para uma “festa peculiar” como comentado. No tempo em que bebiam e conversavam, aos poucos os presentes começaram a questionar a ausência de David, que não tinha o hábito de se atrasar. Enquanto isso Phillip bebia mais ainda como uma tentativa de aplacar o horror da possibilidade da caixa ser aberta, e a Brandon, de outro modo, tudo parecia ser cômico, inclusive, convidar o ex-namorado e atual rival do “aniversariante” para a celebração.


Entre os diversos assuntos que animadamente falavam, Mrs. Atwater comentava sobre suas predileções cinematográficas. Brandon, com seu “humor canastrão” decide contar a todos acerca de um episódio no qual Phillip torcia o pescoço de três galinhas, “uma tarefa que realizava com eficiência”.  O acusado se expressou: “Não é verdade! Nunca estrangulei uma galinha!” Ao olhar de crítica de Rupert, Janet comentou: “perdão, mas é engraçado ficarem alterados por uma galinha morta”. É possível que aquele encontro tenha sido organizado de acordo com o interesse de Brandon em “chocar” realmente, ou seja, revelar um dito de verdade que transformaria todos os presentes em coparticipantes de um ritual profano, mas caso não fosse este o objetivo então é certo que o maior erro da dupla criminal foi se pôr a falar. Sempre há alguém apto a encontrar sentido onde não se aparenta existir. Como perceberam, a Rupert o desaparecimento súbito de David não era um fato comum, aos poucos lhe pareceu concebível associar a ausência do jovem com o temor de Phillip e a eloquência exacerbada de Brandon.

Quero ressaltar que, para além da disputa entre revelar ou manter oculto estava posto em cena um conflito entre instâncias psíquicas representadas naqueles três homens. Brandon, Phillip e Rupert representavam, respectivamente, as três instâncias psíquicas formuladas na segunda tópica freudiana: id, ego e superego. 


Ora, o que faz o primeiro senão ansiar o tempo todo por satisfações infantis? Que criminoso daria um jantar para proclamar o seu crime e possivelmente ser punido? Os seus atos eram propriamente manifestações desprovidas de sentido lógico. Ele constituía-se como uma pessoa de caprichos e não fazia uso de uma diferenciação entre o certo do errado. A discussão sobre a “galinha estrangulada” nada mais foi do que uma afronta do id ao ego, pois Brandon desejava revelar o fatídico acontecimento. 


Phillip é a materialização de um ego em estado de calamidade por haver cedido a seu desejo. Ele tentava – como sabiamente revelou Freud – atender a dois senhores, a conciliar as exigências pulsionais de Brandon, bem como sua devoção por ele, com as espreitadas de um superego quase onisciente. A ingestão de bebida alcoólica, neste contexto, pode até mesmo aludir a uma tentativa fracassada de afastar-se da realidade, de se retirar deste campo de conflito. Ademais, ele não sabia a quem agradar e temia o seu futuro – “rezo para acordar e ver que não fizemos nada ainda”.


Rupert era o juiz da história, o representante moral. O superego, por sua condição tirânica, assume a função de agente criminal, ele interpreta o conto do id sobre a galinha morta como um dito de verdade, como algo que aponta outro caminho. Ele age via discurso e aumenta a tensão do ego ao lhe exigir a mesma atenção e obediência cedida ao id. O seu propósito final era confirmar suas hipóteses para incidir mais ainda a lei sobre Phillip fazendo com que o mesmo tivesse que elaborar alguma saída possível ao sentimento de culpa.

A história nunca termina enquanto não se responder às perguntas: seria um homicídio mais admissível socialmente do que o sexo? Por qual finalidade um pode ser visto sem maiores pudores e outro tem que ser escondido? Ademais, não há dúvida de que atender as paixões pode ser excitante a um amigo e terrificante para outro. Em festas peculiares observe as mesas.  

Com apreço,

Renato Oliveira

17.11.10

Que felicidade é esta?

As artimanhas do cinema nada mais são que linguagens. O cinema é um brincar de linguagem: oposições, chistes, metáforas, sentidos figurados, hipérboles, etc. há inúmeras possibilidades. Hoje iremos nos referir ao passado para falar do que é próprio da linguagem, assim como abordar a temática da morte, do sangue e da perda afim de encontrar alguma representação para a felicidade.

Uma bucólica sensação dos anos 50. Aqueles que viveram nesta época certamente saberão descrevê-la. Aos demais, são as imagens, o som e a fala de um outro que nos remete à este momento. O final da Segunda Grande Guerra se apresenta como o início para um novo período de sonhos e conquistas. O filme “A Suprema Felicidade” de Arnaldo Jabor retrata um universo de sonhos, marcado pela necessidade de dar significado ao desejo, a falta e a sexualidade. 


O roteiro apresenta diferentes períodos da vida de um casal: desde o encanto da paixão inicial aos momentos de questionamentos de seus próprios papéis. Trata-se aqui de pessoas marcadas por sonhos. Marcos | Dan Stulback | era aquele que sonhava voar, para ele pilotar um F80 constituia um propósito de extrema importância, mas o sonho masculino contrastava com o sonho feminino ilustrado por Sofia | Mariana Lima |, que representava a dona de casa que almejava um emprego e uma maior autonomia para o seu desejo. Um discurso que não se encontrava: o desejo de Sofia era divergente dos propósitos de Marcos, e esta, enquanto uma mulher desejante e desejável era capaz de provocar-lhe fúria. É neste desencontro de falas, de saberes e de posições que a história acontece e a temática da felicidade se evidencia. 


Ora, são as percepções do único filho deste casal, Paulinho | Caio Manhente, Michel JoelsasJayme Matarazzo | que nos faz assimilar este universo que se mostra. Aos oito, 13 e 19 anos, diferentes etapas: todas elas marcadas por um olhar. A compreensão do que é a felicidade seria internamente elaborada para ele a partir de seus primeiros referenciais, que além de seus pais incluía o seu avô Noel | Marcos Nanini |. É interessante observar que desde o início há uma busca por tentar representar a felicidade de algum modo, de dar fala, de trazê-la em palavras, de articular um discurso a respeito dela. Mas trata-se de algo muito abstrato, portanto, foi preciso fazer uso da criação, das sucessões causais e de coisas opostas afim de que a Suprema felicidade, da qual Jabor nos fala, pudesse ser representada. 

Sendo assim, a felicidade se mostra neste primeiro momento relacionada ao sonho, às expectativas e às ilusões. Contudo, a Psicanálise nos faz dirigir o nosso olhar para o inverso: é o avesso e a oposição que nos interessa, e será por meio da análise do significante que encontraremos um novo modo de enxergar a supremácia da felicidade implícita neste trabalho.


Pois bem, no roteiro, há a repetição da presença do sangue, da morte e da virgindade. Estes três elementos centrais nortearão a idéia de felicidade que por si só não é possível apreender. O sangue é algo que se mostra desde as primeiras cenas, na qual um menino faz um corte em sua mão durante uma reza. O sangue é a presença de uma perda, de algo que se vai. Posteriormente ele aparece em um teatro de anões, no qual é simulado um esfaqueamento provocando um tremendo horror nas crianças que o assistiam. Vejam: sempre que o sangue aparece, ele se apresenta acompanhado de uma perda, desvelando a morte a partir de tal. 

Em síntese, a morte e o sangue se apresentam em outros contextos: via repressão do ato masturbatório, o qual é associado à morte de espermatozóides; na experiência dos espectros, em virtude de um corte na mão de Paulo e com a prostituta morta a facadas. Enquanto a presença real do sangue afirma o temor da morte, a suposição imaginária do sangue ilustra o desejo pela perda da virgindade.


De modo contextualizado, o diretor aborda o tema da virgindade a partir do fascínio do corpo e da descoberta da sexualidade. Paulinho lidava com o temor desta descoberta a partir de uma falta e esta não somente no que diz respeito ao ter outro objeto, mas na falta pelo saber, pela representação. Ele não sabia o que queria ser, mas sim o que não queria: “não quero ser igual a esta gente e nem igual aos meus pais”. Foi esta insatisfação quanto as noções de felicidade que se mostravam até então, que o fez encontrar um outro comum nesta linguagem. Ele identificou-se com Marilyn | Tammy Di Calafiori | uma jovem de 16 anos que trabalhava para seus pais como dançarina. Era feito uso de sua virgindade na apresentação de um corpo intocável, disponível apenas ao olhar daqueles que lhe pagavam. “A virgindade vale ouro”, conforme ela afirmava. Observem que o tema da felicidade apresenta-se novamente, apontando um modo de gozo a partir daquilo que se retém, ainda que a custa de privar-se de uma satisfação.

A Suprema Felicidade em momento algum se mostra como tal, ela é apresentada via linguagem: com a dança, o riso, o som, a arte e os chistes. Ela é linguagem e se constrói na relação com outros sujeitos faltantes (desejosos). O pânico diante da presença do sangue que aponta o temor da morte, assim como o sangue que imaginariamente ilustra uma satisfação, afirma que este significante possui diferentes significados no decorrer do roteiro. 


Observamos também que a felicidade pode ser encontrada e experenciada de um modo singular. Noel afirma a seu neto: “ninguém é sempre feliz, com sorte dá para ser alegre; a vida gosta de quem gosta dela”. Podemos relacionar esta fala com a clássica afirmação de Freud: “A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz". Estas duas citações nos mostram que a felicidade é compreendida no âmbito do singular, na aproximação do sujeito àquilo que trás significado para as desgraças, anseios e prazeres da própria realidade humana. Esta noção é trabalhada por Freud em seus textos sociais, localizando a civilização como uma esfera potencializadora do sofrimento psíquico, a qual não incluiu em seus projetos a responsabilidade pela felicidade do homem.

O descontentamento e o temor diante da perda faziam com que aqueles sujeitos elaborassem novas noções a respeito da felicidade. Era preciso deparar-se com o vazio, com a falta e com o temor da morte para assim constatar que em suas vidas era possível encontrar-se com satisfações momentâneas e significativas. Deste modo podemos compreender que a suprema felicidade é uma construção singular, que se articula nas ações daquele que acreditam ser capazes de exercer ações transformadoras.

Super abraços,

Renato Oliveira

15.6.10

Fofuras bizarras

“A ironia está nos olhos de quem vê”, péssima adaptação, eu sei. Mas acredito que esta foi uma das minhas conclusões após ver os trabalhos de Todd Solondz. O seu modo de tratar as questões da sociedade norte-americana nos convida a conhecer uma realidade sem máscaras.


O filme “Bem vindo à casa de bonecas” | Welcome to the Dollhouse – 1995 | é um convite ao riso embora não se trate de uma comédia. Humor negro, talvez. Se provocar uma condição de riso pode ser capaz de promover reflexão, esta certamente foi a aposta do diretor. A casa de bonecas é composta por: Sr. e Sra. Wiener, Dawn, Missy e Mark Wiener.

Dawn | Heather Matarazzo | é a irmã do meio entre a picorruxa fofinha Missy Wiener | Dalina Calinina | e Mark Wiener | Matthew Fabber | um geek conhecedor de computadores e aspirante a talentoso. O desenvolvimento da história nos mostra que as situações não favorecem os anseios de Dawn em ser aceita, querida e desejada. As clássicas cenas daqueles que são traumatizados em uma High school foram apresentadas em uma abordagem muito peculiar.


Sejamos claros que estereótipos de “fulana, a feia” já se tornaram banalizados e não há nada de inédito nisso. Porém, Todd parte deste estigma (ainda menos convencional a época) para mostrar o cotidiano daqueles que estão fadados a uma condição de escárnio. A ótica do diretor não se restringe em retratar o bulling, mas visa afirmar que os valores e comportamentos da família não são mais os mesmos.

Dawn é aquela que transita entre ser criança e uma mocinha não completamente desenvolvida, ela é estigmatizada como um ser frágil, feia, repulsiva, sem voz e sem lugar, ou seja, um escárnio social. Há uma cena muito curiosa em que ao ir ao banheiro, ela é surpreendida por uma menina que a obriga a utilizá-lo com as portas abertas, prestando-se à observação e impossibilitando-a de reagir a esta afronta. Ao perguntar-lhe o porquê desta atitude, Dawn questiona: “Por que você me odeia?”. Francamente lhe é dito: “Because you is ugly” - “Porque você é feia”.


Os infortúnios de Dawn se estendem à suas relações com a família. A intolerância vivenciada na escola é igualmente observável na concepção de seus pais. Há um jogo de diálogos que articula o sarcasmo, a discriminação e a própria distinção do amor e atenção que é direcionado àqueles três filhos.

A condição humilhante de Dawn a conduz a uma maneira muito específica de lidar com os objetos. Ao construir o Special People Club ela tenta incluir aqueles que de algum modo são significativos para si, em sua fala é perceptível que estas pessoas especiais são aquelas populares, confiantes em si mesmos e acima de tudo, bonitos. É o reconhecimento de uma falta que a leva a super estimar e invejar os que são portadores do que é faltante em si mesma.


Portanto, casa de bonecas: um lugar de doçura, de coisas fofas, do encanto, magia, brilho, beleza, amabilidade. Aonde? Todd aponta: conheçam um LUGAR REAL. Este lugar afirma a própria indiferença dos pais em relação aos filhos que não correspondem à seus ideais. Os objetos desta brincadeira são: martelo e serrote, com os quais Dawn corta a cabeça de uma das bonecas de Missy e sente-se impulsionada a martelar a própria irmã enquanto dorme.

As tentativas de Dawn em reverter esta situação de desgraça são repetitivas, frustradas e insuficientes porque socialmente não lhe era permitido ser outra pessoa, ela havia sido eleita por aqueles que a rodeavam a uma condição de riso, escárnio e zombaria.


O riso possui um significado e uma determinação inconsciente podendo estar relacionado às pulsões de agressividade. Portanto, “não rimos apenas por rir”. O escárnio pressupõe lugares de poder e o ridículo ilustra o lugar do fraco. Há um prazer obtido no encontro com aquele que demanda sofrimento, pois é justamente o seu silenciar que potencializa o gozo do outro e afirma a potência do agressor. Logo, é a própria sociedade que elege aqueles com os quais quer zombar. Há um lugar do não-ter e não-ser observado no massacre que sugere à alguns que não saiam de seu lugar comum: desempregados, tímidos, feios e loucos. Determinam-se assim os “nada-ser”.


Todd Solondz é nocivo para aqueles que acreditam que a família é completamente boa. A idealização da família tradicional é algo que não mais se sustenta. Suas críticas levá-nos a questionar a eficácia dos valores éticos e religiosos que impõe ao sujeito o dever de amar o próximo como a si mesmo. Constantemente presenciamos o massacre social sobre aqueles que refletem o lugar de “não-ter” e “não-ser” aos quais de algum modo é dito: “não saia de sua condição introspectiva”.


Portanto, todos somos bem vindos ao lugar em que o ridículo é exposto para que seja possível refletir sobre o uso que é feito de serrotes e martelos nas mãos daqueles que, como Dawn, tentam sair do lugar comum.

Abraços,

Renato Oliveira

23.12.09

Propaganda e o ato político

Em outra ocasião eu falava sobre a ilusão de um Hipermercado que mobilizou milhares de pessoas na República Tcheca em busca do prazer atrelado ao desconhecido. Era uma promessa de consumo em um período de racionamento. Mas imaginem que causar este abalo todo não foi uma tarefa simples, foi preciso super investir no marketing. Aquele ditado já clichê " a propaganda é a alma do negócio" aplica-se perfeitamente bem ao que pretendo expôr.
Quaisquer produtos? Claro que não, os produtos eram costumizados e levavam a marca do Ceský Sen.

                   
            
              
Apenas convencer as pessoas a estarem presentes no dia da inauguração não era suficiente, era preciso conduzi-las à uma condição desejante, pois a partir disso estas estariam dispostas a transpôr qualquer obstáculo para obter os melhores produtos.

Os alunos de cinema foram tão ineditistas que elaboraram um novo modo de anunciar. O cartazes diziam: "Ceský Sen? você não deve conhecê-lo", "Não gaste dinheiro com isso", "Não vá na inauguração". A negação do real e a propaganda contrária aumentou ainda mais o interesse da população.

Toda esta movimentação ilustra que o desejo advém por meio da imagem. A própria indústria pauta-se nesta condição para atingir seus objetivos. Para a Psicanálise é fundamental analisar a função que a imagem e o objeto tem na vida mental do sujeito, e como este é capaz de sustentar o desejo frente às exigências sociais.
Não é atual falarmos em "fetichização da mercadoria" em que a partir da representação (propaganda) é possível entender a manipulação relativa a forma de gozo proposta. Assim, busca-se determinados objetos não apenas por sua utilidade, mas sim pelo prazer que pode ser obtido com sua compra/ através dele.
Compras? foi tudo o que não ocorreu.

    
   
                                     
Ao cortar a fita inaugural, via-se pessoas eufóricas, correndo na certeza de que seriam as primeiras a testificar o novo invento e usufluir de seus benefícios. Mas em torno de menos de minutos o cenário se altera. Os primeiros a chegar, viram que o Hipermercado era composto por grama, apenas isso.

                                  
                                  
                                  
                                  
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Como você reagiria? Aquelas pessoas se pautaram em uma promessa de felicidade, sentiram-se enganadas e frustradas ao reconhecer que tudo baseou-se em uma ilusão. Porém, as reações foram distintas. Algumas fias reclamaram, outros questionaram que perderam tempo, outros riram, outros armaram o barraco... e alguns refletiram.

O Sonho Tcheco fundamentou-se em uma ação política que visava mostrar aqueles sujeitos o engano que diariamente se submetiam frente aos ideais e imposições do governo. Eles procuraram mobilizar um saber que visava transformação ao buscar modificar uma condição alienante.

Acho válido registrar que o ato psicanalítico também é um ato político, pois visa transformação. É uma aposta de que a partir do conhecimento do desconhecido, das representações inconscientes que determinam a nossa vida mental, é possível conduzir o sujeito à uma nova condição. A análise não visa adaptação, mas sim abrir lugar ao novo, é provocar reflexão e desejo por mudança.

Feliz Natal à todos!

Renato Oliveira

7.11.09

No ar: Cine Freud

Corre fia, corre que vai começar!

Você já parou prá pensar num Cinema além do que pode ser visto? Quais as representações simbólicas por trás das cenas que vemos?

Pois é, se você é crítico, cri-cri, curioso, psicanalista ou leigo, bem humorado ou blasé, obsessivo ou sádico, está no lugar certo!

Meu objetivo é propôr este espaço para falarmos deliberadamente do que nos atrai. Para isso, reuni elementos fundamentais: bom humor, temperança e conhecimento. Assim, sinto-me bem confortável à dizer o que quero.

De onde surgiu?
Hmm... permita-me voltar no tempo por um instante.


Minha paixão pela Psicanálise data de pouco tempo. Sim, posso ser mais preciso: desde 26 de Fevereiro de 2008, Não sou N.O. ok? primeira aula de Psicanálise do primeiro ano da faculdade, pronto.
Desde então, os queridos livros da capa preta do mestre austríaco me acompanham diariamente.


Contentar-se com o manifesto não era uma característica do nosso querido Freud.
Para ele, o riso, o humor, as piadééénhas, os trocadilhos do cotidiano "falam mais" do que querem ser dito. Pois falam de outro, desconhecido de si que interpela a si. -q

O cinema mostra-nos a dimensão do desejo humano. O desejo de quem o faz, assim como daquele que assiste, divulga, critica, acha boniiiiito, nonsense, hilário, trash, desnecessário.


Portanto, sinta-se bem para dizer "tudo conforme lhe vier a mente". Acredito que será uma experiência tri-interessante.

Passar bem à todos!

Renato Oliveira